Balanço

Entre o apelo da história e do som

Debates virtuais, entre lançamentos de velhas e novas gerações, foram destaque na música brasileira em 2017

A banda Cidadão Instigado celebrou 20 anos de carreira com um dos melhores shows de 2017
00:00 · 03.01.2018 por Felipe Gurgel - Repórter
Curumim, Tim Bernardes, Mano Brown, Ricon Sapiência, Otto e Don L: destaques fonográficos do ano que passou revelam boa safra do rap nacional

Aqueles que acompanharam os debates em torno de "Vai Malandra", sucesso recente da cantora Anitta, e de "Tua Cantiga", do último álbum de Chico Buarque ("Caravanas", de agosto passado), tiveram um aperitivo do que foi consumir música brasileira em 2017. Em tempos de efervescentes debates políticos via redes sociais, nenhuma letra ou imagem, compartilhada por algum artista de médio ou largo alcance, passa pelo crivo do público sem as (justas ou não) problematizações.

No entanto, 2017 foi tempo também para a consolidação do rap, por exemplo, como uma das pontas de lança do cenário da música brasileira. Em 2016, o gênero já apareceu muito forte nesse sentido, e o lançamento de "Boogie Naipe", de Mano Brown, nos últimos dias daquele ano, serviu para marcar o sucesso que viria pela frente.

Com a investida solo, para além da emblemática carreira com os Racionais MCs, o próprio Brown levou o prêmio de "melhor show do ano" de 2017, segundo a Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) - hoje a premiação mais relevante da crítica nacional.

E o rap ainda "sobrou", dentre os destaques do ano, com o paulista Rincon Sapiência, eleito pela APCA como "Artista do ano" (Anitta, Chico Buarque, Mano Brown e Tim Bernardes também concorriam). Sapiência lançou, em junho passado, o elogiado "Galanga Livre".

Ainda pela escolha da APCA, Sapiência foi indicado dentre as cinco melhores músicas de 2017 ("Meu Bloco"). Baco Exu do Blues foi um dos indicados na categoria que elegeu Pablo Vittar a "Revelação do ano". E o cearense Don L teve seu novo álbum, "Roteiro Pra Aïnouz vol.3", lançado em junho, apontado pela mesma associação como um dos 50 melhores do ano.

Solos

Outra pérola do segundo semestre foi "Recomeçar", estreia solo de Tim Bernardes (O Terno/SP). Tim surpreendeu, ao se aventurar sozinho, num momento em que o trio paulistano tinha lançado seu disco mais acolhido ("Melhor do que parece", prêmio APCA em 2016). O repertório solo, de extremo caráter confessional, teve forte identificação com os fãs do paulistano, ao mesmo tempo que a crítica o acolheu quase sem nenhuma ressalva.

Quem também se sobressaiu em voo solo foi o ex-titã Paulo Miklos. Autor do bom "A gente mora no agora", Miklos praticamente "reinventou" sua carreira solo, à qual se dedicava sem tanto investimento, em paralelo aos Titãs.

Ainda dentre os veteranos da MPB, Guilherme Arantes lançou "Flores e Cores" (também reconhecido pela APCA). Ele rearranjou criações dos anos 1970 e registrou um disco de inéditas após quatro anos. Vitor Ramil reverberou para além do Rio Grande do Sul com o belo "Campos Neutrais", lançado em outubro.

O time mais experiente do rock nacional também figurou entre os lançamentos, com o Paralamas do Sucesso e seu "Sinais do Sim". O Pato Fu lançou a segunda edição do sucesso "Música de Brinquedo", para crianças e adultos. Os pernambucanos da Nação Zumbi, "Radiola NZ Vol. 1". E o conterrâneo Otto desfez um hiato de seis anos sem disco de inéditas, ao lançar "Ottomatopeia" em junho.

Boca

Dentre os 50 discos indicados pela APCA, "Boca", do baterista Curumin, levou o prêmio de melhor do ano. Parte da curadoria sempre atenta do programa Natura Musical, o álbum é aquele trabalho com "ar de despretensão" (e boas canções, como "Prata, Ferro, Barro", "Terrível" e "Boca Cheia") que soou muito bem aos ouvidos da crítica.

A produção de Curumin se situa dentre outros trabalhos de médio alcance da MPB. E, nesse naipe, destacaram-se também os discos de Giovani Cidreira ("Japanese Food"), Domenico Lancellotti ("Serra dos Órgãos"), Felipe S ("Cabeça de Felipe"), Maglore ("Todas as Bandeiras"), Lucas Santtana ("Modo Avião") e Luiza Lyan ("Oyá Tempo"), entre outros trabalhos.

Ceará

No cenário local, além da morte de Belchior (em abril) e da série de tributos que surgiram a reboque do fato, 2017 foi ano de lançamentos de novas e velhas gerações. Os veteranos da banda de metal Obskure e o compositor Pingo de Fortaleza lançaram trabalhos neste mês. Daniel Medina, radicado em São Paulo, foi outro que lançou seu primeiro álbum neste semestre, no Theatro José de Alencar (TJA).

Também no TJA, Vitor Colares apresentou, no início do ano, "Eu entendo a noite como um oceano que banha de sombras o mundo de sol". A cantora Soledad lançou seu álbum homônimo, dois dias depois, no Dragão do Mar. Daniel Peixoto divulgou seu segundo álbum solo, "Massa", em abril.

Oscar Arruda também lançou o segundo disco, "Egomaquia", no mesmo período. E Vitoriano e Seu Conjunto, outro time de músicos cearenses radicados em São Paulo, disponibilizou "Para manter a loucura estável" em julho. A revelação Camila Marieta soltou, já no final do ano, seu novo EP, "Tropeço no meio fio'.

A cereja do bolo do cenário local ficou para a indicação pela APCA do Cidadão Instigado, celebrando 20 anos em 2017, como um dos melhores shows. A banda cearense disputou o prêmio ao lado de Mano Brown, Curumin, Far From Alaska e Luiza Lian.

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