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Entre a realidade e a ficção

Com exibição única hoje em Fortaleza, o filme "O Quarto Camarim" pauta a questão LGBT e o modo de se fazer cinema

00:00 · 06.04.2018 por Felipe Gurgel - Repórter
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Trecho do filme "O Quarto Camarim": finalizado há menos de um ano, o longa ainda ganha espaço entre a crítica de cinema, antes de adentrar o circuito comercial
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A baiana Camele Queiroz assina direção e roteiro do longa-metragem, ao lado de Fabrício Ramos. Ela também foi personagem do filme ( FOTO: FABRÍCIO RAMOS/DIV. )

Desde que o filme foi finalizado, em meados do ano passado, "O Quarto Camarim" seguiu o caminho convencional das produções de cinema independente e de baixo orçamento. Combinando realidade e ficção, o longa-metragem, dirigido por Camele Queiroz e Fabrício Ramos, conseguiu, até aqui, mais espaço em mostras de festivais internacionais, do que pelo circuito nacional. O roteiro traz a história da travesti Luma, parente da própria diretora Camele.

Nesta sexta (6), às 19h30, haverá exibição única do filme no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Praia de Iracema), seguida de um debate mediado pelo crítico de cinema Diego Benevides. A programação é gratuita e faz parte da "Sessão Abraccine", projeto de difusão da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

Pela mesma temporada, o longa-metragem foi exibido em Goiânia (GO), São Luís (MA), Florianópolis (SC), Belém (PA), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), Porto Alegre (RS) e João Pessoa (PB). Na sequência, Belo Horizonte (MG), Recife (PE), São Paulo (SP), Natal (RN) e Aracaju (SE) estão no roteiro de exibição, em datas ainda a definir.

Em entrevista por telefone, a diretora baiana Camele Queiroz (36) observa que o filme já tinha uma inclinação para misturar realidade e ficção, desde a concepção do projeto que foi contemplado pelo programa Rumos Itaú Cultural (2015-2016).

"O filme parte de eventos de memória, então desde o princípio existia essa liberdade. Não existia uma 'determinação', mas havia uma inclinação sim", expõe Camele. No filme, a diretora reencontra, depois de 27 anos, com seu tio Roniel (51), agora identificado como a travesti Luma.

Camele Queiroz coloca que havia uma tensão sobre a participação de Luma no filme, e isso é exposto durante o próprio longa-metragem. "Achamos que seria interessante pra história. Havia uma série de riscos e de inseguranças por parte dela, já que ela não conhecia o que seria feito. Como ela própria diz no filme: 'o cinema é um mundo novo pra mim'", recapitula a diretora.

Camele conta que a equipe de filmagem se preocupou em tirar todas as dúvidas de Luma e explicar, sempre, a proposta do filme. "A partir de um momento, o cinema mediou a relação entre eu e minha tia. Então nada mais justo a gente colocar (na edição final) essas desavenças", detalha.

Divisão

A baiana dividiu a assinatura do roteiro e da direção com Fabrício Ramos. Na prática, Camele Queiroz recorda que o papel do diretor foi fundamental quando ela precisou se expor, também, como uma personagem do filme.

"A gente já tinha feito vários trabalhos juntos, e nosso processo de autoria era sempre compartilhado. Mas o filme teve esse elemento, diferente de tudo, de eu ir pra frente da câmera. Não era uma ideia inicial, mas a gente ficou, a partir desse momento, com essa situação nova pra lidar. E ele pôde traçar alguns caminhos de uma forma mais isenta", conta Camele.

Circuito

A produção do filme chegou a inscrever o longa-metragem para participar de festivais que, tradicionalmente, acolhem temáticas como a LGBT, a exemplo de Brasília (DF) e Tiradentes (MG). No entanto, "O Quarto Camarim" não foi contemplado por esse circuito e chega a Fortaleza após integrar a programação de três mostras internacionais, em Vancouver (Canadá), Ilha de Maragarita (Venezuela) e Santo Domingo (República Dominicana).

Segundo Camele Queiroz, os primeiros meses de divulgação do filme foram dedicados ao diálogo com a crítica, a fim de levantar os debates que envolvem a produção.

"Pra depois pensar na possibilidade de ter alguma circulação nas salas comerciais. Tentamos financiar através de um edital da Ancine (Agência Nacional de Cinema), mas tivemos um parecer extremamente preconceituoso, e o projeto tinha como escopo (justamente) colocar o filme nas salas comerciais", revela a diretora, a respeito da dificuldade de captar recursos, para "O Quarto Camarim", sem esbarrar em preconceitos.

Debates

Indagada sobre quais seriam os principais pontos de debate do filme hoje, Camele Queiroz pontua que há três questões fundamentais. "Começaria com a questão de ser um filme que trata desse reencontro íntimo, familiar, e que as pessoas se identifiquem com isso a partir de suas próprias histórias, de suas rusgas familiares", destaca.

O segundo ponto é a reflexão sobre o próprio "fazer cinema". Sem firmar se é 100% documentário, ou ficção, "as fronteiras dos formatos ficam tênues, e o filme abre margem para diversos entendimentos. É a busca de um cinema de autor. E o público capta isso forte no filme".

Por último, a questão de Luma ser uma travesti, para Camele, traz dimensões complexas no aspecto social, político, de gênero e da sexualidade. Nesse ponto, enfatiza a diretora, "o filme desconfia de uma retórica e de uma argumentação excessiva. E tem como eixo o 'não dito'. Luma é travesti, isso é forte, todas as questões (sobre isso) saltam à tela, mas cada um vai entender o que puder (do que assistir)", complementa.

Mais informações:

Exibição do filme "O Quarto Camarim", de Camele Queiroz e Fabrício Ramos (BA), seguida de debate mediado pelo crítico de cinema Diego Benevides (CE). Nesta sexta (6), às 19h30, no Centro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Acesso gratuito. Contato: (85) 3488.8600

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