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Entre a garagem e o público

Projetos como o Porto Dragão Sessions (CE) e Incubadora DoSol (RN) impulsionam carreiras da cena independente

De cima para baixo: Selvagens à Procura de Lei, Daniel Groove e Jonnata Doll, três dos selecionados para o Porto Dragão Sessions ( Foto: Eduardo Escariz/Nino Andres/Div. )
00:00 · 14.03.2018 por Felipe Gurgel - Repórter

Com as tecnologias barateadas de produção e acesso a conteúdos digitais, o cenário independente das linguagens artísticas ficou repleto de oportunidades mais acessíveis a quem quer produzir e também consumir. Quando se olha para o circuito da música independente, por exemplo, a sensação de que surge uma banda nova (e com uma trajetória razoável) a cada semana é evidente.

Para se sobressair diante desse contexto "super povoado", a iniciativa privada e o próprio poder público têm ajudado os artistas, no Nordeste, a produzir conteúdos diferenciados e cavar oportunidades consistentes, a partir disso. Em Fortaleza, o projeto Porto Dragão Sessions, realizado pelo Instituto Dragão do Mar, do Governo do Estado do Ceará, começou o trabalho, nesse sentido, com os primeiros 15 artistas selecionados, em fevereiro passado.

Em Natal (RN), a produtora DoSol mantém iniciativa similar, a Incubadora DoSol, há sete anos. Em 2018, a Incubadora, feita normalmente com recursos próprios do empreendimento potiguar, terá o patrocínio da operadora Oi pela primeira vez.

Segundo o produtor Anderson Foca, coordenador do projeto, de 2011 pra cá, a Incubadora DoSol teve um hiato de dois anos (2015/2016) e só teve patrocínio, antes da Oi, em 2013, com o apoio financeiro do Itaú Cultural.

"A diferença, entre ter e não ter (esse apoio), é que a gente consegue ampliar a ação quando o patrocínio acontece. Conseguimos empurrar os vídeos no You Tube, no Facebook, e espalhar mais os áudios para os produtores, estúdios. Conseguimos fazer isso de uma maneira mais coletiva. Tem um alcance maior", observa Foca.

Todo artista que participa da Incubadora DoSol passa por um processo de direção artística e orientação de carreira, além de, normalmente, gravar material de áudio com a produtora e se apresentar em palcos como o do Festival DoSol, realizado anualmente em Natal.

"(A dupla) Talma & Gadelha nem tinha esse nome, por exemplo, quando entrou. A gente trabalha todas as minúcias do artista. Como ele vai se posicionar nas plataformas de streaming, e diante do público. O artista fica um ano com a gente, e participa de tudo que o DoSol faz. Toda oportunidade que a gente tem de agenda, tudo, não só o Festival DoSol", sinaliza Foca.

Ele resume o processo na ordem do artista "gravar, fazer o ajuste artístico/administrativo, e se apresentar". Para 2018, a Incubadora vai trabalhar com quatro nomes: a cantora Luaz, além dos grupos Potyguara Bardo, Joseph Little Drop e Soul Rebel.

Foca esclarece que a Incubadora tem, em sua "centelha", o objetivo de trabalhar com artistas que ainda precisam ter mais visibilidade no cenário potiguar e nacional. "A gente trabalha no DoSol, em outras vertentes, com artistas que já têm público na cidade, e algum público fora também. Mas bandas como o Plutão já foi Planeta (banda potiguar que alcançou visibilidade nacional) passou pelo projeto", identifica.

Porto Dragão Sessions

Apresentado como uma "aceleradora de projetos artísticos e produtora de conteúdo", o projeto Porto Dragão, em Fortaleza, selecionou 15 nomes do cenário musical cearense para realizar a primeira edição do Porto Dragão Sessions.

Depois de passarem por uma curadoria formada por Roberta Martinelli (Cultura Livre), Alexandre Matias (Centro Cultural SP), o veterano Pena Schimdt (produtor musical), Fabiana Batistela (diretora da Semana Internacional da Música-SP), Daniel Ganja Man (produtor musical) e Artur Fritzgibbon (diretor da distribuidora digital ONErpm), os artistas selecionados participam da gravação de um programa, com 26 minutos de duração, feito em dois formatos. Um para a TV aberta, outro para o You Tube, com apresentação do músico e modelo cearense Daniel Peixoto.

A primeira temporada contará com 15 programas (os bastidores já estão documentados pelo You Tube), em que cada banda poderá apresentar duas músicas. A produção executiva dos vídeos é assinada pela Marrevolto Filmes, e a direção, por Pedro Diógenes (Alumbramento). Além da gravação, os artistas vão registrar, pelo projeto, dois singles (em áudio) trabalhados pelos produtores Daniel Ganja Man e Yuri Kalil (Cidadão Instigado/CE).

Artistas

Para a primeira temporada, Casa de Velho, Daniel Groove, Erivan Produtos do Morro, llya, LPO, Oto Gris, Procurando Kalu, Projeto Rivera, Selvagens à Procura de Lei, Soledad, Astronauta Marinho, Danchá, Jonnata Doll e os Garotos Solventes, Lorena Nunes e Maquinas foram selecionados.

A triagem inicial previa a escolha de 10 nomes. Mas a curadoria indicou mais cinco. "Outro ponto é que se você for analisar, a gente buscou, ao máximo, que esse resultado fosse um panorama da nova música cearense. Os cinco ampliam esse panorama. Tivemos de aumentar o orçamento, mas valeu a pena. Aumentou a representatividade e contemplou mais grupos", observa João Wilson Damasceno, diretor de Ação Cultural do Dragão do Mar.

Diferente da Incubadora DoSol, o Porto Dragão Sessions contempla artistas independentes, nessa primeira temporada, que já têm certo respaldo no cenário (com exceção de nomes mais novos, a exemplo do Casa de Velho e Maquinas). O programa dura um ano e, para além da produção dos conteúdos previstos, deve indicar os artistas para outras oportunidades no circuito.

"A gente está fazendo parceria com o Sesc de São Paulo, para indicar alguns artistas desse grupo para o circuito deles. Queremos dar o gás nessa primeira edição, para dar certo e atender mais grupos no próximo ano. O processo de gravação dos programas já foi bem legal: a própria equipe e os artistas ficaram bem felizes, juntando a galera da música com o audiovisual", conta João Wilson.

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