Espaço cultural Unifor

Empresário pacificador

01:43 · 23.03.2012
Imagem de Jorge Street na exposição: nascido no Rio de Janeiro, fez a carreira em São Paulo
Imagem de Jorge Street na exposição: nascido no Rio de Janeiro, fez a carreira em São Paulo ( Fotos: Rodrigo Carvalho )
Entre os objetos presentes na exposição, alguns fazem referência à atuação de Street na legislação trabalhista
Entre os objetos presentes na exposição, alguns fazem referência à atuação de Street na legislação trabalhista ( )
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Graças às habilidades de negociação, o industrial Jorge Street destacou-se entre colegas e operários

Ter questionados sua nacionalidade e seu patriotismo estavam entre as atitudes capazes de tirar o industrial Jorge Street do sério. Filho de pai austríaco (convidado pelo imperador Dom Pedro II a se estabelecer no Brasil para construir estradas de ferro), não raro precisou enfatizar seu local de nascimento: veio ao mundo, em 1863, no Rio de Janeiro, onde se formou médico.

A carreira na saúde, porém, não vingou. Segundo os familiares, Jorge negava-se a cobrar dos clientes pobres pela carência de recursos, e dos ricos, por serem seus amigos. É possível perceber aí um esboço do comportamento responsável pelo futuro sucesso de Street nos negócios, ao equilibrar empatia pelos causa dos trabalhadores operários e influência entre os pares industriais.

A trajetória marcante justifica sua presença no grupo de 24 empresários homenageados na exposição itinerante "Pioneiros e empreendedores: a saga do desenvolvimento no Brasil", atualmente em cartaz na Universidade de Fortaleza (Unifor). A mostra deriva da série de livros homônima do professor Jacques Marcovitch.

Street decidiu ingressar no universo dos negócios após herdar do pai ações da fábrica de tecelagem de juta São João. Posteriormente, transferiu todo o maquinário para outra fábrica, em São Paulo.

Ao longo da carreira, graças às habilidades de argumentação, ocupou cargos de liderança em diversas entidades da organização patronal, sob a admiração e o reconhecimento dos colegas. Também contribuía para sua posição de destaque o sucesso obtido nos negócios, por meio de estratégias ousadas - entre elas a de contrair volumosos empréstimos para cobrir gastos. Segundo Marcovitch, tal política de "tapar buracos abrindo buracos maiores" funcionava devido ao contexto da época, quando a tecelagem brasileira atravessava idade de ouro. Com a queda drástica do transporte marítimo civil, em decorrência da Primeira Guerra Mundial, Street e outros empresários viram-se sem a concorrência dos empresários ingleses.

No caso da juta, Street negociou com os ingleses (então detentores do monopólio do matéria-prima) para manter as importações do material no Brasil relativamente restritas, de maneira a não ser revendida a nações inimigas.

Para isso, formou um cartel, com os principais industriais paulistas e cariocas, liderado por ele. Em contrapartida, recebeu dos ingleses o controle das importações. Embora não negasse e até defendesse a criação do cartel, Street repudiava as acusações de abuso nos preços de venda.

O mais impressionante ao longo da carreira de Street, porém, é sua capacidade de diálogo com os sindicatos - a despeito da atuação de extremistas nos dois lados, dos trabalhadores e dos patrões (os primeiros acusavam-no de demagogo; os segundos, de paternalista). Sua participação na negociação de exigências na greve geral de operários em 1917, em São Paulo, foi fundamental para um desfecho menos trágico.

Confronto e paz

A paralisação envolveu desde tecelões até leiteiros, e o clima era tenso, com tiroteios e mortes. Em 11 de junho, após a morte de um dos grevistas em confronto com policiais e a animosidade gerada durante seu enterro, o então secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Eloy Chaves, dirigiu-se aos empresários e pediu que aceitassem pelo menos duas exigências: 20% de aumento e a não punição dos grevistas.

Ambas condições tinham sido previamente acolhidas por Jorge Street, enquanto representante da Companhia Nacional de tecidos de Juta, em negociação direta com os operários. Pouco depois, convenceu os opositores da organização patronal.

A decisão de Street não tinha viés apenas político ou prático, mas era consequência da empatia do empresário em relação aos trabalhadores e suas condições paupérrimas de vida. Costumava conversar com seus funcionários nas fábricas, organizar ocasiões de convivência e, mais de uma vez, visitou as moradias desses homens, mulheres e crianças.

Ao constatar as condições "moral e higienicamente inadmissíveis" das habitações, decidiu construir a Vila Maria Zélia (batizada em homenagem a uma de suas filhas, falecida na adolescência) - segundo Marcovitch, a melhor vila operária do País em termos de projeto arquitetônico, até hoje existente (embora com casas totalmente descaracterizadas das originais).

Com o fim da I Guerra e o retorno da concorrência inglesa, os negócios de Street começara a desandar. A perda das fábricas, no entanto, não impediu que o empresário seguisse influente e ativo, primeiro em cargos nas entidades patronais, depois como alto funcionário do Estado.

Mais informações
"Pioneiros & Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento no Brasil". Até 13 de maio, no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). De terça a sexta, das 8h às 18h; sábados e domingos, de 10h às 18h. Entrada e estacionamento gratuitos. Contato: (85) 3477.3319

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