cena teatral

Em busca do Drácula

Coletivo cearense apresenta montagem de texto de Bram Stocker ainda inédito em palcos brasileiros

Cenas da montagem de "Drácula ou o Desmortal", do Coletivo Soul ( Fotos: Claudia Morais/ Arte: Lincoln Souza )
00:00 · 23.01.2018 por Roberta Souza - Repórter

Dez integrantes do coletivo Soul, com atuação na cena teatral cearense desde 2009, partiram em busca do desconhecido entre o fim de 2016 e todo 2017, numa espécie de metáfora à obra que pretendiam montar: Drácula, de Bram Stocker. Eles embarcaram num roteiro de travessias da Amazônia Sul-Americana ao Leste Europeu em busca do material necessário para realizar uma montagem até então inédita nos palcos brasileiros, cujo texto para teatro resistiu manuscrito por 100 anos, até ser publicado em edição em inglês, em 1997.

O resultado poderá ser conferido a partir de amanhã (24), em temporada no palco do Theatro José de Alencar, casa escolhida para a estreia da peça "Drácula ou o Desmortal" no Brasil. O trabalho de dois anos foi condensado em duas horas de apresentação, com dramaturgia binacional - da escritora-encenadora portuguesa Patrícia Portela e do dramaturgo brasileiro Alexandre Dal Farra -, e direção geral de Thiago Arrais, diretor do Coletivo Soul. "O projeto nasceu em Fortaleza, dentro da criação de um processo no Porto Iracema das Artes. Tivemos o desejo de encenar o romance do Stocker e chegamos a esse material inédito para teatro. Então veio a ideia de fazer as 'viagens iniciáticas', o contato com outras formas de cultura, relação e convivência com os conflitos de vida e morte, em pontos extremos do mundo", contextualiza Thiago.

Foi então que, contemplados pelo edital Rumos Itaú Cultural 2016-2017 e em posse de 200 mil reais, além de muitas parcerias, eles sobrevoaram cinco países. Foram para a Colômbia durante a travessia de 40 dias pelo Noroeste brasileiro, no Alto Rio Negro Amazônico - onde conviveram com 23 etnias distintas e línguas indígenas; Romênia, percorrendo várias regiões do país, sobretudo a Transilvânia, onde a obra se situa; Alemanha, na região de Baldueinstein; e na França, onde fizeram uma leitura da peça, em processo, no Festival MigrActions, em Paris.

Referências

Na história original, o jovem advogado inglês Jonathan Harker inglês viaja até a Transilvânia, uma das regiões mais remotas da Hungria na época, para fechar negócio com o conde Drácula. Ao se hospedar no castelo do conde, Harker vai percebendo que Drácula é um tanto estranho, até dar-se conta de que foi feito refém e que está na companhia de um ser perigoso.

"O Drácula é uma viagem. Nossa montagem também traz essa procura pelo desconhecido, e ela aparece em cena, mas essa procura vai transbordando pelas diferentes geografias pelas quais o projeto 'Un-dead: Desmortais do Inominável' passou", referencia Thiago Arrais. "Da Amazônia, herdamos um Drácula botânico, que se alimenta de referências da floresta, de uma geografia viva e remota. Da Romênia, há influência das igrejas ortodoxas românicas, ícones medievais. Da França, o tipo de pintura, muitos registros simbolistas e pré-rafaelitas. Esse conjunto de estéticas estão presentes", identifica o diretor.

Thiago explica ainda que o espetáculo é um teatro galeria, ao apresentar referências muito próximas das galerias de artes visuais e artes plásticas - como se o público tivesse diante de uma sucessão de quadros.

A peça têm como referência direta a estética de Lúcio Cardoso no romance "Casa-Assassinada", além dos pintores pré-rafaelitas e do simbolista francês Gustave Moreau.

"Drácula ou o Desmortal", segundo o texto de apresentação do grupo, investe na obra de Stoker por meio da ótica do desconhecido, do saber da margem e das fronteiras culturais que tencionam as certezas do projeto moderno-ocidental de conhecimento. "Ela propõe uma revisão do tempo presente, em favor do encontro com diferentes temporalidades e geografias, as quais Drácula encarna como aquilo que permanece ou convive com a sua própria morte, sobrevivente, ameaçador", consta.

O projeto soma à experiência inaugural o conceito de des-morto, que é como o coletivo entende o termo Un-dead no título da peça de Bram Stoker (Drácula Or The Undead). "A pesquisa sobre a des-morte transcende a noção habitual de morto-vivo, buscando habitar outras liminaridades entre vida e morte, seja a que afirma as muitas mortes em uma vida ou, especialmente, os modos mágicos de reverso da morte", explica o texto de apresentação.

Circulação

Antes de o espetáculo estrear no Brasil, ele foi apresentado em novembro de 2017 no Teatro Acadêmico de Gil Vicente, em Portugal, país onde o coletivo promoveu uma ocupação de dois meses de atividades e residências em diálogo com a comunidade artística local.

A realização do projeto contou, ainda, com produção de um material audiovisual com mais de 60 horas de filmagens e direção de André Moura Lopes. O vídeo resultará em uma fic.Doc - espécie de obra paralela e congeminada a todo o processo, em que ficção e realidade se relacionam. O lançamento deste material, segundo Thiago Arrais, está previsto para o fim de 2018.

Quem não puder conferir a primeira temporada no Theatro José de Alencar, poderá assistir à peça em fevereiro, no Teatro Dragão do Mar. Outras praças também devem receber a montagem, a exemplo de São Paulo e mesmo outras cidades europeias.

Saiba mais

Drácula ou o Desmortal

Estreia

De 24 a 26 de janeiro (quarta, quinta e sexta), às 19h30
Dias 27 e 28 de janeiro (sábado e domingo), às 18h30
Duração: 2h
150 pessoas
Ingressos: R$10 (inteira)
Classificação indicativa: 18 anos
Local: Theatro José de Alencar
Endereço: R. Liberato Barroso, 525, Centro
Telefone: (85) 3101.2583

Temporada

De 15 a 18 e de 24 a 26 de fevereiro, às 20h
Duração: 2h
269 pessoas
Ingressos: R$10 (inteira)
Classificação indicativa: 18 anos
Local: Teatro Dragão do Mar de Arte e Cultura
Endereço: R. Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema
Telefone: (85) 3488.8600

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