Artes cênicas

Em busca de um teatro libertário

Os elementos mito e feminino compõem as discussões da I Bienal Internacional de Teatro do Ceará

Espetáculo "Obscena. Um encontro com Hilda Hilst, de Fabiana Pirro" ( Foto: Renata Pires Sola )
00:00 · 14.11.2017

A primeira edição da Bienal Internacional de Teatro do Ceará (Bitce) - a abertura acontece nesta terça (14), às 9h, no Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB) - é um convite à reflexão acerca da relevância do mito na construção, não apenas das artes cênicas mas, também, da própria realidade.

"O que seria da Grécia, de Shakespeare e de Freud sem os mitos?", indaga a pesquisadora, Rejane Reinaldo, idealizadora e diretora geral do evento, que prosseguirá até o dia 20, em Fortaleza. A programação contemplará as cidades de Juazeiro do Norte e Crato.

A segunda edição, marcada para acontecer de 8 a 20 de março do próximo ano, incluirá a cidade de Sobral, começando no Dia Internacional da Mulher, que acontece no mês dedicado ao teatro, atenta a diretora.

Experimentos cênicos, oficinas e seminários integram a programação que tem como tema "Teatro, mito e feminino: conexões". Idealizada há três anos, pela professora Rejane Reinaldo, que se debruçou sobre a tríade teatro, mito e feminino, nas pesquisas do mestrado e doutorado.

O resultado foi a criação da bienal, cujo objetivo é investigar a relação entre os mitos e as artes cênicas, na perspectiva do feminino, sem perder de vista seu caráter universal.

O projeto, que nasceu enquanto inquietação acadêmica da pesquisadora, que estudava o mito das mulheres guerreiras, as amazonas, saiu do papel ao ser contemplado pelo edital do BNB e a Lei Rouanet.

Espaços

Em Fortaleza, ocupará três espaços: o CCBNB, que será palco da abertura, seminário e exibições de experimentos cênicos; Teatro Boca Rica, que concentrará todas as apresentações dos espetáculos, sempre à noite; e o Centro Cultural Belchior, que sediará o evento, na quarta (15), das 9 às 17.

No local, serão desenvolvidas as atividades de Multiresidências/ Intercâmbios entre Criadores/ Vivências estéticas poéticas éticas técnicas por Cecília Raiffer, professora da Universidade Regional do Cariri (URCA), que abordará o tema: "A imagem propulsora na criação da cena teatral".

Em seu trabalho acadêmico, Rejane Reinaldo pesquisou, desenvolveu e defendeu a tese "Pentesileia, a rainha das Amazonas - travessias de uma personagem", aprovada no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Teatro e feminismo são dois temas que fazem parte da vida de Rejane Reinaldo, desde a segunda metade dos anos 1970, aparecendo juntos num mesmo projeto.

Além da linguagem

"A ideia é mostrar que o teatro está para além do que se convencionou chamar de linguagem", diz, justificando a exploração da etnocena. A apresentação de dona Josefa rendeira, que participará do solo da bailarina Anália Timbó. Trata-se de demonstração do fazer teatral para além do palcos, ou seja, iniciando nas ações do dia a dia.

Enquanto dona Josefa tece com os bilros, Anália dança, explica Rejane Reinaldo, para quem o ato de manusear os instrumentos para tecer a renda, já constitui uma cena.

A intenção é tirar o teatro desse espaço fechado, arremata. Os dramas de Itarema estão incluídos no processo, que tenta fazer conexão entre arte e realidade. "O pensamento é também criação", observa.

Seminário

Após a solenidade de abertura do evento, às 13h, no CCBNB, começará o seminário "Teatro, mito e feminino: conexões", com moderação de Camila Silveira, integra a Coordenadoria de Mulheres do Estado do Ceará, entre as participantes, Adelice Souza e Hebe Alves, (UFBA) e Cecília Raiffer, (URCA).

Rejane Reinaldo adianta que serão discutidos os mitos femininos que perpassam a história do Ceará, a exemplo de Bárbara de Alencar e Beata Maria de Araújo. Além de personagens femininas do dramaturgo Nelson Rodrigues, mulheres guerreiras amazonas e discussão do artigo "Gênero como performance", da filósofa Judith Butler.

No primeiro dia da bienal, o CCBNB será palco de quatro apresentações. A primeira, por volta das 13 horas, constará da exibição do experimento cênico: Cassandra, de Eurípedes, por Lua Ramos; às 17h, Francinice Campos apresenta "As troianas", finalizando com a aula-espetáculo: Kali, um drama-oração de Adelice Souza, da Bahia.

Nesta primeira edição, a bienal contempla a Espanha e o Brasil (Amazônia, Bahia, Ceará e Pernambuco). Em Juazeiro do Norte, o evento será realizado na sexta (17) e no sábado (18); no Crato, domingo (19) e segunda (20). A segunda edição virá com Itália, França, Portugal e Brasil.

Mais informações:

Abertura da I Bienal Internacional de Teatro do Ceará - Nesta terça-feira (14), às 9h, no Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB/ Rua Conde D'Eu, 560, Centro). O evento prossegue até o dia 20, em Fortaleza. Grátis. bienaldeteatrodoceara@gmail.com

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