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Em busca da língua

Nas licenciaturas interculturais indígenas da UFC, etnias cearenses estudam a fala nativa

00:00 · 15.09.2018
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A turma atual do LII-Pitakajá da UFC (foto) iniciou as atividades no semestre 2017.2 e possui 50 alunos matriculados, incluindo índios das tribos Pitaguary, Tapeba, Kanindé, Jenipapo-Kanindé e Anacé ( Foto: acervo pessoal Kleber Saraiva )

Antes da colonização, o Brasil tinha aproximadamente mil línguas e dialetos indígenas espalhados por sua extensão territorial. Pouco mais de 500 anos depois, apenas 150 resistiram à imposição do português; e em todo Nordeste, só o Ia-tê, língua nativa dos Fulni-ô, de Pernambuco, manteve-se preservado.

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Por aqui, as duas licenciaturas interculturais indígenas em funcionamento na Universidade Federal do Ceará (UFC) - Kuaba e Pitakajá - incluíram uma disciplina específica denominada "Línguas Indígenas", que tem direcionado os índios do Estado a reorganizar e utilizar novamente a fala nativa.

O coordenador de ambas as licenciaturas, professor Kleber Saraiva, explica que o conteúdo da disciplina é preferencialmente ministrado por docentes indígenas ou professores não indígenas, mas com fluência no idioma proposto no ementário.

"Os docentes têm autonomia para organizar os materiais didáticos, seja na disciplina de línguas indígenas ou em outras", explica Kleber.

O tupi está no centro da disciplina, conforme lembra Juliana, a cacique Irê, dos Jenipapo-Kanindé, e Estênio, dos Tapeba, formados na primeira turma Pitakajá, em julho 2016. "O coordenador do curso foi buscar apoio junto ao professor Josafá, da Paraíba, pra ele aplicar essa disciplina. A gente aprendeu várias frases, nomes, pra retornar a nossa comunidade e trabalhar com os mais novos", afirma a cacique, ressaltando, porém que o tronco linguístico dos jenipapo-kanindé não é o Tupi, e sim o Jê.

Estênio, por sua vez, não arrisca dizer a qual tronco linguístico os Tapeba estão efetivamente vinculados, mas entende que o tupi é língua ancestral de seu povo. "No nosso vocabulário, temos topônimos e outras palavras que sabemos que são indígenas, muitas em tupi, outras não. No TCC, fizemos um mapeamento de diversas palavras e vimos que a grande maioria é de origem tupi, mas nos Tapebas também há registros de palavras do Jê", aponta.

Para o professor Kleber Saraiva, "uma vez tendo apreendido uma língua nativa, seja no Pitakajá ou no Kuaba, esses graduandos poderão ensinar suas crianças nas escolas indígenas de suas respectivas aldeias, seja como professores da escola que são ou como colaboradores de projetos voltados ao incremento cultural nativo".

E isso vem, de fato, acontecendo tanto entre Tapebas como entre Jenipapo-Kanindé. "Temos muitas atividades na escola da comunidade que põem em prática a língua. Algumas músicas a gente cria em cima do que aprendeu na Licenciatura. Vamos criando música pra poder trabalhar com alunos e reviver a língua para que ela não fique no esquecimento", reforça a cacique Irê.

Estênio pondera que entre os Tapeba a língua tupi compete com as línguas estrangeiras, tal como inglês ou espanhol, mas nem todos a valorizam na hora do aprendizado. "Falam que não vai ter uso, que não há necessidade de aprender. Penso que o tupi firma cada vez mais a identidade do povo, resgatando nossa cultura, nossa história. Uma língua estrangeira não tem como fazer isso, reforçar nossa identidade étnica", defende.

Perda

Ambos reconhecem a falta que a língua nativa faz. "Foi uma perda muito ruim. Se nós ainda mantivéssemos nossa língua com certeza muitas coisas seriam mais favoráveis, mas ao mesmo tempo, contrapondo, tenho entendimento de que não foi culpa dos meus próprios antepassados. Se a gente for ver historicamente como se deu todo o processo da reafirmação e de quando se decretou não haver mais índios no Ceará, os povos indígenas sofreram muito, principalmente com a questão linguística", analisa a cacique.

Estênio, por sua vez, observa que mesmo conhecendo algumas palavras, sejam topônimos ou outras aprendidas mais recentemente, os índios de hoje falam "de forma aportuguesada, diferente dos antepassados". No glossário que produziu como TCC junto aos colegas, ele conseguiu resgatar muitas palavras com os mais velhos. A cartilha encontra-se hoje na Biblioteca da UFC. Na sala de aula das comunidades ou nos trabalhos acadêmicos mais recentes, a busca pela origem continua, e a luta pela preservação da memória também. (RS)

Saiba mais

A UFC conta com duas licenciaturas interculturais indígenas: Kuaba e Pitakajá.

A primeira turma do Pitakajá iniciou em agosto de 2010 e terminou em julho de 2016, formando 76 cursistas. A segunda turma iniciou e 2017.2 e possui 50 alunos matriculados. O Kuaba também iniciou em 2017.2 e possui 135 índios matriculados

Kuaba significa "Lugar de conhecimento"

Pitajaká são as iniciais das etnias que habitam a Região Metropolitana de Fortaleza: Pi- Pitaguary, Ta - Tapeba, Ka- Kanindé, J - Jenipapo-Kanindé, A - Anacé

Os concludentes tornam-se aptos a ministrar as disciplinas pertencentes aos currículos dos Ensinos Fundamental II e Médio, e que pertençam ao Núcleo Básico Comum e às Unidades Curriculares dos Projetos Pedagógicos dos cursos, tais como Formação Educacional, Pesquisa e Prática Pedagógica, Ciências Humanas, Matemática e Ciências da Natureza e Linguagem

A disciplina de Línguas Indígenas é obrigatória no 1º semestre do Pitakajá (100h/a) e no 6º semestre do Kuaba (50h/a)

Canção jenipapo-kanindé em Tupi/Port

> Ouça 

T'îa nde ko'ema
T'îa nde karuka
Eîkobé ka'a tupã
Eîkobé kunumî
Eîkobé oré a'anga
Bom dia
Boa tarde
Bem-vindo Deus das Matas
Bem-vindo Deus das Crianças
Bem-vindo Nossos Encantados

Canção tapeba em Tupi/Port

> Ouça

Aba tapeba
Tupã o-nhemoquatiá endê rera Itá pe Iké ybytu o-nhã amana o-kui
Yby o-riri
Yby o-riri iké
Índio tapeba
Deus escreve o teu nome na pedra
Aqui o vento correu
A terra tremeu
A terra tremeu aqui

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