Elogios a Stalin e a busca pelo belo - Caderno 3 - Diário do Nordeste

ESPECIAL NIEMEYER

Elogios a Stalin e a busca pelo belo

08.12.2007

“Para Berlim”, repete, a mão aberta e erguida, os olhos franzidos de admiração. Oscar Niemeyer reproduz a reação do líder soviético Joseph Stalin, em 1941, no episódio em que ele fora consultado por seus generais sobre o que fazer diante de uma Moscou cercada pelas tropas nazistas


E ele foi mesmo até Berlim, até a capitulação — celebra o arquiteto.

Sem um líder da estatura de Stalin, prega Niemeyer, o mundo poderia ter tido outro destino, subjugado por Hitler. Apesar do regime de terror, o massacre de milhões de pessoas que se opunham ao governo, a eliminação de 2/3 do comitê central do Partido Comunista Soviético, entre outros crimes. O arquiteto perdoa o ditador, morto em 1953. Aposta que a opinião pública mudará de idéia quando descobrir que Stalin foi vítima de uma “campanha odiosa”, movida pelas “forças reacionárias”:

— Stalin era fantástico. A Alemanha acabou por fazer dele uma imagem de que era um monstro, um bandido. Ele não mandou matar os militares soviéticos na guerra. Eles foram julgados, tinham lutado pelos alemães. Era preciso. Estava defendendo a revolução, que é mais importante. Os homens passam, a revolução está aí.

O elogio não significa que Niemeyer seja um stalinista — ele nem chega a ser um militante comunista clássico. Serve, porém, para revelar um traço de sua personalidade política. Para além da ideologia, ele admira os políticos de personalidade forte. Empreendedores e ousados, como ele. No panteão do arquiteto, Stalin convive com o democrata Juscelino Kubitschek. Luís Carlos Prestes, Gustavo Capanema (ministro da Educação e Saúde Pública no Estado Novo), Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Houari Boumedienne (líder da revolução argelina), Fidel Castro e Hugo Chávez também fazem os olhos do arquiteto brilharem.

Boa parte das obras mais importantes de Niemeyer foi feita sob encomenda de órgãos estatais. Sua arquitetura serviu a projetos ideológicos e políticos, em muitos casos estimulados pelo próprio autor. Das muitas histórias que gosta de lembrar, ele conta que fora encarregado pelo argelino Boumedienne, após a libertação da Argélia do jugo francês, de desenhar uma mesquita em Argel nos anos 60. O arquiteto elaborou um projeto ousado, com a mesquita colocada sobre o mar e ligada à costa por um pontão. O presidente Boumedienne se surpreendeu: “É uma mesquita revolucionária!”

— A revolução não deve parar — conclamou, então, o arquiteto.

A revolução sonhada por Niemeyer não é a das lutas sangrentas. Ele está longe da imagem de um burguês clássico, mas atravessou estes cem anos em ambientes capitalistas. Nunca se seduziu pelas tentações desse sistema, nem o tolerou. Tem desapego pelo dinheiro e pela acumulação de riquezas. Cobra o preço de tabela pelos projetos. Alguns deles, oferece gratuitamente ou repassa para amigos mais necessitados. O seu comunismo é simbólico e inexoravelmente fiel a determinados ideais e obsessões, como a que cultiva por Stalin.

— A luta política é dura. É preciso se colocar de algum lado, e Niemeyer fez a sua opção. Não é uma posição covarde, embora não concorde com ela — analisa o professor de ciência política da Unicamp Marcelo Ridenti, especialista em esquerdas.

Para o cientista político, a geração Niemeyer que viveu no pós-Segunda Guerra, considera de fato a figura de Stalin fundamental na história da Humanidade.

— Falar de Stalin é falar do próprio passado deles e de como atuaram. Nesta medida, não é surpreendente o que fala Niemeyer. É visceral.

O arquiteto comunista que sempre teve aversão pelas tentações do capitalismo é também aquele que, na arquitetura, jamais renunciou a perseguir o belo. Um artista que faz do concreto armado a matéria-prima de sua escultura. Mas até que ponto essa busca do belo esteve a serviço do povo e do comunismo?

— A beleza não deixa de ser funcional. A prioridade dele é a beleza da arquitetura — explica o arquiteto e amigo Sabino Barroso, conselheiro do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

É difícil encontrar um traço comum, na galeria dos políticos que conviveram ou encantaram Niemeyer, de tão variadas matizes ideológicas, nacionalidades e gerações. Nas palavras do arquiteto, talvez se encontrem as respostas. Quando se refere a gente como Fidel, Prestes, Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, ele cita a convicção, a firmeza, a perseguição de um ideal por uma vida inteira. Como ele.

Em todos os citados, Niemeyer enxerga uma vocação pelo amor à pátria. Talvez aí seja possível descobrir uma ligação entre matizes tão diferentes entre si. O arquiteto também é assim. Faz questão de dizer que mandou pintar o interior do Teatro Popular, no Caminho Niemeyer, de verde e amarelo. Gosta também de disciplina. Meses atrás, foi chamado para receber uma medalha do Corpo de Bombeiros.

— Eu fui. Tinha um campo de futebol, a turma na arquibancada, eu estava lá em baixo com os outros convidados, e começou aquele movimento de hino e marcha. Eu, com espanto, me emocionei.

Mas seria bom militar fazendo política na América Latina? E o regime pós-64?

— Pois é, aí é uma merda... Mas depende. Prestes era militar e queria bem ao país, lutava pelo Brasil, agiu como político, queria mudar, estava preocupado com o povo brasileiro. Agora, no militar o patriotismo é natural. É da formação dele essa idéia do país.

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