Ensaio

Elmentos-chave do estilo da arte barroca

00:00 · 24.08.2014

Uma das características que mais se anunciam na estética barroco inscreve-se na expressão do fusionismo e do rebuscamento. Fundem-se, assim, luz e treva, diversos sons, múltiplas tonalidades, por isso o uso, as mais das vezes, abusivo das figuras de linguagem; ocorre, ainda, a fusão do racional com o irracional, anulando-se as linhas limítrofes. Há uma ornamentação excessiva, uma linguagem trabalhada, plena de imagens e de figuras de linguagem. Leiam-se os versos do poema "A instabilidade das cousas do mundo, de Gregório de Matos: (Texto III)

Leitura do poema

Toda essa composição se alicerça num jogo de contraste entre a luz e a treva: "Nasce o sol" (luz) "e não duma mais que um dia" (treva), que se estende ao longo de todo o soneto. Seu tema recai sobre um paradoxo: a única coisa constante no mundo é a inconstância das coisas; assim, a luz ao ceder lugar à treva diz de sua efemeridade, e o mesmo ocorro quando se dá o contrário. Ressalte-se a intrigante interrogação do eu lírico no último verso do segundo quarteto: "Como o gosto da pena assim se fia?", isto é, como o prazer da tristeza assim se trama?. Enfim, é como se o homem não conseguisse compreender as "costuras" preparadas pelo destino.

As correntes barrocas

Na literatura, o Barroco se constrói a partir de dois recursos de composição: o Cultismo e o Conceptismo. O Cultismo realiza-se a partir do jogo de palavras, empregando figuras de linguagem, ligadas tanto ao sentido (metáfora, antítese, hipérbole) quanto à sintaxe (inversões e repetições). Converte-se tudo em rebuscamento da forma, em ornamentação estilística, fruto de uma linguagem erudita: (Texto IV)

Do poema

Esta composição é toda compreendida no contraste entre os termos "todo" e "parte", que, ao longo do soneto, se alternam enquanto rimas. O texto impressiona mais pela forma do que propriamente por sua mensagem. Tema se revela na passagem: "Em todo o sacramento está Deus todo": a Eucaristia aponta a ubiquidade de Cristo, uma vez que seu corpo se permanece inteiro em qualquer "parte" da hóstia consagrada; desse modo, pouco importa que o cristão, na hora da comunhão, receba uma parte da hóstia ou ela inteira.

O conceptismo implica jogo de ideias. Desse modo, o raciocínio ocupa o lugar dos sentidos, sendo comum o uso de elementos da lógica formal: silogismo (uma vez colocadas duas proposições - premissas -, delas resulta uma terceira em conclusão) e sofisma (premissas verdadeiras levam-nos a uma conclusão inadmissível, mas resultante de regras formais do pensamento), consoante a leitura do belo poema intitulado "A Jesus Cristo Nosso Senhor": (Texto V)

A composição

Neste soneto, o autor expõe duas premissas: uma ovelha perdida, recuperada pelo pastor, deu prazer ao pastor; e "Eu sou a ovelha perdida"; o que leva o leitor a concluir que, sendo o eu lírico um pecador, se Deus quiser ter prazer deverá perdoá-lo. O argumento, apesar de lógico, vai de encontro à ética do cristianismo, segundo a qual chega-se ao céu pela virtude e não pelo pecado. Ressalte-se a ambiguidade da expressão "hei pecado" no primeiro verso: "pecado" é, ao mesmo tempo, verbo e substantivo.

Considerações finais

O padre Antônio Vieira é, no gênero prosa, a maior expressão da estética barroca no Brasil. Com grande força de argumentação e sólida retórica, os sermões apresentavam a estrutura conceptista, de que se servia o orador: a) o exórdio: o plano para a exposição das ideias; b) invocação: roga o auxílio de Deus na empreitada; c) confirmação: desenvolvimento do das ideias, a partir de alegorias, exemplos etc. ; d) peroração: resumo do que foi apresentado e um desfecho vigoroso visando impressionar os ouvintes, tocados pela Palavra. Veja-se um fragmento do "Sermão da Sexagésima":(Texto VI) (C.A.V)

Trechos

TEXTO III

Nasce o Sol e não dura mais que um dia, / Depois da Luz se segue a noite escura, / Em tristes sombras morre a formosura, / Em contínuas tristezas e alegria. /// Porém, se acaba o Sol, por que nascia? / Se é tão formosa a Luz, por que não dura? / Como a beleza assim se transfigura? / Como o gosto da pena assim se fia? /// Mas no Sol, e na Luz falta a firmeza, / Na formosura não se dê constância, / E na alegria sinta-se a tristeza, /// Começa o mundo enfim pela ignorância, / E tem qualquer dos bens por natureza. / A firmeza somente na inconstância ( MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. São Paulo: Cultrix, 1997, p. 176)

TEXTO IV

O todo sem a parte não é todo, / A parte sem o todo não é parte, / Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

/ Não se diga, que é parte, sendo todo. /// Em todo o sacramento está Deus todo, / E todo assiste inteiro em qualquer parte, / E feito em partes todo em toda a parte, / Em qualquer parte sempre fica o todo. /// O braço de Jesus não seja parte, / Pois que feito Jesus em partes todo, / Assiste cada parte em sua parte. /// Não se sabendo parte deste todo, / Um braço, que lhe acharam, sendo parte, / Nos disse as partes todas deste todo (MATOS, Gregório de. In: www.Passeiweb.Com; consulta em 29/11/2010)

TEXTO V

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado, / De vossa alta clemência me despido; / Porque quanto mais tenho delinquido, / Vos tenho a perdoar mais empenhado. /// Se basta a voz irar tanto pecado, / A abrandar-vos sobeja um só gemido, / Que a mesma culpa que vos há ofendido / Vos tem para o perdão lisonjeado. /// Se uma ovelha perdida, e já cobrada, / Glória tal e prazer tão repentino / Vos deu, como afirmais na Sacra História: /// Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada; / Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino, / Perder na vossa ovelha a vossa glória. (MATOS, Gregógio de. 1992, p.67)

TEXTO VI

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma?(VIEIRA, 1959, p.10 )

SAIBA MAIS

ESPÍNOLA, Adriano. Gregório de Matos. Rio de Janeiro: ABL, 2011

MATOS, Gregório de. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1992

VIEIRA, Pe. António. Sermões -Vol. I. Porto: Lello & Irmão, 1959

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