Literatura

Elena Ferrante, uma leitura

00:00 · 21.03.2017 por Suzy Costa* - Especial para o Caderno 3

Estou tendo um caso de amor com Elena Ferrante, escritora italiana que usa pseudônimo e ninguém sabe quem de fato ela é. Como qualquer amor unilateral, sua identidade visual pouco me interessa. O mistério só torna a relação mais interessante. Nos últimos dias, li quatro livros da autora. Então, ouso dar sugestões para quem quer enfrentá-la.

Penso que quem deseja entrar no universo de Elena, deve começar pela mais antiga de suas obras, dentre as publicadas no Brasil - "A filha perdida". Depois "Dias de abandono". Este é uma angustia crescente de 250 páginas - que exige intervalos, faz você largar o livro várias vezes, fazer outra coisa e, só depois, voltar à leitura. Tem que ler de pouco em pouco, senão você se afunda junto com a personagem.

Só depois, já achando que conhece a força da narrativa de Elena, se aventure na Série Napolitana de quatro livros sequenciais e de ordem cronológica com a história de duas amigas, Lila e Elena (mesmo nome da autora, sem H). Estou no segundo volume e completamente entregue. Nesta série, a educação é um divisor de águas na vida das adolescentes. Uma seguiu todas as etapas dos estudos. A outra casou-se aos 16 anos e só fez o primário. Os professores na Itália, na década de 1940, forçavam os alunos a lerem muita coisa que eles nem entendiam devido a pouca idade. Eles diziam que a gente sempre assimila alguma coisa mesmo sem ter a compreensão total do que está lendo. E em algum momento isso há de nos servir.

Nos livros da Elena, os personagens centrais são sempre mulheres. São elas que ditam a história. Pessoas fortes, que dissecam os sentimentos e as sensações com a precisão de um bisturi. Geralmente tem algum problema com a mãe ou o pai. Este cenário me lembra uma citação de Adélia Prado que sublinhava a nossa capacidade de puxarmos o novelo da vida de uma pessoa e nela sempre encontrarmos um nó familiar, daqueles difíceis de desatar. Elena tem vários nós.

Já ouvi alguém falar que Elena Ferrante lembra Clarice Linspector. Errado. Elena é Elena, Clarice é Clarice. Não gosto de nenhum tipo de comparação. Mas só para se ter uma ideia, Clarice é de uma profundidade que nem todo leitor alcança. Elena tem uma rasura que você bate o pé no fundo. Ela escreve personagens comuns, do tipo que poderia ser uma amiga sua, uma conhecida, uma filha... E exibe a todo momento o melhor e o pior dessa pessoa. Uma dualidade que encanta e fascina. Sabe aquele pensamento mesquinho, vil, horrível, que ás vezes temos e não admitimos nem para nós mesmas? Nos livros de Elena eles são escancarados a cada página, o tempo todo. É ai que ela te pega de jeito, faz você entrar na história e não encontrar mais saída. Ao ler um sentimento que você mantinha escondido de tão feio, cabeludo e monstruoso, ao ver escrito no livro, sendo sentido, vivido e expressado pela personagem, ele passa a ser menos feio, nem tão ruim assim, já que outra pessoa também sentiu e viveu aquilo. Você se sente como que absolvida pela sua pequenez. E sente que já precisa de uma outra obra para recomeçar.

*Suzy Costa é jornalista

Bibliografia

Livros publicados no Brasil 

Série napolitana

A Amiga Genial (Biblioteca Azul)

História do Novo Sobrenome (Biblioteca Azul)

História de Quem Foge e Quem Fica (Biblioteca Azul)

Outros romances

Dias de Abandono (Biblioteca Azul)

Um Amor Incômodo (Intrínseca)

A Filha Perdida (Intrínseca)

Infantil

Uma Noite na Praia (Intrínseca))

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.