Ensaio

Elementos do fazer poético e desafios

00:00 · 02.03.2014

A ressisgnificação e a transposição de sentidos é, sem dúvida, traço marcante na poética de Manoel de Barros. O uso de construções sintáticas inusitadas torna sua linguagem rica de associações semanticamente transformadas . As palavras são associadas a partir de relações aparentemente ilógicas, como nos fragmentos que se seguem, em ganha relevo as estranhas alianças que as palavras estabelecem entre si: (Textos III a VI)

Singularidades

Na poesia de Manuel de Barros, entretanto, elas adquirem caráter universal. As designações que o poeta faz de Poesia, por exemplo, mostram que ela é mais que um arranjo de palavras em ordem ritmada. Destacamos, então, o emprego de imagens, bem como de cores, de sons (sem vírgula), o que mostra que a poesia é formada por todos esses fatores juntos, implicando, assim, elos de uma cadeia que não se dissolve. Há, ainda, a aproximação semântica entre crianças pessoas esquisitas loucos e bêbados (também sem vírgula). Em Boca, o poeta versa sobre uma abertura para o deserto, que seria representado pelo interior do ser humano.

É fácil entender essa associação, já que, de forma recorrente, Manoel de Barros trata o homem como um ser dotado de vazios internos. O vazio, como um todo, é temática recorrente na obra do Poeta, em cujo verbete o autor ressalta todas as contradições e o sentimentalismo presente no interior desse. Sobre o Apêndice, destaca-se o verbete "chão", que, muito sinteticamente, o autor define como "um ensino", pois a queda é um ensino. Dotado de intrigante simplicidade, o tributo de Manoel de Barros a Guimarães Rosa traz à tona toda a grandeza deste. Conhecido por transformar e ressignificar as palavras, por retratar os falares populares e regionais sem deixar de lado a erudição característica do autor, Guimarães Rosa foi um dos maiores escritores de todos os tempos. (Texto VII)

Manoel de Barros é tido por muitos como o "Guimarães Rosa da poesia", e o poeta Geraldo Carneiro, a seu respeito disse que "desde Guimarães Rosa, a nossa língua não se submete a tanta instabilidade semântica". Manoel de Barros retrata aqui uma simples frase de Guimarães Rosa e mostra como essa mesma frase é grande devido ao universo de significados que traz ao leitor. Assim, o poeta mostra como Guimarães Rosa poderia ter simplesmente dado uma informação, mas não o fez: preferiu, com profunda simplicidade e sutileza criar uma graça verbal, a que o autor compara a poesia. João Guimarães Rosa foi, sem dúvida, um dos maiores escritores de todos os tempos. Fenômeno da literatura brasileira, era capaz de fazer trabalhos verdadeiramente artísticos com a linguagem, criando neologismos, retratando a linguagem do sertão e ressignificando sentidos. Renovou o romance brasileiro e o levou a esferas nunca antes alcançadas. Assumiu a Academia Brasileira de Letras em 19 de novembro de 1967 e morreu. Apenas três dias depois.

O reino das imagens

Os retratos e os autorretratos são parte da poesia destinada às imagens e às fotos. Aqui, Manoel de Barros faz um autorretrato verbal. (Texto VIII)

Sendo esse o décimo quarto livro do autor, a morte aqui retratada diz respeito ao ato de escrever e de terminar um livro. Por isso, a afirmação de que ele morreu catorze vezes. O autorretrato não é somente uma representação do que se é, mas, também, do que se quer ser, daí a afirmação de que não se pode nunca fugir de si mesmo.

Os desobjetos a que o autor se refere são retratados em um jogo linguístico de palavras semanticamente opostas, criando imagens próximas às do Surrealismo, como o "alicate cremoso". (Vejam-se, como exemplo, as pinturas de Salvador Dalí ou de René Magritte) Ao final do poema, percebe-se que o autorretrato é uma espécie de busca por viver pela linguagem e pela poesia, o que é, de certa forma, impossível, o que pode ser resumido em "noventa por cento do que eu escrevo é invenção; só dez por cento é que é mentira." Em síntese, trata-se, antes de tudo, de um poeta do estranhamento - marca indispensável à literariedade.

Trechos

TEXTO III

Poesia, s.F.

Raiz de água larga no rosto da noite/ Produto de uma pessoa inclinada a antro/ Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã/ Espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas/ de um homem/ Designa também a armação de objetos lúdicos/ com emprego de palavras imagens cores sons etc./ - geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas/ loucos e bêbados

TEXTO IV
Boca, s.F.

Brasa verdejante que se usa em música/ Lugar de um arroio haver sol/ Espécie de orvalho cor de morango/ Ave-nêspera!/ Pequena abertura para o deserto

TEXTO V
Poeta, s.M e f.

Indivíduo que enxerga semente germinar e engole o céu/ Espécie de um vazadouro para contradições/ Sabiá com trevas/ Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como um rosto.

TEXTO VI
Apêndice

Olho é uma coisa que participa o silêncio dos outros/ Coisa é uma pessoa que termina como sílaba/ O chão é um ensino.

(p. 181 e 182, em Arranjos para assobio, 1980)

TEXTO VII

Passarinho parou de cantar./ Essa é apenas uma informação./ Passarinho desapareceu de cantar./ Esse é um verso de J. G. Rosa./ Desapareceu de cantar é uma graça verbal./ Poesia é uma graça verbal. (p. 404, em Tratado geral das grandezas do ínfimo)

TEXTO VIII
Autorretrato

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que/ não vi a hora./ Isso faz tempo./ Foi na beira de um rio./ Depois eu já morri 14 vezes./ Só falta a última./ Escrevi 14 livros/ E deles estou livrado./ São todos repetições do primeiro./ (Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim.)/ Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro./ Em pensamento e palavras namorei noventa moças,/ mas pode que nove./ Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze./ Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um/ abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,/ um prego que farfalha, um parafuso de veludo etc etc./ Tenho uma confissão: noventa por cento do que/ escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira./ Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas/ na boca descampada! (p. 389, em Ensaios Fotográficos, 2000)

SAIBA MAIS

BARROS, Manoel de. Poesia completa. - São Paulo: Leya, 2010
NEJAR, Carlos. História da Literatura Brasileira: da carta de Caminha aos contemporâneos. São Paulo:
Leya, 2011
REIS, Carlos. O conhecimento da literatura. Porto: Almedina, 2001

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