Ensaio

Elementos-chave do universo psíquico

00:00 · 01.02.2015

Assim, Jung chamou o inconsciente estudado por Freud de inconsciente pessoal, pois nele encontramos o material profundo específico à vida de um indivíduo. Já o material inconsciente pertencente a todos os seres humanos, Jung chamou de arquetípico, dando o nome para esta região da mente de inconsciente coletivo. "Literalmente a palavra 'arquétipo' significa 'o primeiro impressor' e é usada em relação a manuscritos por se referir à base ou original que gera cópias posteriores" (Valentine, 1994, 23).

Quando nos dirigimos às religiões e visões espirituais, encontramos uma grande quantidade de material arquetípico, através dos símbolos e ritos transmitidos por estas formas de conhecimento.

Os caminhos

Verificamos tanto em Freud quanto em Jung que o surgimento da consciência, uma estrutura voltada para o meio exterior, está intimamente ligada à questão da sobrevivência humana. A consciência, no entanto, apresenta-se como um "problema": o homem precisa tornar-se consciente para sobreviver, porém, tornar-se consciente afasta-o gradativamente do que ele é originalmente como animal. Desenvolvemos uma vida cultural, civilizada, que não apenas impõe regras aos nossos impulsos animais, como cria novas "necessidades" que pouco tem a ver com o nosso modo de vida natural.

Isso não é uma regra absoluta. Nas sociedades míticas verificamos que grande parte dos mitos e de práticas rituais tinha por objetivo conciliar esta "dupla" natureza humana. Do mesmo modo, encontramos na psicologia analítica a ideia de que a reconciliação entre os dois "mundos" habitados pelo ser humano é a chave essencial para o seu desenvolvimento psíquico.

O modelo didático

O modelo de psique fornecido por Jung, como podemos observar, é um modelo didático. De fato, as divisões propostas, os limiares entre consciência e inconsciente não são tão delineados como gostaríamos. A vida psíquica se desenrola de maneira orgânica. Dotados que somos de um aparelho psíquico que possui dentre as suas estruturas uma consciência, somos seres que nos posicionamos perante o Mundo, isto é, investigamos desde tempos remotos a nossa condição humana perante a natureza, aos demais seres e a nós mesmos.

Ao observar o modelo junguiano podemos chegar a algumas conclusões sobre esta questão. Uma delas é que nossa psique percebe qualquer fenômeno como um todo, porém, somente alguns aspectos dessa percepção alcançam a consciência, por causa da seleção que esta realiza. As informações que levar-nos-iam à totalidade, no entanto, estão depositadas nas camadas inconscientes da mente.

Embora a percepção seja considerada por Jung como uma função parcialmente consciente, é difícil explicar racionalmente aquilo que percebemos. Isto acontece principalmente porque a percepção é uma apreensão de qualidades. Portanto, conhecer o mundo, a si mesmo e aos outros de forma integral, demanda não apenas a representação sígnica e racional do que se está conhecendo, mas, sobretudo, a experiência do que se está querendo conhecer.

O autoconhecimento

É neste sentido que a meditação pode ser encarada como uma ferramenta de autoconhecimento e de apreensão do mundo, uma forma de nos posicionarmos diante deste. Como já afirmei anteriormente, meditar não é apenas focar-se em processos mentais, mas, sobretudo, utilizar o corpo como fonte de percepção sutil de si e do mundo. Nossa mente/corpo precisa experimentar as coisas do mundo para conhecê-las amplamente, mas boa parte do processamento daquilo que é percebido se dá de forma inconsciente.

A meditação busca realizar o processamento do objeto percebido de forma consciente, mas não da maneira como tradicionalmente a consciência pensa, pois esta, em seu estado de alerta habitual, foca-se apenas nas partes da informação que lhe interessa e filtra, através de mecanismos de censura e defesa, aquilo que ela não consegue suportar; por isso quando falamos em meditação, falamos em estados alterados de consciência, isto é, estados mentais em que o indivíduo permanece consciente, porém, por estar relaxado, diminui a ação da censura e filtros conscientes para se permitir assimilar uma maior quantidade de informação.

Considerações finais

Meditar não é ativar processos intelectuais, ou não "fazer nada". Meditar é justamente atingir um nível de relaxamento profundo. Este relaxamento proporciona uma espécie de "descuido" da censura consciente, assim como nos sonhos e, portanto, possibilitar o acesso a conteúdos inconscientes de forma consciente.

Esta "contradição", em realidade, se torna possível porque do ponto de vista espiritual não há um "inconsciente". Tudo é consciência. Apenas há níveis de consciência diferentes. A consciência no sentido psicológico tradicional, como um complexo voltado para a nossa sobrevivência é um nível específico ao qual temos acesso, havendo outros níveis aos quais podemos ganhar acesso através de atividades específicas como a meditação.

Estamos todos conectados, quer tenhamos conhecimento disto ou não, a um Campo Unificado de Consciência maior. Ao invés de um inconsciente coletivo, o que há é uma consciência coletiva. O inconsciente como uma parte definitivamente inacessível do ser humano não existe, pois em longo prazo, todos encontraremos o acesso que nos leva as outras camadas do nosso Ser. (P. V. M. )

Saiba mais

LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1999

DOOLITTLES, Hilda. Por amor a Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 2012

DUNNE, Claire. Carl Jung: curador ferido de almas. São Paulo, Alaúde, 2012

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