Ensaio

Elementos-chave do movimento da estética árcade

Arcadismo ou neoclassicismo é a expressão artística tradutora dos valores do século XVII

00:00 · 21.09.2014
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François Boucher: "Autum Pastoral", óleo sobre tela. A composição põe em relevo a harmonia entre o homem e a natureza - espaço este que abriga, em si, a beleza, a verdade e a razão. A felicidade advém da vida no campo. ( foto: Divulgação )

Para os poetas árcades, a poesia é fruto da cultura literária, não sendo, portanto, espelho de uma experiência de vida. Assim, as emoções, as atitudes individuais, as volições, tudo se submete ao jugo da razão, caminho único por que pode tornar-se universal. Observe-se, por exemplo, a seguinte atitude do bucolismo: os poetas revivem a crença de que paz e tranquilidade relacionam-se diretamente à vida no campo através de um pastor imaginário a viver múltiplas sensações em um ambiente artificialmente construído.

Uma das atitudes fundamentais do Arcadismo é a mimésis: mas não como imitação direta da natureza, tal como a concebeu Aristóteles, mas, sobretudo, como a imitação dos grandes poetas que, antes, muito antes, imitaram a natureza; por isso, os árcades buscavam os mesmos motivos, as tonalidades e as formas dos poetas clássicos: Virgílio, Ovídio, Horácio, Petrarca e Camões.

Equilíbrio e simplicidade

Os árcades, opondo-se ao rebuscamento seiscentista e retomando os modelos renascentistas, aspiravam, com isso, ao equilíbrio e à simplicidade dos poetas greco-romanos, copiando-lhes o modelo: clareza, simplicidade, predomínio da razão; daí, a ordem direta da frase, o verso branco, o estilo mesclado - aproximação entre a expressão prosaica e a poética. Nas composições da estética barroca, os processos de construção ora se alicerçavam em jogos de palavras ou de ideais, tal não ocorre no Arcadismo: (Texto I)

Neste fragmento do poema épico "O Uraguai", de Basílio da Gama, o detalhe principal, considerando-se os recursos expressivos da época em que foi composto, recai sobre o fato de que, ainda que os versos sejam metrificados em dez sílabas, a rima é branca, isto é, o poeta não visa à coincidência fônica no final de cada linha do texto. O tom é predominantemente descritivo, ressaltando a plena harmonia entre o ser e a natureza: a melancolia que impele a personagem à morte também se encontra expressa no "cipestre", em sua taciturna sombra.

Bucolismo e pastoralismo

Os poetas árcades não seguem à regra a poética de Aristóteles: a arte como imitação da natureza, pois, aí, estão o belo, a verdade e a perfeição; fizeram, a rigor, uma releitura dessa atitude: não se limitaram a copiar diretamente a natureza, mas procuraram recriá-la consoante os modelos clássicos. Desse modo, no espaço de uma natureza convencional (campinas verdejantes, montanhas floridas, bosques, riachos cristalinos), os poetas vivem suaves idílios ao lado de suas pastoras - as amadas -, cultivando a crença de que a harmonia e a beleza encontravam-se na natureza.

Para os árcades, a arte apresenta um fim didático e moralizante; a poesia prima pela descrição objetiva das situações; assim, o poeta deve procurar, ao máximo, conter as emoções, evitando, também, os aspectos cruéis da realidade. (Texto II)Neste fragmento de "A lira de Marília de Dirceu", de Tomás Antônio de Gonzaga, o sujeito lírico se dirige à amada Marília em tom de apresentação; por isso mesmo, é preciso compreender que ele, a rigor, não canta a amada, mas, antes de tudo, o próprio amor. O eu poemático não se mostra derramado, mas, sim, equilibrado, racional, preciso. Apresenta-se como um burguês, proprietário de um sítio, no qual reside, provido das delícias da sobrevivência e do lazer.

Na segunda estrofe, o pastor põe em relevo a sua juventude, a enorme consideração que merece dos demais e, ainda, seus dotes artísticos: é músico, cantor e compositor. Assim, ele se reconhece, assim, amparado pela sorte. Infere-se, desse modo, que para Marília tê-lo como amante é também uma dádiva.

FIQUE POR DENTRO

Notas sobre o Arcadismo no Brasil

Ciclo do Ouro propicia, ao Brasil Colonial, significativas transformações sociais, econômicas e culturais. A partir de 1763, A Coroa portuguesa (D. José I, déspota esclarecido, reina em Portugal, mas o poder concentra-se deveras nas mãos do Marquês de Pombal) transfere a sede do Governo no Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro; nessa ocasião, Minas Gerais vive uma intensa atividade cultural. O Arcadismo, no Brasil, apresenta como marco inicial a publicação de Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa, em 1768. São, ainda, grandes poetas Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto. A produção árcade termina, em termos cronológicos, em 1836 quando da publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, obra introdutora do movimento romântico.

Trechos

TEXTO I

Este lugar delicioso e triste, / Cansada de viver, tinha escolhido / Para morrer a mísera Lindoia. / Lá reclinada, como que dormia, / Na branda relva e nas mimosas flores, / Tinha a face na mão, e a mão no tronco / De um fúnebre cipreste, que espalhava / Melancólica sombra. Mais de perto / Descobrem que se enrola no seu corpo / Verde serpente, e lhe passeia, e cinge / Pescoço e braços, e lhe lambe o seio. (GAMA, Basílio da. O Uraguai. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 81-82)

TEXTO II

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, / Que viva de aguardar alheio gado, / De tosco trato, de expressões grosseiro, / Dos frios gelos e dos sóis queimado; / Tenho próprio casal e nele assisto; / Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; / Das brancas ovelhinhas tiro o leite, / E mais as finas lãs com que me visto! / Graças, Marília bela, / Graças à minha estrela! /// Eu vi o meu semblante numa fonte, / Dos anos inda não está cortado: / Os pastores, que habitam este monte, / Respeitam o poder do meu cajado; / Com tal destreza toco a sanfoninha, / Que inveja até me tem o próprio Alceste: / Ao som dela concerto a voz celeste, / Nem canto letra que não seja minha. / Graças, Marília bela, / Graças à minha estrela. (GONZAGA, T. A. Op. Cit.

Carlos Augusto Viana
Editor

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