Ensaio

Elementos-chave do discurso da metapoesia

00:47 · 03.08.2013
João Cabral de Melo Neto, em " A Educação pela pedra", não se limitou a delinear os fundamentos do idioma pedra; também buscou incorporar características rochosas em sua escritura. Dessa forma, em vários poemas, traçou comentários sobre o seu próprio ato composicional.

No poema "Catar feijão", disserta sobre o ato de escrever. Assim, através de elipses, de aliterações e de assonâncias, o poeta-engenheiro nos presenteia com uma reflexão sobre a própria escritura. Quanto aos recursos expressivos, há a presença de rimas toantes e a alternância quase exclusiva entre vocábulos paroxítonos e oxítonos, fator gerador do ritmo:.(Texto V)

Primeiro movimento

O poeta utiliza-se da comparação, para esclarecer sua posição no que se liga ao ato de escrita. Assim, através de uma composição que se constrói de maneira marcadamente lógica, praticamente, à maneira de um texto descritivo, o eu-lírico retira-nos do campo abstrato do processo de escrita, de quando em vez, prenhe de considerações metafísicas e até mesmo místicas, e nos leva para um dos mais cotidianos atos de nossa vivência brasileira: catar feijão.

O primeiro verso da composição enuncia o núcleo comparativo do poema: "catar feijão se limita com escrever". Assim, após essa enunciação central, o eu-lírico parte para a descrição das partes componentes desse ato, dessa forma, postula que a primeira coisa a ser feita é "jogar os grãos na água de alguidar". Com efeito, essa construção pode ser entendida, conotativamente, como um incentivo do eu-lírico a liberalidade da inspiração, isto é, o escritor deve deixar a inspiração fazer seu trabalho, deve deixá-la fluir, alheando-se, de certa forma, da racionalidade, bem como da contenção, pelo menos em um primeiro momento.

Após isso, já indo em direção ao fim da primeira parte do poema, o eu-lírico coloca que é preciso "jogar fora o leve e oco, palha e eco", assim, de forma conotativa, diz-nos que é preciso retirar, das palavras presentes na bacia da folha em branco, aquelas que estão em excesso ou fora de lugar, ou seja, é necessário eliminar do texto as palavras superficiais, aquelas que apenas dão volume, visto que nada dizem; além disso, é necessário eliminar dos vocábulos o eco, elemento que pode no contexto do poema ser entendido de duas formas, a primeira como uma espécie de sujeira que causa nojo e ojeriza, a segunda como o eco presente na poesia, o qual repugna os ouvidos, sobretudo, daqueles que estão fartos do lirismo melopeico que, para Cabral, durante longo tempo, fez-se presente na poesia brasileira.

Segundo movimento

Na segunda estrofe, o eu-lírico nos fala sobre uma das consequências ou um dos resultados desse ato de catar feijão: o risco da permanência de um grão indigesto. Contudo, a despeito do que se espera, diferentemente, do que ocorre com o feijão, na escritura, esse elemento indigesto, pedrento, não é repugnante, sendo, na verdade, imensamente desejável, visto que este dá a frase sua singularidade e pertinência. (Texto VI)

No poema em questão, temos o seguinte enunciado "a pedra dá a frase seu grão mais vivo: obstrui a leitura fluviante, flutual/"; a partir desse excerto, é possível dizer qual o objetivo de Cabral ao fazer o elogio da palavra indigesta: impossibilitar ao interlocutor a leitura desatenta e despreocupada. Assim, Cabral obriga o leitor a sair da passividade e da pseudointerlocução, caraterísticas tão presentes na midiática sociedade contemporânea, a qual, de certa forma, incentiva o consumo informacional pouco reflexivo e também massificado.

A visão de mundo

À maneira de Andy Warhol, ferino crítico da massificação da arte na sociedade contemporânea, Cabral apega-se a uma estética que concebe a arte não como mercadoria de consumo, mas sim como item marcadamente virulento no que se refere a formas estereotipadas de pensar e de consumir, em outras palavras, de certa forma, o poeta recifense procura fazer uma poesia-lâmina, que corte as formas habituais de ler e de pensar. Assim, procura fugir da leitura "fluviante" e "flutual", neologismos que são utilizados para expressar o caráter fluído das leituras habituais. Para cumprir esse objetivo, o poeta modernista coloca, através de sua sintaxe entremeada e comparações sofisticadas, inúmeras pedra no caminho de seus leitores mais despreocupados.

O urubu mobilizado

Para que se esclareça a pertinência da postura estética de Cabral, a qual não deve ser entendida como mero esteticismo, isto é, como mera presunção estilística, analisemos brevemente o poema " O urubu mobilizado", também presente no livro a "Educação pela pedra". Nesse poema, Cabral fala-nos sobre elementos ligados ao Nordeste e às misérias do sertão em tempo de seca. Ademais, no que se refere aos aspectos formais, podemos perceber novamente no poema a presença de versos longos e livres, a divisão em duas estrofes e a presença intermitente de rimas toantes. Além disso, é possível notar a grande presença de substantivos, elemento que dá um aspecto menos subjetivo ao poema; por fim, há grande presença de inversões sintáticas, fato que, de certa forma, atrapalha a realização de uma leitura fluída e desatenta. (Texto VII)

De forma desautomatizadora, fala-nos da seca não da perspectiva de um sertanejo ou mesmo de um latifundiário, mas sim da perspectiva de um urubu, bicho comedor de seres putrefatos, mortos ou semimortos. Com efeito, o eu-lírico diz-nos que, em tempos de seca, o urubu que trabalha de maneira intermitente e não-periódica, nessa época, torna-se funcionário, tamanha a pujança de trabalho que tem. Contudo, na esfera do poema, o bicho não realiza os seus carniceiros atos impelido por imperativos de maldade, mas apenas por zelo no exercício de suas funções. Além disso, a situação de miséria dos empreiteiros da seca é tamanha que o bicho, ao tomar para si o corpo do morto incerto, vítima da situação miserável oriunda da seca, acaba por agir como um médico ao realizar a eutanásia, isto é, o bicho finda com o sofrimento daquele que está irremediavelmente condenado à morte.

Considerações finais

No segundo momento da composição, o eu-lírico do poema aproxima, metaforicamente, o Urubu de um profissional liberal. (Texto VIII)

Para que se compreenda bem essa metáfora, é necessário inicialmente que se entenda o que é um profissional liberal. Este, grosso modo, pode ser definido como um funcionário que trabalha não de maneira disciplinada e regulada, mas sim de acordo com a demanda por seus serviços. Nesse caso, pode-se entender a qualificação doo urubu como um profissional liberal pelo fato de que, em períodos de seca, esse bicho é levado a trabalhar mais, em virtude do aumento da quantidade de seres mortos ou semimortos presentes no sertão. Assim, João Cabral de Melo Neto, através dessa perspectiva desautomatizadora, fala-nos sobre as agruras da seca, porquanto através da imagem do urubu e de sua, praticamente, infindável quantidade de trabalho, mostra-nos o quão miserável é a situação do sertão nordestino em tempos de escassez de chuvas.João Cabral de Melo Neto, com suas palavras-pedra, apreende a terra e a alma do sertanejo. (M. A. V. )

SAIBA MAIS

ATHAYDE,
Felix. Ideias fixas de João Cabral de Melo Neto. Rio: Nova Fronteira, 1998
CARONE, Modesto. A poética do silêncio. São Paulo:
Perspectiva, 1979
CASTELLO, José. O homem sem alma. Rio de janeiro:
Bertrand Brasil, 2006
MELO NETO, João Cabral de. Antologia poética. Rio de Janeiro: Sabiá, 1967
MOISÉS, Massaurd. A criação literária - poesia. São Paulo:
Cultrix, 1967

Trechos

TEXTO V

Catar feijão se limita com escrever:/ joga-se os grãos na água do alguidar/ e as palavras na folha de papel;/ e depois, joga-se fora o que boiar./ Certo, toda palavra boiará no papel,/ água congelada, por chumbo seu verbo:/ pois para catar esse feijão, soprar nele,/ e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

TEXTO VI

Ora, nesse catar feijão entra um risco:/ o de que entre os grãos pesados entre/ um grão qualquer, pedra ou indigesto,/ um grão imastigável, de quebrar dente./ Certo não, quando ao catar palavras:/ a pedra dá à frase seu grão mais vivo:/ obstrui a leitura fluviante, flutual,/ açula a atenção, isca-a como o risco./

Texto VII

Durante as secas do Sertão, o urubu/de urubu livre, passa a funcionário./ O urubu não retira, pois prevendo cedo/ que lhe mobilizarão a técnica e o tacto,/ cala os serviços prestados e diplomas,/ que o enquadrariam num melhor salário,/ e vai acolitar os empreiteiros da seca,/ veterano, mas ainda com zelos de novato:/ aviando com eutanásia o morto incerto,/ ele, que no civil que o morto claro.

TEXTO VIII

Embora mobilizado, nesse urubu em ação/ reponta logo o perfeito profissional./ No ar compenetrado, curvo e conselheiro,/ no todo de guarda-chuva, na unção clerical,/ Com que age, embora em posto subalterno:/ ele, um convicto profissional liberal.

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