Ensaio

Elementos-chave da escritura dos realistas-naturalistas

00:00 · 11.01.2015
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Nesta obra, intitulada "O pintor", Belmino de Almeida rompe com a visão idealizada do artista, mostrando-o como um trabalhador. ( FOTO: DIVULGAÇÃO )

No período do Romantismo, o romance, percorre diversos caminhos, através dos quais os ficcionistas desenhavam os aspectos múltiplos da cultura brasileira: romance urbano (usos e costumes na crônica do cotidiano da Corte; linguagem simples; paixões adolescentes; o amor como elemento-chave para a existência); romance histórico-indianista (mitificação de um passado heroico; o índio como herói nacional, marcado pela pureza, lealdade e coragem; natureza exótica; linguagem poética; tom lírico e épico); romance regionalista (a revelação de um espaço brasileiro até então desconhecido pelo leitor urbano: gente simples, honesta, presa a tradições; costumes arcaicos; linguagem caracterizada por distorções fonéticas).

Contemporaneidade

Fruto da observação direta e da análise da realidade, a ficção do Realismo-Naturalismo está concentrada no presente, por isso há, por parte dos autores, uma preferência pela crítica social (desnudando o poder) e pela análise psicológica (investigando a condição humana). Nesse sentido, o interesse do romance não reside na trama em si, pois esta, muitas vezes, já é de conhecimento do leitor, como é o caso do romance "Casa de Pensão", de Aluísio Azevedo, baseado num acontecimento real, envolvendo motivos passionais, amplamente divulgados nos jornais da época. O que importa é modo de agir das personagens, suas motivações internas, pois são guiadas pelo interesse, pela vaidade, pela ambição, pela cobiça e constantemente falseiam sua identidade: (Trecho IV)

O perene humano

Ao examinar a realidade, o ficcionista, quer nos moldes realistas, quer nos naturalistas, procura mostrá-la em seus elementos essenciais e universais; por isso, busca verdades eternas e compreende a narrativa como uma ação moral e uma tese. De tudo isso decorre um forte niilismo: céticos quanto à concretização, por parte do poder burguês, dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, os autores do período assumem posições amargas e niilistas diante do quadro social e das possibilidades humanas: (Trecho V)

Das personagens

Colhidas do cotidiano, as personagens são tipos concretos, vivos, nenhuma atitude sua é gratuita, há sempre uma explicação lógica para o modo de agir; há um determinismo em sua atuação: forças atávicas e/ ou sociais determinam-lhes o comportamento. Valorizam-se os detalhes, as minúcias, para um retrato fiel da realidade observada; ação e enredo perdem importância para a caracterização das personagens e do espaço. (Trecho VI)

O Realismo e o Naturalismo assumem, em geral, as características antes estudadas. Sendo movimentos estéticos contemporâneos, quase paralelos, a crítica, quase sempre, compreende o segundo como um simples prolongamento do primeiro. Entretanto, o Naturalismo (mais próximo do experimentalismo e do positivismo) apresenta traços específicos. É o que pode ser comprovado a partir da leitura do trecho VI:

Considerações finais

O ensaísta, historiador da literatura e professor Massaud Moisés estabelecendo um paralelo entre as estéticas do Romantismo e as do Realismo-Naturalismo ressalta que se no primeiro a narrativa gira em em torno do casamento, ou melhor, dos antecedentes que conduzem ao enlace burguês, o romance realista focaliza a situação criada pelo casamento, não a feliz, suposta pelas verdades burguesas, senão a degenerescente, encoberta pelo manto diáfano que a classe média jogava sobre suas instituições. E no panorama "real", que a instrumentação científica permitia, via-se, em lugar da bem-aventurança pacóvia, o câncer do adultério.

Trechos

TRECHO IV

Rubião fitava a enseada, - eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade. - Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça... (ASSIS, Machado de. Quincas Borba. São Paulo: Scipione, 1994.).

TRECHO V

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplastro, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas falhas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais: não padeci a morte de D. Plácida, nem a semi-demência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.(ASSIS, Machado Obra completa. Rio: Nova Aguilar, 1997)

TRECHO VI

Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra. (AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Ática, 1994, p. 35)

Saiba mais

CASTELO, José Aderaldo. A literatura brasileira - origens e unidade. Vol. I São Paulo: Edusp, 1999

MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira. Vol. II - Realismo e Simbolismo. São Paulo: Cultrix, 2001

NEJAR, Carlos. História da literatura basileira. São Paulo: Leya, 2011

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