Música

Dos encontros à estética hippie

Bárbara Eugênia e Tatá Aeroplano lançam "Vida Ventureira", primeiro álbum de parceria que dura mais de 10 anos

Bárbara Eugênia e Tatá Aeroplano: "a gente se complementa muito musicalmente" ( Foto: Haroldo Saboia/divulgação )
00:00 · 13.09.2017 por Felipe Gurgel - Repórter

O encontro entre Bárbara Eugênia (RJ) e Tatá Aeroplano (SP), dois dos nomes mais interessantes do atual cenário da música brasileira, já rende há mais de 10 anos. Quem lembra do primeiro contato é ele, Tatá, em entrevista por telefone.

"Temos um amigo em comum, que apresentou a gente, lá por 2006. A Bárbara tinha vindo morar em São Paulo. Ela é do Rio, e estava começando a fazer seu primeiro disco ('Journal de Bad', 2010). Fizemos (a música) 'Dos Pés', desse álbum", situa o compositor.

Tatá levou também, desse disco para sua carreira solo, alguns músicos que participaram da produção do trabalho, como os cearenses Júnior Boca e Dustan Gallas. Agora, todos eles, além do baterista Bruno Buarque, produziram e lançaram "Vida Ventureira", disponível desde o último mês de julho nas plataformas digitais.

A ideia de gravar o álbum partiu de Bárbara Eugênia. Em 2013, ela e Tatá Aeroplano imergiram no processo de criação do repertório na Fazenda da Serrinha, em Bragança Paulista (SP). O local é próximo de onde Bárbara reside, há seis meses, na cidade do interior paulista. Nascida em Niterói (RJ) e criada na capital fluminense, a cantora viveu 12 anos em São Paulo (SP) e agora reside em Bragança.

"Fizemos tudo super rápido, né? Foram dois dias na Fazenda. Eu tinha alguns teminhas já, mas não tinha letra, nada. Daí começamos a escrever, e o processo foi muito orgânico. Fizemos seis músicas num dia só. A gente se complementa muito, musicalmente. Então, foi um processo bem rápido", conta Bárbara Eugênia.

Tatá complementa que não houve uma divisão do trabalho de criação. Letra, canção, melodia, tudo surgiu em parceria. O compositor recorda a experiência de outros amigos, também artistas, acompanhando o processo da Fazenda. Tatá enfatiza que, para ele, o trabalho foi diferente do que se habituou como integrante do Cérebro Eletrônico (SP), por exemplo. Na banda, ele se encarregava das letras e da melodia.

"De todo o repertório, só teve uma música que criamos depois, 'Vem Cá'", aponta Tatá. Envolvidos em outras gravações, ele e Bárbara demoraram quatro anos para gravar o material, registrado em março de 2017, no estúdio Minduca (São Paulo).

Músicos

A gravação do disco foi uma celebração do encontro gerado a partir de "Journal de Bad". Depois desse trabalho, conforme frisa Tatá, "Bárbara fez discos com outras galeras", e se reunir para gravar "Vida Ventureira", diz a cantora, foi reencontrar "todo mundo com a mesma amizade, mesmo amor, mas já com outras ideias e outra cabeça. Foi um processo muito bacana. E um recomeço pra mim", situa ela.

Tatá detalha que seus três discos solo ("Tatá Aeroplano", 2012; "Na Loucura & na lucidez", 2014; e o elogiado "Step Psicodélico", 2016) foram gravados no mesmo estúdio, o Minduca. "A gente estava super entrosado, e a Bárbara se reencontrou com o Dustan e o Boca", revela ele.

Para os shows de lançamento, a dupla contou com o apoio de Júnior Boca (guitarra), Dustan Gallas (baixo) e Bruno Buarque (bateria e samplers) no palco. A próxima data da turnê é sábado (16), em Belo Horizonte (MG). Segundo a cantora, "o show é lindo, emocionante. E a gente (ela e Tatá) toca violão também".

Destaques

O disco inteiro é envolvido em uma abordagem muito sutil. Bárbara e Tatá, juntos, permitiram-se adentrar na roupagem etérea, mais até do que em seus trabalhos solos anteriores (embora ele, sobretudo, já tenha os dois pés engatados na psicodelia). Em algumas faixas, como "As asas são escadas pra voar", "Hoje eu quero passar longe" e "Vem cá", a expressão se torna mais clara.

O restante do repertório de "Vida Ventureira" situa-se em uma mesma narrativa experimental, com exceção de momentos em que o humor, por exemplo, se faz presente nas letras. É o caso da ótima "Pro mundo virar shopping" e seus versos ("Passaros exóticos, rotas orientais/ Pro mundo se internar no shopping/ Museus a céu aberto, arte para as massas/ Pro mundo terminar em shopping").

Tatá observa que, embora seja um trabalho com amplo apelo coletivo, tanto ele, quanto Bárbara, considera o álbum como a sequência de suas respectivas discografias. "É o meu quarto disco solo. E o primeiro da nossa parceria", precisa o compositor.

"Pra mim também. Acho que se combina com meu trabalho, faz parte dos processos que vou vivendo. É sobre um momento diferente. Coincidentemente, meus dois discos em parceria (este e 'Aurora', de 2014, com Chankas, guitarrista do Hurtmold/SP) são os mais hippies", avalia Bárbara.

Disco

Vida Ventureira

Bárbara Eugênia e Tatá Aeroplano

Independente
2017, 9 faixas
Disponível nas plataformas digitais

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