Teatro

Dom Quixote regional

Espetáculo traz Miguel de Cervantes em uma nova roupagem: De La Mancha agora é Caboclo de Lança

00:00 · 24.01.2018
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Bruno Pessoa caracterizado como o protagonista Dom Quixote Quixada ( Foto: Priscila Eugênia/ Div. )

Herói da obra de Miguel de Cervantes, Dom Quixote ganha uma nova versão no espetáculo "Dom - Heróis Guerreiros", em cartaz entre os dias 23 e 28 de janeiro, sempre às 20h, no Teatro do Dragão do Mar.

A montagem é uma realização da Cia. Palmas Produções Artísticas e faz parte da programação de férias do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC).

O texto - assinado por Ricardo Guilherme, um dos criadores do curso superior de Artes Cênicas da Universidade Federal do Ceará (UFC) e atual docente da instituição - traz um Dom Quixote repaginado, com traços regionalistas, transformando a figura do herói europeu em uma espécime de herói sertanejo.

"Ricardo Guilherme fez um texto chamado 'Dom', como uma forma de presente para que Francinice montasse. Foi escrito há um ano", explica Bruno Pessoa, integrante da Cia Palmas. Ele interpreta Dom Quixote e também assina o roteiro. A direção do solo, por sua vez, é de Francinice Campos.

As demais funções do espetáculo são divididas entre os dois componentes da Cia, contando ainda com uma equipe de apoio formada por Elder Alves, Kátia Barreira, Lima França e Bruno Martins.

Regionalidade

Em busca de resgatar sua amada, Dona Dulcineia Creuza Teodora de Porcina Magalona dos Cariris, das mãos do cangaceiro mais temido do Nordeste, Dom Quixote Quixada enfrenta inimigos inusitados e percorre lugares diferentes. O nome, Dom Quixote Quixada Quesada Quixano Fidelis Nemé Galalão Ferrabrás D'Oliveiros Roldão de Magno dos Inhamuns, além de garantir algum riso, dá a dica de onde se passa o espetáculo.

A peça coloca Dom na região do Inhamuns e traz um vilão inusitado: Lampião, que captura Dulcineia. Dom Quixote é o Caboclo de Lança, personagem tradicional no Carnaval de Pernambuco e do Maracatu Rural, e um dos símbolos da cultura nordestina - também conhecido como lanceiro africano, caboclo de guiada ou guerreiro de Ogum.

"Esse Dom Quixote adentra esse universo, da transmutação atmosférica. O caboclo de lança é uma figura regional-rural, tem todo o arquétipo de mestiço, daqueles senhores currais. O cavaleiro La Mancha e o Cavaleiro de Lança são unidos para fazer essa viagem pelo sertão", explica Bruno Pessoa.

Assim, De la Mancha veste chapéu ornamentado com fitas de diversas cores, com predominância da cor de seu guia espiritual, Oxum. Traz amarrado em seu pescoço um lenço vermelho e uma gola que cobre os ombros, o peito e as costas. Todo o adereço é coberto de lantejoulas.

A vestimenta é complementada com a "fofa" (calça frouxa de franjas), pelo surrão (amarração de chocalhos) e os óculos escuros. Por fim, a lança finaliza o traje. Conhecida como guiada, ela também é coberta de fitas coloridas.

Diversidade

Adereços, figurino e cenário foram pensados pelo próprio Bruno. Além de trazer a figura histórica criada por Cervantes para um regionalismo, ele também decidiu coloca no palco aspectos relacionados à origem das culturas espanhola e brasileira.

Para rememorar a obra do espanhol, o roteirista traz fragmentos do texto original, indo a fundo na nas origens de Dom Quixote. Nesse caminho, nada mais justo que também ir em busca das origens da religiosidade brasileira, com fortes traços da cultura afro. O Brasil aparece com seu sincretismo religioso e a umbanda surge como destaque.

Sincretismo

Quando a companhia teatral recebeu o texto de Guilherme, o grupo estava produzindo a "Lírica Negra - Rei é Oxalá, Rainha é Yemanjá", que tinha como temática a religiosidade africana. A partir daí surgiu a ideia de juntar o clássico de Dom Quixote e a umbanda.

Na peça, são os orixás que materializam esse sincretismo. O Caboclo Boiadeiro, Yemanjá, Oxum, Iansã, Ogum e Xangô são algumas figuras da manifestação umbandista que aparecem na dramaturgia.

"Dom Quixote vai pedir ajuda e as bênçãos desses orixás e eles são apresentados com os pontos deles, a história específica de cada um", aponta Pessoa. Ao longo de uma hora de duração, as entidades aparecem no palco em forma de incorporação, quando Dom Quixote as recebe.

Para os realizadores, a luta e perseverança ligaram essas duas culturas tão distantes. Dom Quixote, com suas lutas imaginárias; as religiões de matriz africana, em sua busca diária por aceitação e respeito.

Mais informações:

Espetáculo "Dom - Heróis Guerreiros". De 23 a 28 de janeiro, às 20h, no Teatro Dragão do Mar (R. Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Ingressos: R$ 20 (inteira). Contato: (85) 3488.8600

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