Ensaio

Do mundo romanesco à construção de uma sólida identidade nacional

Há, quase sempre, intrínsecas relações entre as obras de arte e o momento histórico de sua produção

00:00 · 12.10.2014
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"Iracema", em óleo sobre tela, vista, respectivamente, pelos artistas José Maria Medeiros e Antônio Parreiras, em duas cenas da trama romântica

A literatura possui em si as sensibilidades dos indivíduos que viveram em uma determinada época, e dessas sensibilidades elaboram-se discursos os mais diversificados possíveis a partir de experiências e desejos, como o imaginário da construção de uma identidade verdadeiramente autônoma para o Brasil. Esse discurso se torna real na medida em que os leitores acabam por se identificar com o que está escrito, pois narra o passado com o olhar do presente, incorporando experiências do cotidiano. Neste projeto de construção de uma nação brasileira, ou da soma de esforços para a sua construção, a música, o teatro, a historiografia, a iconografia e o romance estavam repletos de nuances para a construção de um passado heroico.

Das inscrições

Ao tomar a literatura como fonte para a escrita da história, por entendê-la como portadora de elementos do pretérito, devemos perceber os rastros deixados no livro Iracema compostos pelas sensibilidades de outrora, pois era tempo de imprimir um caráter nitidamente brasileiro à nossa cultura. De acordo com Lilia Moritz Scwartcz, nos idos de 1850, D. Pedro e a elite política da corte se preocupavam principalmente com a perpetuação e o registro de uma memória brasileira, mas também com a afirmação de um projeto romântico - quase mítico - para a construção de uma cultura legitimamente nacional. Assim, o romantismo aparece como uma forma favorável à execução de tal projeto, pois: (Texto I)

Neste projeto de produção de elementos que possam somar-se a formação de uma identidade e da nação brasileira, D. Pedro II encomenda a Gonçalves de Magalhães um poema capaz de conter a nacionalidade brasileira através dos feitos heroicos dos povos nativos. Em 1856, a obra Confederação dos tamoios, escrita por Magalhães, vem a público. Apesar de elogiada pelo imperador, é extremamente criticada pelos intelectuais da época, inclusive, José de Alencar. Eurides Freitas11 afirma que através do pseudônimo Ig., José Martiniano de Alencar passa a criticá-la em oito cartas publicadas no jornal Diário do Rio de Janeiro. Suas críticas vão desde o valor artístico até o valor poético da obra. Para Alencar, o poema de Gonçalves de Magalhães era extremamente influenciado pela estética europeia não trazendo nenhuma inovação literária para o Romantismo brasileiro.

O projeto de Alencar

Alencar torna-se militante neste mesmo projeto de construção de uma nação brasileira, no qual exalta as ideias do nacionalismo de um povo politicamente livre e contra o modelo luso-clássico. Propõe a criação de uma literatura que represente a natureza brasileira, as tradições indígenas e a expressão cultural de um povo. A busca por um Romantismo brasileiro será codificada, portanto, através de um caráter nacional e do culto à pátria: (Texto II)

Apesar do desejo de criar uma literatura nacional, José de Alencar não desprezava a influência cultural dos portugueses na formação da nossa identidade. De acordo com Alfredo Bosi (História Concisa da Literatura Brasileira. Editora Cultrix São Paulo Ed. 49 /Ano 11, 1994), o romantismo brasileiro traz em si a fusão de um pensamento retrógrado e conservador com o indianismo sentimental, ou seja, ao mesmo tempo em que se exalta o luso (colonizador português) canta-se, então, a beleza do nativo.

O romantismo alencarino mostrou-se participante desse pensamento conservador, receoso de qualquer espécie de mudança social. Firmou-se a figura criada pelo filósofo Rousseau do Bon Sauvage para compor o imaginário mais conservador. Jean Jaques Rousseau no ensaio intitulado Discurso sobre a Origem e os fundamentos da Desigualdade entre os homens objetiva analisar a origem da desigualdade entre os homens. Thiago Belieiro afirma que a ideia central da obra localiza-se na distinção entre dois tipos de homens. O primeiro é o homem em estado de natureza e o segundo é o homem corrompido pela sociedade civil. O homem em estado de natureza é originalmente bom - Bon sauvage -, ao contrário do homem civilizado que foi corrompido pela sociedade ao longo do tempo. Numa análise de Rousseau, Beliero afirma que a origem da desigualdade entre os homens estaria relacionada ao desenvolvimento civilizacional dos povos. Desta forma, quanto mais civilizada a sociedade, mais desigual ela será.

Trechos

TEXTO I

Fornecia concepções que permitiam afirmar a universalidade, mas também o particularismo, e, portanto a identidade, em contraste com a metrópole mais associada nesse contexto à tradição clássica. O gênero vinha ao encontro, dessa maneira do desejo de manifestar na literatura uma especificidade do jovem país, em oposição aos cânones legados pela mãe-pátria, sem deixar de lado a afeição oficial e palaciana do movimento. ( SCHUWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. - São Paulo: Companhia das Letras, 1998. P. 128.)

TEXTO II

Portanto, a ambição de Alencar de fazer no Brasil e da realidade do Brasil uma literatura de raízes, raça, língua, solo, história, cultura, constituiu o seu nacionalismo literário, ao mesmo tempo histórico e progressista (FREITAS, Maria Eurides Pitombeira de. As ideias de Alencar: um programa nacionalista. Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1986)

Flávia Regina O. Ramos*
Especial para o Ler

*Professora e ensaísta

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