RUA MACHADO DE ASSIS

Do Cosme Velho às Damas

13:24 · 30.09.2008
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Entre duas de suas avenidas mais movimentadas, Fortaleza guarda uma rua dedicada a homenagear Machado de Assis. Entre os moradores, leitores do bruxo

Os sobrados são diferentes. As casas avarandadas, maioria. No fim de tarde, enquanto o sol vai acender outra alvorada, a atmosfera é de tranqüilidade, quebrada aqui e ali pelo passar de uma moto, um caminhão. Veículos que descobrem por atalho a calma da rua encravada entre duas das mais movimentadas avenidas da capital, destoando dos meninos que passam a bola de um lado para o outro da via, dos senhores nas calçadas a olhar o tempo, das senhorinhas em frente às fachadas das casas, muitas delas preservadas da ânsia pelo novo que habita a cidade.

Essa a impressão de um encontro com a rua Machado de Assis, homenagem de há muito concretizada em Fortaleza ao escritor Joaquim Maria – que tão bem falou das coisas de uma outra cidade litorânea, mas que também conviveu com um cearense igualmente tornado ilustre pela pena. ´É o Machado de Assis que é cearense? Ah, não, e o José de Alencar, né?´, lembra-se uma senhora. ´Essa rua tem faz é tempo, mas Machado de Assis, bem sinceramente, não é do meu tempo não. Mas eu li, acompanhei algumas obras´, comenta Márcio Silva, que se dedica a outras escrituras, na missão de preparar aqueles que têm por missão barrar o sentimento diagonal dos homens-gol.

É que a rua, ladeada pelas avenidas José Bastos e João Pessoa, nasce literalmente no portão do Ceará Sporting Club. ´É o mais querido! Aqui todo mundo é Ceará´, brinca dona Magna Capibaribe, 66 anos, cuja família chegou à rua em 1949. ´Encontrei meu marido aqui, na casa em frente´, emociona-se. ´Quando chegamos aqui, era uma casa aqui, outra ali. Um calçamento muito pobre. A esquina era uma poça de lama´, acrescenta sua irmã, Nicinha Azevedo, 77, professora aposentada da rede estadual, confirmando que o autor homenageado na via também esteve presente em suas aulas. ´Eu era professora polivalente, dava aula pra crianças pequenas. Mas falava um pouco dele, que foi um escritor importante´, recorda. ´Hoje, lembro mais de nada dele! Se você tivesse dito que vinha, eu me preparava pra lhe falar´.

Carece não. O encontro com Magna e Nicinha, mais a presença de outra irmã, dona Núbia, 73, que deixou o casarão para assuntar o que era mesmo aquela conversa ao pé do portão, basta para puxar um pouco do novelo de histórias da Machado de Assis fortalezense. ´Aqui a maioria das casas é de proprietários, muitas famílias estão há muito tempo. Aqui era uma vila de casas, do seu Pedroca. O Mário Morais, já falecido, foi o primeiro morador´, garante dona Nicinha. ´Era o pai do César Morais, aquele treinador de futebol. Tem também a família do seu Calixto... São várias famílias que moram aqui há muito tempo´, emenda, apontando a atmosfera calma e o conforto das casas espaçosas como diferenciais da rua. ´Só agora é que tá tendo uns probleminhas com um pessoal de bicicleta, querendo fazer assalto´, testemunha dona Magna, reforçando que a rua, mesmo tranqüila, não escapa de todo à realidade urbana.

Predominantemente residencial, a rua conta com algumas empresas de transporte e autopeças. ´A garagem da empresa de ônibus cortou a rua, dividindo. Ali na frente, ela muda de nome´, confirma Nicinha, acrescentando: ´Aqui tinha uma empresa grande, a Formasa, que tinha muitos funcionários. Hoje, é uma faculdade´. E o escritor? É de fato a principal referência da rua, ou sucumbe ao universo da bola. ´As duas coisas. Sempre que a gente dá o endereço, diz que é rua Machado de Assis, perto do campo do Ceará´, contemporiza dona Magna, em um dos extremos da rua que, no cotovelo após uns sete quarteirões, passa a se chamar Matos Vasconcelos.

Filhas de seu Batista (´Papai foi o primeiro prefeito de Paracuru. Foi ele que começou a cidade lá´) e dona Alaíde, as irmãs lembram os tempos em que Machado era assunto na casa, permeada de estudantes. ´Só da família, eram 11 filhos. Tinha mais os primos, os sobrinhos, os amigos... Muita gente vinha estudar aqui´, recorda Nicinha. ´A rua toda sempre foi calma, mas muito animada´. A tarde corre enquanto Lurdinha Oliveira, 51, amiga das irmãs e outra moradora da Machado de Assis, chega para esticar a prosa. ´Morar aqui é muito bom. É uma rua muito calma e tem sempre essa lembrança, de um grande escritor´.

Machado em casa

Outros moradores conhecidos são Francisco Diógenes e Maria Rabelo, que vivem na Machado de Assis desde 1968. ´Criamos nossos meninos aqui, e todo mundo se conhece, tem muita amizade. É uma rua muito boa de morar´, diz seu Francisco, servidor aposentado do Dnocs. ´Quando cheguei aqui, vindo de Iguatu, a rua já tinha esse nome, mas era bem diferente. Ainda não era asfaltada, né?´, recorda, lembrando os tempos de outra Fortaleza. ´Nós já tínhamos três filhos, e aqui nasceu mais um. Pra nós, a rua onde nós moramos não tem melhor. É uma rua calma. Só tem aparecido umas marmota agora, de vez em quando, mais isso é em todo lugar´, resigna-se. ´Por ter muita gente do interior, ainda tem alguns hábitos que você não vê muito. Tem cadeira na calçada de tardezinha, no fim de semana...´.

Dona Maria, por sua vez, mostra desembaraço ao falar do escritor que faz parte de seu dia-a-dia. ´Já li muitos livros do Machado de Assis. Pra mim, é o melhor escritor brasileiro, se não for o melhor do mundo´, vaticina. ´A escrita dele é de uma forma que, se a gente não prestar atenção o tempo todo, a gente se perde. E é um português muito elevado´, justifica. ´Aqui nessa rua, era pra ter uma homenagem a ele, alguma coisa assim. Os colégios podiam fazer. Deviam botar mais os meninos pra ler, que lendo a gente vive aquela história´, sugere, enquanto busca em casa algumas das obras do bruxo, em edição de bolso, letra pequenininha derramada em páginas amareladas pelo tempo. ´Esaú e Jacó´, ´Iaiá Garcia´, ´Quincas Borba´... Títulos eternos de um escritor também celebrado na terra de Alencar.

Dalwton Moura
Repórter

Moradores da Rua Machado de Assis, em Fortaleza

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