ARTES VISUAIS

Diversidade de vozes femininas

Grupo de 19 artistas realiza exposição "Mulheres Vírgula!", que estreia nesta quinta (15) no CDMAC

00:00 · 15.03.2018
O que restava quando olhei para o abismo
Uma das imagens do trabalho de Clara Capelo, intitulado "O que restava quando olhei para o abismo"

A diversidade tanto de linguagens artísticas quanto de temáticas constitui uma das particularidades da exposição "Mulher Vírgula!", que será inaugurada nesta quinta (15), às 18h, na Multigaleria, localizada no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC). Composta por 21 obras, elaboradas por 19 artistas - vídeo, fotografia, desenho, lambe-lambe, instalação e pintura -, a coletiva integra a programação "Bárbaras: mulheres do Ceará", evento promovido pelo CDMAC como parte das comemorações do Dia Internacional da Mulher.

"São artistas independentes que se juntam para realizar um trabalho conjunto", explica Cecília Bedê, curadora da mostra, "que se propõe como espaço de debate para além da temática do feminino, rebatendo estereótipos e quebrando padrões".

O convite para a organização de "Mulher vírgula!" partiu da direção do CDMAC, que durante este mês oferece variada programação produzida por mulheres. Cecília promete que a intenção é seguir a mesma dinâmica dos eventos da programação. "São artistas com produção bastante consistente, mulheres que falam do mundo e da vida pessoal de forma crítica", justifica.

As obras remetem a diversas falas femininas, que parecem completar-se entre si. O aspecto político, bem como discussões subjetivas, aparecem nas narrativas visuais, expressas em criações mostrando temas em torno do corpo, da maternidade e da cidade. "As 19 artistas materializam em diversas linguagens artísticas embates frontais a partir de suas presenças na arte, no trabalho, na rua, no corpo e na cultura", pontua Cecília.

Trabalhos

O coletivo é formado pelas artistas Aline Albuquerque (instalação), Clara Capelo (fotografia), Fernanda Meireles (instalação com lambes), Aspásia Mariana, Beatriz Gurgel, Dhiovana Barroso, Elisa de Azevedo, Emi Teixeira, Marissa Moana, Micinete, Renata Cidrack, Shéryda Lopes, Flávia Memória (instalação), Ingra Rabelo (desenho/intervenção), Julia Debasse (pintura), Lia de Paula (fotografia), Marina de Botas (desenho), Simone Barreto (desenho) e Virgínia Pinho (vídeo).

Aline Albuquerque, autora da instalação "Agitprop Fem", enveredou para o campo político, juntando manifestação artística à mobilização social, seguindo à risca a lição da arte contemporânea. "A instalação é o desdobramento de uma ação que venho realizando cotidianamente desde o impeachment da presidenta Dilma. A ação consiste em fazer todas as atividades cotidianas com uma plaquinha onde lê-se Temer jamais", esclarece.

Na obra, a artista visual apresenta uma série de frases, de grandes e pequenos revolucionários, palavras de ordem ou desordem, cheias de desejo e intenção. O material utilizado é o mais simples possível, papelão e tinta guache, fazendo alusão à precariedade da situação político-social na qual o País está mergulhado. O título "Agitprop", que significa agitação e propaganda, foi usado na Revolução Russa, diz, completando que a obra foi apresentada no Salão de Abril Sequestrado, realizado no ano passado. As mulheres tiveram importante papel na Revolução Russa, que no ano passado completou 100 anos. Como continua sendo realizada, a artista acrescenta mais plaquinhas à instalação, "fazendo com que o painel continue crescendo junto com a indignação". Sempre presente às manifestações, Aline aproveitava para colher material, como faz ao andar de ônibus e pelas ruas.

"Tenho usado agora a plaquinha Lula livre", afirma, já que o trabalho ainda não terminou. As pessoas perguntam: "hoje tem protesto?", conta, respondendo que o protesto é todo dia. "Não é nada impositivo", adianta, embora o sentido da obra seja provocar as pessoas, que mostram reações a favor ou contrária. Outro dia, uma senhora, no supermercado perguntou se a artista não tinha vergonha de andar com essas plaquinhas, conta. "Disse que tinha vergonha era do golpe com Supremo e tudo. Acho que é um gesto simples que me coloca criticamente no mundo. É simples e potente", critica.

Já a fotógrafa Clara Capelo voltou suas lentes para a subjetividade, ao apresentar o ensaio "O que restava quando olhei para o abismo", formado por três fotografias em tamanho 70cm por 90cm. A obra representa um autorretrato da artista, relembrando um momento de muita dor.

O trabalho que chama a uma reflexão, "traz o que nós enxergamos quando não há mais nada para enxergar", comenta ela. Desde 2014 começou a fazer fotos artísticas, como as apresentadas na exposição, que retrata uma mulher segurando galhos com um espelho nos olhos.

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