Programação

Dias de virtuoses

Guaramiranga chegou ao segundo dia de folia sob as bênçãos da música instrumental e uma justa homenagem

00:00 · 14.02.2018
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Em sentido horário: Macaúba do Bandolim, homenageado do Festival; Davi Duarte; e Arismar do Espírito Santo com o gaitista Gabriel Grossi ( Fotos: JL Rosa )

Se a abertura dos trabalhos na Cidade Jazz & Blues foi de casa lotada, o domingo do Festival pouco ficou atrás. No dia em que o município registrou grande volume de visitantes (o que resultou em congestionamentos e dificuldade para os motoristas estacionarem), a festa prosseguiu mais "instrumental" - tanto pela genialidade caótica de Arismar do Espírito Santo quanto pela emocionante homenagem a Macaúba do Bandolim.

Logo na metade da manhã, na Associação dos Amigos da Arte de Guaramiranga (Agua), Marcelo Padre compartilhou seus amplos conhecimentos musicais na Oficina de Sopros. Ao entardecer, o Ensaio Aberto trouxe uma generosa amostra da noite instrumental que estava por vir.

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Em seguida, no "Show ao Pôr do Sol", o Jazz & Blues testemunhou, talvez, um dos momentos mais tocantes desta edição. A celebração à carreira e à musicalidade de Macaúba do Bandolim conseguiu emocionar o público do início ao fim.

De poucas palavras, Macaúba era só agradecimentos. Ao centro do palco, acompanhado do filho Marinaldo (também um virtuoso do bandolim), Ribamar Freire (nome histórico do violão de 7 cordas) e Fernando (pandeiro) - todos grandes nomes da cena do choro no Ceará -, o homenageado tentava conter a emoção a cada música executada. O universo popular e democrático do choro embalou o J&B por meio de temas imortais como "Brasileirinho" e "Carinhoso", além de composições próprias.

"Tenho muito prazer e honra em tocar para esta plateia maravilhosa, esses músicos maravilhosos. Agradeço a todos que votaram para eu ser um mestre da cultura. Vamos de música, não sou bom de falar", adverte o veterano. E tome choro mais uma vez, para o encantamento dos presentes.

Ao centro, Macaúba coordena os amigos com precisão. A melancolia do choro ocupa o palco. O peso, a cadência, tão importantes no gênero, são orquestrados pela dobradinha entre Fernando e Ribamar. O pandeiro do primeiro contagia e ressoa de modo pontual. Esbanjando simpatia, o músico segue as marcações inspiradas das cordas graves do violão.

O universo musical desse senhor harmoniza-se deliciosamente com o clima nublado do fim de tarde de domingo na região serrana. Casa cheia, cada tema executado pelo mestre é abraçado de perto pelos presentes. Como se fosse um velho conhecido nosso, Macaúba e sua música, inspiram. "O chorinho é jazz", avisa.

Após "Carinhoso" e seus versos "meu coração não sei por que, bate feliz quando te vê", compreendemos bem o que significou a apresentação. Em certa medida, Macaúba comove e grande parte desse feitiço nos enlaça silenciosamente. Aplaudido de pé, o homenageado sorri e fala com gratidão: "Obrigado. Muito limpeza, vocês".

Cadência

Seguindo o amistoso clima deixado por Macaúba, o show Davi Duarte e Duo Estro Cuba embarcou em uma viagem sobre o pano de fundo do blues e do jazz. Toda essa força sonora é conduzida nas obras autorais destes músicos. O piano do cubano Néstor Lambida e o sax e a flauta do mineiro Marcelo Padre (o Duo Estro Cuba) se integram de maneira sofisticada às interpretações do cantor cearense.

Como referência, basta citar a saborosa "Retalhos de Cetim", cria de Benito Di Paula, que ganhou um tom dramático especial. A ambientação organizada pelo quarteto traz um clima esfumaçado da noite dos neons das ruas. O sax do mineiro confere esse ambiente noturno e os arranjos são elaborados de modo delicado.

Unindo todas essas mentes, a participação do percussionista Nilton Fiore soa orgânica e dá a pegada certa para o espetáculo. Outros nomes da música nacional são festejados (De João Bosco a Gilberto Gil). O Festival adentra a noite com uma sonoridade diversa, recheada de emoção e desenvoltura refinada.

Se Macaúba e o projeto guiado por David Duarte trouxeram um repertório bem ao gosto do brasileiro, Arismar do Espírito Santo ampliou esse contato com uma apresentação grandiosa. O virtuosismo do multi-instrumentista santista trouxe estranhamento e beleza ao show das 21h. Para construir sua engenhoca musical, teve o reforço de um verdadeiro time de feras.

Participaram o brasiliense Gabriel Grossi (reconhecido como um estudioso profundo da gaita), o gaúcho Bebê Kramer (acordeom) e o cearense Cainã Cavalcante (violonista e guitarrista aclamado pelos trabalhos com inúmeros grupos e artistas, entre eles o violonista Zé Paulo Becker, o pianista Thiago Almeida e o cantor Marcos Lessa).

Arismar reproduz por intermédio dos convidados uma musicalidade solar, com cheiro de natureza. Cada músico doa-se ao máximo em suas especialidades. Esse casamento rende bons instantes de improviso. À frente deste grupo, o santista executa cada nota de maneira intensa, o que explica a elogiada carreira, com quatro décadas na estrada. 

Fique por dentro

Reconhecimento do público e de colegas

"Você viu ontem, que legal. Quanta coisa boa que aconteceu", comenta Arismar do Espírito Santo em um rápido encontro nos bastidores. Após um papo que envolveu o time do coração, o Santos Futebol Clube (com direito até a arriscar um dueto do hino do time), Arismar era só sorrisos e dividia atenção com músicos mais jovens, caso do baixista Netinho de Sá. "Caramba, você consegue tocar o baixo e simular uma percussão ao mesmo tempo", comentou o repórter. Experiente no caminho das pedras, o paulista resume tudo com uma simpática expressão no rosto. Nome consagrado no meio musical, referência em vários instrumentos, Arismar evidencia durante sua apresentação o quanto é um realizador completo. Sua maneira de tocar, atravessa elementos como a intuição e a espontaneidade. A noite de domingo é invadida pelas harmonias inusitadas e improvisos melódicos. A cada canção, absorvermos as experiências e linguagens desenvolvidas por ele, seja na bateria, no baixo, no piano, na guitarra e no violão 7' (que usou em boa parte do show). Ao assumir o baixo, Arismar é eletrizante. Derrama a fusão entre samba, funk e experimentalismo. O que for necessário no terreno da música, o cara tenta subverter a seu favor. O som, por vezes caótico (no sentido de pouco se prender a uma linha reta de execução) pode, em alguns instantes, soar até hermético aos mais desavisados. Basta parar um pouco e ser conduzido pela persona deste músico. Jogo ganho, certamente.

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