Diário de privações

O documentário "Corpo Delito" será exibido hoje, no Cineteatro São Luiz. Filme aborda a rotina de jovens, da periferia fortalezense, monitorados pelo poder público

00:00 · 21.03.2017 por Felipe Gurgel - Repórter

A fala - "ou é cadeia, ou é cemitério essa vida" - é dita por Ivan Silva, morador da Favela dos Índios (Papicu). O tom de sinceridade, sobre a perspectiva dele e a de tanta gente que vive nas comunidades periféricas, reflete o que é viver com tanta privação de liberdade. Cumprindo pena em regime semiaberto, após passar oito anos preso, Ivan foi filmado, durante seis meses, portando um equipamento monitorado pela Polícia em um de seus tornozelos.

O registro dessa rotina rendeu o documentário "Corpo Delito", com direção de Pedro Rocha e roteiro assinado por este e Diego Hoefel. O filme tem sua pré-estreia hoje, no Cineteatro São Luiz (Centro), às 19h, após ter a exibição de estreia nacional na última edição da Mostra de Cinema de Tiradentes (MG). Um debate acontecerá em seguida, reunindo o juiz Cézar Belmino e parte do pessoal da comunidade documentada. A mediação será do pesquisador Cézar Migliorin (UFF).

Segundo Pedro Rocha, em entrevista por telefone, a equipe do filme encontrou Ivan Silva após fazer uma pesquisa sobre as pessoas que mais passavam pela revista (ou "baculejo") policial no dia a dia de Fortaleza. "Daí abrimos algumas linhas de pesquisa, e um dos perfis era de um presidiário que tivesse no regime semiaberto, sob monitoramento eletrônico", pontua Pedro.

A pesquisa foi feita na Fábrica Escola, organização local, mantida pela Fundação Pague Menos, que atua na ressocialização de ex-presidiários. "E o Ivan foi a figura que a gente escolheu. Nos testes de câmera também já tinha o Neto e a Gleicy. Colocamos o Ivan, como protagonista, por conta do conflito dele com a tornozeleira", observa o diretor, sobre a perturbação de Ivan Silva com o acessório.

Pedro conta que, para criar intimidade com as pessoas filmadas pelo documentário na Favela dos Índios, houve um processo lento de aproximação. Como a produção durou mais de cinco meses, a equipe teve condições de criar uma relação com os personagens.

Para as cenas que envolviam autoridades, a exemplo das audiências jurídicas, o diretor percebe como a formalidade já é "própria" da rotina desses encontros.

"Aquele ambiente pede uma certa frieza, certa tensão. E é outro tipo de encenação que se dá ali. A gente estava interessado na história do Ivan, mas em como se processa, também, essa formalidade dos agentes públicos, do Ministério Público, dos magistrados, da Defensoria Pública", detalha Pedro Rocha.

Acesso à cultura

Jornalista que já cobriu a cena cultural da cidade, Pedro reflete sobre como se dá a questão de acesso ao lazer e à cultura para as pessoas filmadas pelo documentário.

Ivan, com 31 anos, passou oito anos na cadeia e sente a necessidade, mesmo com a privação da tornozeleira, de curtir as festas, poder ir além dos limites da comunidade e transitar pela cidade.

"Ele é um jovem tardio, porque passou boa parte da juventude na cadeia. Mas o Neto tem 18 anos. O Jefferson, que levou um tiro (e exibe o curativo no documentário), tem 16. Tem o meio onde eles vivem, a má qualidade da educação", destaca. O diretor situa que as oportunidades de "subemprego" para os moradores da comunidade, como fazer bico de servente de pedreiro e entregar água ("profissões que exigem uma retidão, uma moral, acordar cedo e chegar tarde"), são questionadas.

E acaba que o tráfico de drogas, ainda que no campo da ilegalidade, nesse contexto, se apresenta como uma possibilidade mais rentável. "O que lota os presídios no Brasil é a lei que rege as drogas", observa Pedro.

Segregação

Tocando ainda na questão do lazer para as comunidades, Pedro Rocha pontua que, além da ausência de uma praça bem estruturada servindo a comunidade, por exemplo, os moradores são intimidados pela abordagem policial, se quiserem respirar outros ares.

"Se o Neto tiver andando num lugar da cidade, que não é pra ele andar, certamente ele será abordado. O baculejo virou uma prática rotineira, uma relação particular entre jovens de periferia e a polícia", enfatiza.

Pedro Rocha comenta a cena em que Neto e outros jovens da Favela dos Índios são abordados em uma festa. "Ele olha no olho dos policiais. E apesar de ser algo constrangedor, mostra sobriedade nisso. E uma resistência, uma afirmação da sua dignidade", descreve.

Mais informações:

Pré-estreia do documentário "Corpo Delito" (Pedro Rocha). Nesta terça (21), às 19h, no Cineteatro São Luiz (Rua Major Facundo, 500, Centro). A exibição será seguida de debate sobre o filme. Entrada franca.

Contato: (85) 3231-9461

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