Quadrinhos

Diante das chagas do passado

Na HQ "Nada a Perder", o canadense Jeff Lemire debate sobre as consequências de um lar desfeito e infeliz

00:00 · 14.09.2018 por Antonio Laudenir - Repórter
Image-1-Artigo-2452563-1
Em "Nada a Perder", Jeff Lemire manipula com maestria recursos de cores e de construção de cenários para construir uma narrativa melancólica e intimista
Image-0-Artigo-2452563-1

Biologicamente, a hereditariedade contempla a característica de cada ser vivo transmitir informações genéticas através da reprodução. Repassadas por gerações, estas informações tornam cada família única fisicamente. Por um aspecto mais subjetivo, no campo das relações humanas, o fator hereditário também se manifesta quando cada história de vida é influenciada pelas decisões e atitudes de algum parente do passado.

Esse tema - o de carregarmos a herança nefasta deixada por pessoas que sequer conhecemos - é substancial na prancheta criativa do quadrinista e desenhista Jeff Lemire. Em "Nada a Perder", mais recente publicação do autor canadense no Brasil, não somos o resultado apenas de fatores positivos, mas também de erros cometidos por familiares.

Diante de um cenário tão amargo, infelizmente comum a muitas trajetórias de vida, resta compreender a importância de quebrar esse ciclo e deixar de reproduzir as chagas deixadas pelos antepassados.

Produzida totalmente por Lemire, a novela gráfica se desenrola através do cotidiano de Derek Ouelette. Antes uma promessa do hóquei no gelo, um dos esportes mais populares do Canadá, ele agora não passa da sombra do ídolo que um dia poderia ter sido. O protagonista se arrasta em um subemprego como cozinheiro de uma lanchonete e toca uma vida esquecida por todos.

Violento e afundado nas bebidas, Derek é mais um personagem da isolada e entristecida Pimitamon, localidade fictícia próxima de Timmins, no norte da província de Ontário. O nome dessa comunidade perdida nos cafundós do mundo representa uma denominação indígena para "encruzilhadas". Sutilmente, Lemire nos avisa que as escolhas conflitantes e convergentes que fazemos dizem muito sobre os caminhos que levamos para os momentos passados, presentes e futuros.

Um dia, no entanto, algo invade o cotidiano do ex-atleta, colocando-o diante de uma escolha inevitável. A irmã, Beth, retorna à cidade natal após anos fora de casa. Num primeiro instante, o contato entre os órfãos de mãe é dos mais penosos. Na juventude, ao decidir por mergulhar no esporte, Derek acabou deixando a parente, com apenas 13 anos de idade, sujeita à própria sorte. Confusa, a irmã optou por migrar para outras cidades, viveu nas ruas e foi vítima de suas escolhas. Agora, adultos, cercados por memórias tão angustiantes, a dupla precisa concentrar forças na tentativa de superar novos e dolorosos problemas. Naquele lugar perdido, devem apreender a se reerguer diante das dores.

Construção

O espaço físico onde ambos estão inseridos, Pimitamon, prossegue gradativamente como testemunha desse reencontro. Inóspita, por conta dos efeitos do inverno rigoroso, a cidade está presente na maioria dos quadros compostos por Lemire. A neve, as árvores ressecadas, as estradas repletas de melancolia e as ruas esvaziadas ampliam esse sentimento de secura e amargor.

Nada de delicado parece sobreviver ou florescer naquele ambiente e a clausura, tanto mental como social, sufocam cada resquício de austeridade na persona de Derek.

O autor apresenta um ser disfuncional, cujo expediente para os dilemas é resolvido por intermédio da força. A construção de Derek está diretamente subjugada aos pensamentos sobre o passado. Diferente do tons azuis e pretos pelos quais desenha o dia a dia do protagonista, Lemire se utiliza do prático recurso de usar outras cores para representar as memórias do personagem. Cores quentes, avermelhadas, são usadas para explicar o que ocorreu tanto com Beth quanto com o irmão.

Mas, vale lembrar, ainda que estas colorações (como amarelo e vermelho) estejam comumente associadas a imagens outonais, as lembranças de cada um estão mais próximas de um pesadelo.

Para quem é familiarizado com o trabalho de Lemire, a perspectiva temporal de "Nada a Perder" determina muito sobre a forma do quadrinista de desenrolar a história. Assim como outros títulos - enter eles o mais recente "Black Hammer" - o tempo segue como um elemento precioso para o texto e o consequente desenrolar das ações da HQ.

Tal possibilidade, a de se questionar os efeitos do correr da vida, permite ao leitor uma série de reflexões sobre os mundos interno e externo dos personagens.

Em determinado momento, após uma noite das mais pesadas, observamos Derek seguir com a lida no restaurante. Aquela função mecânica e modorrenta é simbolizada na quebra de ovos ao longo de quatro horas no espaço de uma página. O close na fritura dos ovos mistura-se com o correr dos ponteiros de um relógio.

Esse drama, essa carga pesada, é alongada através do dia. Um breve momento de suavidade só é permitido ao leitor quando Derek dá uma pausa para fumar no lado de fora da cozinha. Ao lado de sacos de lixo e da podridão, permite-se a um instante de calmaria nas chagas do passado.

Som

Outra possibilidade na narrativa é evidenciada por meio do constante foco nos passos dos personagens. Cada pisada no chão demonstra o peso nas costas e a inglória constatação de que é preciso seguir em frente. O silêncio, na perspectiva de Lemire, chega ser tão ensurdecedor como o mais intenso dos ruídos.

Diante desse expediente, o autor acerta em cheio ao construir esse universo nos quadrinhos. Afinal, na nona arte, a ausência dos balões de fala ou onomatopéias não pode ser encarada como uma ausência de som. Cada pegada na neve, cada suspiro ou respiração das criaturas presentes em "Nada a Perder" resulta de uma intensa confusão mental.

Através destas simbologias, Lemire desenvolve uma abordagem extremamente íntima para contar histórias. O estilo do canadense permite entendermos a atmosfera repressiva daquele universo. Dores, angústias e paranoias estão presentes naquele cotidiano. Mas mesmo diante de temas e situações tão agrestes, "Nada a Perder" tenta estabelecer algum sentido ou esperança à vida.

Reerguer-se das quedas, na maioria das vezes, passa longe da forma caricatural como a mídia, as instituições e o senso comum projetam. Superar as dores, sejam as que herdamos dos familiares irresponsáveis como as que vamos produzindo ao longo da existência, nem sempre acontece através de um conto de fadas.

foto

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.