Diamantes, sangue e história - Caderno 3 - Diário do Nordeste

DVD

Diamantes, sangue e história

02.08.2007

´Diamante de Sangue´ revela a crueldade da guerra civil em Serra Leoa, como a civilização branca explora as riquezas dos países africanos e fortalece a relação entre cinema e história


Há uma verdade a ser dita, prioritariamente sobre ´Diamante de Sangue´: a guerra civil em Serra Leoa se encerrou em 2002, após 11 anos de conflito que matou 30 mil pessoas e deixou um imenso contingente de deficientes físicos. O país acaba de vivenciar as eleições livres cujos números indicam a reeleição do presidente Ahmed Tejan Kabbah, eleito em 1996, deposto no ano seguinte e reempossado em 1998. Serra Leoa conseguiu a liberdade em 1961, e de lá até 1996, ocorreram seis golpes militares e três tentativas frustradas de derrubar o governo. Com Ahmed o país se tornou uma república presidencialista.

´Diamante de Sangue´ ambienta-se durante a fase crucial da guerra, em 1999, quando os rebeldes faziam ofensivas contra a população civil, arrasavam cidades, matavam mulheres e velhos, enviavam os homens para as minas e seqüestravam os meninos para servirem como soldados, processo este que passava pelo processo de lavagem cerebral.

O filme trafega na linha de exposição crítica da exploração do território africano pela civilização branca vista em filmes como ´O Jardineiro Fiel´, de Fernando Meireles, e ´Syriana´, de Stephen Gagan, ambos feitos em 2005. O público cearense terá a oportunidade de conferir a surpreendente qualidade do cinema africano, em agosto, quando o Cinema de Arte exibir ´Uma Jornada de Esperança´, premiadíssima obra do sul-africano David Hickson, o qual expõe a devastação do continente pelo vírus da Aids através dos olhos de uma criança.

Edward Zwyck, 57, realizou ´Diamantes de Sangue´ com o intuito de expor as conseqüências do contrabando das pedras preciosas nos países africanos em guerra - dinheiro este que financia a compra de armas pelas milícias e grupos rebeldes e já impôs a morte de três milhões de africanos - e a transformação de crianças em soldados. Mas não são apenas estes os problemas do povo africano. Há o contrabando de armas e da ´madeira ensangüentada´, assim como o diamante, igualmente utilizadas para o financiamento da guerra.

Há outros fatores trágicos na África. Os números da devastação soam inacreditáveis: 20 milhões de pessoas eliminadas pelas armas leves e de baixo calibre - 80% das vítimas, mulheres e crianças - e cerca de 20,4 milhões pelo vírus da Aids - afora os 25 milhões de infectados que, segundo as estimativas dos órgãos de saúde internacionais, irão morrer até 2010. É um flagelo assustador e sem precedentes históricos que se completa com a aplicação de bilhões e bilhões de dólares pela comunidade internacional para minimizar as graves deficiências, e que são, em sua grande parte, desviados por governos e funcionários corruptos, conforme acusa o economista queniano James Shikwati, o qual chegou a apelar para que os países e grupos humanitários deixem de ajudar, com dinheiro, os africanos.

O filme de Zwick, no entanto, foi mal compreendido. Parte da crítica preferiu esquecer o contexto no qual se estabelece como uma exposição crítica do sacrifício africano, para se limitar a comentários negativos sobre o filme em si - ´aventuresco´ demais, ´sangrento demais´, ´violento demais´, ´longo demais´, ´falado demais´, entre outras colocações, afora outras de cunho discriminatório, como, por exemplo, de que o personagem de Leonardo Di Caprio seria apenas ´mais um herói loiro´ entre negros africanos.

Afirmações vazias e sem sentido objetivo perante a ausência de uma postura de análise crítica da proposta do diretor e no apontamento das questões levantadas pela película. Questões como a honra dos africanos na defesa de seus filhos e família; das relações afetivas na diversidade humana; o papel da imprensa no registro dos fatos; a expressão da escolha moral, não apenas de homens, mas de governantes e nações ´civilizadas´ em relação à exploração das riquezas naturais africanas através de suas empresas multinacionais; dos governos africanos não se diferenciarem em nada dos grupos guerrilheiros; da realidade assustadora que contabiliza ainda existirem cerca de 300 mil meninos-guerrilheiros nas mãos de grupos e milícias armadas. Ou seja, do sermos todos cúmplices do caos que devasta a África.

´Diamante de Sangue´ trata de política e história, assim como os outros dois filmes citados acima. O Danny Archer interpretado com brilhantismo por Leonardo Di Caprio representa o sujeito imoral e sem ética da sociedade econômica do dinheiro e não do homem. Esse personagem está em todo lugar e em qualquer sociedade, seja do político que aceita propina, suborno ou o pagamento de contas pessoais, seja na pele de um sujeito que tem a coragem de roubar o leite e a merenda escolar das crianças, seja o engravatado que tem o apoio do partido político para malversar o dinheiro público que deveria ser utilizado para desenvolver a nação, ou até mesmo aquele que se agarra despudoramente ao poder para se garantir na impunidade. Não por menos Danny Archer é um mercenário.

O filme serviu, já, para chamar a atenção da comunidade internacional para a questão dos ´diamantes de sangue´. Entidades e empresas já vieram a público para formalizar critérios da procedência e compra, a confiabilidade da comercialização e a orientar como o comprador deve proceder quanto a compra do produto.

Zwick, integrante do time dos principais cineastas de Hollywood, tem como destaques em sua filmografia ´Tempo de Glória´ (1989), sobre o sacrifico brutal dos soldados negros na guerra civil americana; os escândalos militares em ´Coragem Sobre Fogo´ (1996); e a antecipação da fobia americana quanto ao terrorismo em ´Nova York Sitiada´ (1998), além de expor as conseqüências da abertura do Japão ao Ocidente em ´O Último Samurai´ (2004).

Com ´Diamante de Sangue´ Zwick relaciona o Cinema com a História, assim como já o fizera nas obras citadas. Há a predominância da ação, a agilidade narrativa, mas a sua principal virtude é expor sem metáforas a selvageria estabelecida na África.

O que é ´Diamante de Sangue´

Amor, fidelidade, riqueza e ´glamour´. Por trás desses símbolos representados pelos diamantes, existe um comércio cruel que ceifa vidas e fomenta a guerra: as pedras preciosas contrabandeadas dos países em conflito, os ´diamantes de sangue´. Misturadas aos diamantes legais por empresas ou atravessadores inescrupulosos, garantem o financiamento de grupos rebeldes, a compra de armas e a formação dos ´soldados infantis´. O comércio dessas pedras seguem quatro ´c´: corte, cor, claridade e ´carat´ (quilate). A Anistia Internacional e a Global Witness recomendam aos compradores de diamantes que acatem um quinto ´c´, o de conflito, caso desejam evitar adquirir alguma dessas pedras. Quatro perguntas podem indicar se o vendedor ou a loja não comercializa as pedras ilegais: qual a segurança de não estar adquirindo ´diamantes de sangue´, qual a origem dos diamantes, solicitar uma cópia do protocolo da empresa em relação aos diamantes ilegais e a garantia repassada por escrito dos fornecedores atestando que as pedras não são ´de sangue´. A diferença será o estado de colaboração do vendedor. Qualquer dificuldade apresentada recomendam não comprá-los.

FIQUE POR DENTRO

Serra Leoa temeu o filme

Mohamed Swaray Deen, ministro de Recursos Minerais da República de Serra Leoa, chegou a temer uma projeção negativa que o filme de Edward Zwyck possa dar ao país, o qual, no momento, se empenha em legitimar a exportação de diamantes, uma de suas riquezas - as demais são o ferro, platina e bauxita. ´As pessoas precisam saber que o país já está muito longe das cenas que aparecem no filme. Mas o consumidor pode ser afetado´. E lamentou o fato de o filme não ter comentado o desenvolvimento obtido desde a guerra e de não ter sido rodado no país.

Serviço:
Diamante de Sangue (Blood Diamond, EUA, 2006), de Edward Zwick. Com Leonardo de Caprio, Djimon Hounsou e Jennifer Conolly. 138 minutos. Warner




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