Debate

Diálogos criativos sobre a urbe

Ciclo de seminários regionais, promovido pelo Sebrae-CE, discute a importância da Economia Criativa

00:00 · 02.10.2015
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O bem-estar no espaço urbano e a relação das pessoas com a cidade são fatores decisivos para o desenho de uma "cidade criativa" ( Foto: José Leomar )

Proferido pela primeira vez em 1994, num discurso feito pelo então primeiro-ministro da Austrália Paul Keating, o termo "indústrias criativas" impulsionou o surgimento do conceito "economia criativa". Ampla, a designação refere-se a modelos de negócio ou gestão que envolvem atividades, produtos ou serviços gerados a partir do conhecimento, criatividade ou capital intelectual, com vistas à geração de trabalho e renda.

Chamar a atenção e promover diálogos sobre esse assunto é o objetivo do "Cidades Criativas", circuito de seminários regionais realizado pelo Sebrae Ceará que está percorrendo diferentes cidades do Estado. Iniciado em 24 de setembro, no município de Aracati, o evento já passou também por Limoeiro do Norte, Juazeiro do Norte, Guaramiranga e Quixadá. Na Capital, a conferência acontece hoje, das 9 às 17 horas, Sobral será a última parada do circuito, em 5 de outubro.

Na edição de Fortaleza, haverá uma conferência com a economista e administradora Ana Carla Fonseca. Ela foi uma das responsáveis pela elaboração do relatório global Creative Economy Report 2008 e 2013, editado pela Organização das Nações Unidas (ONU). A especialista será acompanhada do consultor de projetos na área, Alejandro Castañé, que também trabalhou no relatório.

O seminário, com entrada gratuita, é destinado a diferentes agentes ligados ao setor, entre representantes de universidades, ONGs, produtores, gestores públicos, pesquisadores, ligas empreendedoras, incubadoras e empreendedores com negócios que apresentem diferenciais e singularidades locais. A confirmação de participação deve ser feita junto ao escritório do Sebrae.

Desenvolvendo potenciais

"Um dos propósitos do evento é ajudar a criar um ambiente favorável à concretização do potencial dos talentos criativos destes polos, revelando oportunidades de inovação social, urbana e econômica ainda inexploradas", esclarece o superintendente do Sebrae, Joaquim Cartaxo.

Para Ana Carla Fonseca, o cerne da temática é a promoção do bem-estar no espaço urbano, o que envolve mesas de debate com participação de representantes de diferentes âmbitos da sociedade e uma futura intervenção no meio em que os mesmos vivem. "Em 2008, quando o Alejandro Castañé e eu visitamos mais de 30 países e 160 cidades empreendendo nossa pesquisa sobre esse tema, notamos o quanto todas eles possuem diferenças gritantes de realidades urbanas, mas que um só é o mote para aperfeiçoar as relações entre a sociedade e o espaço onde elas se encontram: unir para agir, promover o contato entre distintos setores para intervir no que incomoda a todos. É isso que queremos buscar com o seminário", contextualiza a pesquisadora.

Dividido em partes - que tratam desde o que mudou no mundo nos últimos 20 anos, passando pela intrigante dinâmica de trabalho da economia criativa até o lançamento de novos olhares sobre a urbe - o seminário desenvolve a ideia "cidade criativa" como forma de potencializá-lo para que alcance mais pessoas e ações.

"Falar em cidade criativa envolve três eixos principais de análise: inovação, conexões e cultura. Ao pôr os três para dialogar, creio que as pessoas ganharão muito, pois começarão a enxergar possibilidades num meio que é propício para isso", completa Ana Carla.

Observar para intervir

Para a especialista, a inovação vai além das mudanças cotidianas que acontecem na urbe: o termo adquire uma importância singular ao envolver diferentes mobilizações sociais voltadas a modos de vida mais sustentáveis.

Já as conexões são porta de entrada para um maior contato entre as partes constituintes do espaço: o público e o privado, o civil e o militar, a tradição e a novidade. Segundo Ana Carla, "a gente não deita um olhar carinhoso para entender as conexões da cidade. E essa é uma das maiores falhas que ocorrem onde vivemos, pois sempre há pouco contato, pouca imersão".

O último fundamento adquire uma nova roupagem quando inserido nos estudos sobre cidades criativas: a cultura. Sob essa óptica específica, o termo remete não só às manifestações artísticas do povo, mas à sua capacidade de lançar novas propostas de criatividade. No meio da rua, firmando a identidade da cidade, analisando o impacto econômico das expressões populares.

"É dessa forma, vinculando os três termos, que podemos construir objetivamente uma cidade criativa, o que implica um ambiente melhor de se viver", afirma Ana Carla.

"Se conseguirmos fazer as pessoas pararem e discutirem sobre como intervir inteligentemente na cidade, teremos concluído nosso trabalho com êxito. Jogamos a semente e os frutos poderão ser - assim espero - brevemente vistos", completa.

Ofício produtivo

Mestre em Administração e Doutora em Urbanidade pela Universidade de São Paulo, Ana Carla Fonseca é professora e coordenadora de cursos de pós-graduação em Economia, Cultura e Cidades.

Para empresas, liderou projetos regionais e de multinacionais por 15 anos, em marketing, inovação e gestão do conhecimento, com base na América Latina, Londres e Milão.

Além disso, é assessora para a ONU e escreveu livros importantes no cenário mundial, entre eles "Marketing Cultural e Financiamento da Cultura" (2002) e "Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável" (2006) - esse último vencedor do Jabuti 2007, nas categorias Economia, Administração e Negócios.

Mais informações:

Seminário Cidades Criativas, com Ana Paula Fonseca e Alejandro Castañé. Hoje, a partir das 9h, no Sebrae Ceará - Unidade Fortaleza (Av. Monsenhor Tabosa, 777, Praia de Iracema). Entrada franca. Contato: (85) 3255.6609

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