Cinema

Dia de trabalho

Em "Arábia", diretores Affonso Uchoa e João Dumans criam odisséia do trabalhador brasileiro oprimido

O ator Aristides de Souza como Cristiano, que tenta retomar a vida trabalhando numa siderúrgica
00:00 · 07.04.2018 por Diego Benevides* - Especial para o Caderno 3

Aclamado em Roterdã e vencedor do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro do ano passado, "Arábia" transita entre um filme simples e uma provocação, como pouco visto na produção nacional recente. Os cineastas Affonso Uchoa e João Dumans se juntam na direção para fazer um retrato íntimo e poético da classe operária marginalizada, que vive sem muitas oportunidades, mas que precisa sobreviver aos tempos difíceis.

Em seu longo prólogo, com cerca de 20 minutos de duração, "Arábia" mostra o jovem André, interpretado por Murilo Caliari, passeando de bicicleta pelas paisagens do interior mineiro ao som de "I'll Be Here in the Morning", de Townes Van Zandt. Ao chegar em casa, conhecemos a rotina familiar de André, que precisa cuidar do irmão mais novo enquanto os pais parecem ausentes.

É nesse contexto que somos apresentados a Cristiano, papel de Aristides de Sousa, que sofre um acidente e é levado ao hospital pela tia de André. Ela pede que o jovem vá até a casa de Cristiano pegar algumas roupas enquanto ele permanece internado. André descobre um diário escrito por Cristiano, de forma muito intimista, que narra vários dos momentos mais delicados e difíceis de sua vida.

O filme, então, muda de protagonista para dar voz a Cristiano, homem que carrega um passado doloroso, incluindo uma experiência na prisão, e que tenta ter uma vida normal na sociedade. Sem qualificação para seguir uma profissão, passa a aceitar bicos de todos os tipos, que mostram as relações entre classes que oprimem os mais fracos.

A reintegração social de Cristiano e as relações de trabalho são o tema principal da obra, mas se expandem em suas vigorosas entrelinhas.

Uchoa e Dumans se apegam principalmente à palavra para encaminhar a obra, seja em forma de uma narrativa mais literária ou em música. A narração em off de Cristiano, que costuma ser vista como uma redundância desnecessária na forma de contar uma história no cinema, em "Arábia" se torna um recurso essencial para não apenas compreender, mas também sentir a vida de Cristiano. Há um excesso de memórias narradas, mas todas são necessárias na construção do retrato do personagem.

O ator Aristides de Sousa acerta no tom melancólico da leitura, invisivelmente traduzida pela leitura de André, para expurgar seus erros e registrar suas lutas diárias. Aqui, um elemento extra fortalece o roteiro: muitas inquietações de Cristiano se confundem com a própria experiência de vida de Aristides, o que transforma "Arábia" em uma produção que brinca com a encenação e os possíveis registros do real.

Longe de vícios de interpretação, Aristides justifica ser a escolha certa para esse personagem naturalista, capaz de criar identificação seja em seus momentos de dor ou de glória. Porque, sim, por mais que a vida do trabalhador seja dura, ele também precisa de seus momentos de amor. Essas variáveis são facilmente acompanhadas pelo espectador, que sente a amargura da ordem de trabalho do dia, mas também pode amar os amores de Cristiano.

Cenário

Uchoa e Dumans recriam a paisagem de Minas Gerais, que é um pedaço de Brasil, mas também um país inteiro. A música também surge como importante recurso para o filme, seja cantada pelos personagens ou embalada como trilha. Há nas canções um grito por afeto no meio do turbilhão diário, uma forma de fuga e representatividade, ao mesmo tempo que alimenta a trama.

Há uma sugestão de road movie com tons de western na forma com que os diretores elaboram o longa. Ao apresentar a história de Cristiano, o roteiro também dá protagonismo a tantas pessoas que vivem o mesmo que ele e passam despercebidas do nosso cotidiano. Sugere também os desdobramentos das atuais relações de trabalhos, em um Brasil que enfrenta o desmonte não apenas dos direitos trabalhistas, mas da dignidade e da democracia.

O cuidado na construção das imagens também é perceptível em "Arábia", evidenciando o trabalho de fotografia de Leonardo Feliciano, desde o longo plano sequência original aos registros de trabalho do protagonista.

É um filme que valoriza as perspectivas, seja entre o clássico e o contemporâneo, entre a dor e o amor, entre o justo e o injusto. Os diretores contam que a ideia do filme era explorar uma narrativa mais épica, tendo um homem simples no centro para evocar a sensibilidade dessas realidades comuns. É uma jornada do herói não tão herói assim, celebrada pelo cinema com honestidade.

Crítica

Esse olhar diferenciado para as questões sociais brasileiras também esteve em "A Vizinhança do Tigre" (2014), dirigido por Uchoa e que trouxe a colaboração de Dumans na assistência de direção, roteiro e montagem.

A obra, também aclamada no circuito de festivais nacionais, buscava voz na periferia de Contagem ao mostrar personagens vivendo entre o trabalho e o crime, uma juventude perdida na falta de oportunidades e na tentação pelo caminho mais rápido.

Com "Arábia", os realizadores seguem com suas abordagens tão importantes que o cinema brasileiro tem feito, enquanto questiona o lugar da esperança para a nação. A vida de Aristides é a de muitos, um alvo que exemplifica as transformações que o País passou na última década. É um cinema engajado e atualizado com as discussões socioculturais, marca que dignifica a produção nacional em tempos de crise econômica, mas também moral.

*Diego Benevides é jornalista e crítico de cinema, presidente da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine).

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