Descartes, o colhedor de almas - Caderno 3 - Diário do Nordeste

ARTISTA PLÁSTICO

Descartes, o colhedor de almas

01:09 · 04.04.2011
O Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc) possui grande parte do acervo de Descartes Gadelha ( )
Tela pintada no lixão do Jangurussu, na década de 80 ( )
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Um dos mais completos artistas plásticos contemporâneos, Descartes Gadelha, está às voltas com o lançamento do livro infantil "Lenda Estrela Brilhante". Simples e despretensiosa como seu autor, a publicação, premiada no Edital Pontinhos de Cultura da SecultFor, e realizada pela Associação Cultural Solidariedade e Arte (Solar), deu a deixa para o Caderno 3 fazer uma visita ao artista que, há mais de 10 anos, luta bravamente para conviver com o câncer

Foi em uma manhã chuvosa, que o escultor, pintor, escritor, desenhista, músico e nautimodelista, Descartes Gadelha, abriu as portas de seu casarão, que fica ali nas proximidades do Benfica, para receber o Caderno 3.

O mote da conversa foi o lançamento de mais um livro infantil, "Lenda Estrela Brilhante", que narra um pouco da infância desse artista cearense que vem escrevendo o lado feliz da história carnavalesca de Fortaleza.

Judiado por diversos cânceres que não cansam de tirar seu sossego, e que estão impedindo Descartes de exercer uma de suas mais notáveis vocações, a pintura, o artista não se deixa abater.

"Hoje, o mais brincante do Maracatu Solar sou eu. E se o câncer permitisse, eu desfilava em todos os Maracatus. O diabo é que o câncer é danado, mas eu chacoalho ele também. Porque o câncer quer agrado, quer que a gente sofra. Como eu não ligo, e como a brincadeira que está dentro de mim é intensa, a doença, coitada, fica desmoralizada", diz o artista, transbordando de bom humor.

Ao lado da esposa Verônica, dos filhos, Isabel e Leonardo, e dos netos, o filho mais velho das nove crias de seu Diderot e dona Geórgia, nascido e criado no Centro de Fortaleza, aos 67 anos, luta bravamente a favor do tempo. Hoje, a maior parte de sua vida é dedicada às réplicas de barcos à vela, que se espraiam por diversos cômodos da casa.

Nessa entrevista, Descartes partilhou experiências peculiares, dentre elas, o período em que morou no lixão do Jangurussu, no início dos anos 80, das longas e variadas épocas que passou em cabarés, e compartilhou a espiritualidade que vem entrelaçada à longa trajetória de fazeres e saberes que emanam de sua arte.

"Somos responsáveis por aquilo que conquistamos, bem ou mal. Já que não tenho capacidade de amar e fazer o bem, quero fazer o menos mal possível. Minha vida tem sido assim. Entendo que o egoísmo é a manifestação mais poderosa da falta de amor. O amor é tão humilde, tão grandioso, que você não percebe que ele está sendo processado. O egoísmo, ao contrário do amor, é pomposo, poderoso. E não tem como as pessoas escaparem da cobrança desse desequilíbrio", diz o Griô.

"Mas Deus é tão bom, a natureza é tão pródiga, que entende as pessoas que não atingiram a compreensão da vida, seu significado. Nós, como todos os seres vivos, nascemos para amar. Hoje, é só nisso que eu acredito". Saravá, Descartes!

NATERCIA ROCHA
REPÓRTER