Plataformas de streaming

Desafios da memória digital

A relação dos artistas com as formas de distribuição da música no meio virtual ainda é nebulosa. Entretanto, plataformas de streaming têm sido aliadas no processo de resgatar acervos fora de catálogo

00:00 · 07.10.2017

Certa manhã de um longínquo 2000, James Hetfield acordava de bem com a vida. Após um farto desjejum, caminhava sem maiores preocupações pelos corredores da suntuosa mansão onde residia. Toda essa harmonia, digna de um comercial de margarina, começou a ruir por conta de um telefonema de Lars Urich, baterista e companheiro de Metallica. Do outro lado da linha, o teor da conversa envolvia um tal "Napster" e o quanto aquilo estava ferrando o faturamento do grupo.

Com fúria desmedida, apenas demonstrada nos primeiros discos de sua banda, a dupla arregaçou as mangas e meteu um processo nas costas de um moleque de 19 anos chamado Shawn Fanning. Sem saber, os dois cabeças-oca encamparam vergonhosa batalha pública contra algo bem maior do que eles imaginavam. A patuscada dos ex-metaleiros era o pontapé inicial de uma nova era para a indústria fonográfica.

> Resgate necessário 

O Napster surgiu da ideia de Fanning de dividir música com os amigos de faculdade. O programa alcançou patamares não imaginados na época, tornou-se uma espécie de febre entre usuários da internet (no auge, chegou a contar com 50 milhões de usuários) e uma dor de cabeça para bandas, gravadoras e órgãos reguladores.

Se houve um lado vencedor, pelo menos inicialmente, foram os engravatados da indústria. Os servidores do Napster foram fechados em 2001. Porém, uma avalanche sem precedentes estava por vir. Anos depois, a união de gravadoras, bandas e instituições contra Fanning revelou-se a maior gafe da música. O fim do Napster não teve nenhum impacto no número de downloads de músicas grátis e a circulação sem controle desse tipo de conteúdo pela rede mundial só aumentou.

Apesar do encerramento das atividades como programa para download, a marca Napster continuou existindo e passou por algumas empresas até chegar na Rhapsody, que em 2016 encerrou as atividades e passou a atender por Napster, hoje um serviço "legal" de streaming.

O mundo deu voltas e 16 anos depois, pasmem, a alguns dias de lançar o fraco "Hardwired?To Self-Destruct" o Metallica disponibilizou toda sua discografia no Napster. Fim, sobem os créditos.

Nesse meio tempo, uma série de mídias tentaram emular o controle da indústria musical sobre seus lacaios - no caso, os músicos. O MiniDisc, popularmente conhecido como "MD", o CD e logo mais tarde, os CD-R (disco com capacidade de gravar) circularam como opção de consumo da música. Até o atual momento, quando é fácil adquirir em camelôs a discografia do Roberto Carlos em um pendrive, artistas tiveram que se reinventar e buscar soluções satisfatórias em meio ao caos.

Otimismo

Em maio deste ano, a pesquisa realizada pela IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica) e divulgada pela Pró-Música Brasil revelou números interessantes em relação ao consumo de streaming no Brasil. Anteriormente conhecida como Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), essa entidade representa as principais gravadoras do mercado fonográfico do País. Pausa para uma definição necessária. "Streaming" é, na verdade, o acesso à exibição ou audição de arquivos de mídia. São consumidos em plataformas disponibilizadoras, como Spotify, Deezer ou YouTube. Os arquivos não são armazenados nos computadores das pessoas, não ocupam espaço, o que significa uma vantagem em relação ao download "pirata".

Segundo o tal relatório, o consumo digital de música no mundo chegou aos 50% devido ao aumento vertiginoso do streaming, que cresceu 60,4% em relação a 2015. Por sua vez, o ato de "baixar" músicas sofreu uma significativa queda de 20,5%.

Foram detectados 112 milhões de usuários que assinam serviços de streaming, seja através de serviços totalmente pagos, como Apple Music, ou com opção gratuita (sustentada por publicidade), caso mais emblemático do Deezer e do Spotify.

Seguindo a tendência mundial, os brazucas ampliaram em 52,4% (em relação à 2015) o acesso a serviços de streaming. A Pró-Música Brasil apontou que o mercado brasileiro teve receita de US$ 230 milhões (cerca de R$ 751 mi) em 2016, dentro da movimentação global de US$ 15,7 bilhões (R$ 51,3 bi). O consumo digital representa 48,6% desse faturamento da indústria brasileira.

Atualmente, a proporção do consumo de música em terras tupiniquins é de 22,8% para o físico e 77,2% para o digital. Soma-se a esse bolo a arrecadação considerável com direitos autorais da execução pública de músicas, responsável por 36,6% do dinheiro levantado. Em números totais, o Brasil é o sexto país na lista dos que mais faturam com exibição pública de músicas (em rádios, emissoras de TV e shows), mas é o 11º na venda digital e apenas o 16º na venda física de CDs e DVDs.

No Brasil, além do Deezer e Spotify (donos dos maiores acervos) também estão disponíveis para os usuários o Google Play Música, Apple Music e o Napster (alô, Hetfield). Gravadoras e artistas independentes estão de olho nesse recém aquecimento do consumo. Uma tendência cada vez mais comum é revisitar álbuns já fora do catálogo e disponibilizar para o público. Um atrativo até mesmo para colecionadores ferrenhos.

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