INTERVENÇÃO

Democracia na parede

Última etapa do Circuito Grude coloca Fortaleza em contato com a arte colaborativa e unida a mais 14 cidades do País

00:00 · 02.07.2016 / atualizado às 14:29 · 04.07.2016
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A arte que vai para as paredes da Capital e que veio de diversas partes do País ( Fotos: Lui Duarte e Ceci Shiki )
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Lambe criado por Lui Duarte apresenta Frida Kahlo e a mensagem: "Democracia: Essa barra que é gostar de você" ( Lui Duarte )

As paredes das urbes são um espaço catalisador de seus habitantes. Erguidas com o pretexto de oferecer proteção e separar possíveis intrusos, estes espaços acabam dialogando com os passantes do lado de fora. Indo além de uma possibilidade hostil, esses lugares ofertam alternativas de circulação da informação. Transitando e permitindo desde as enfadonhas propagandas à solidificação dos grafites, o muro se comporta como a moldura da rua.

Ampliando tal premissa, hoje, à partir das 15h, o Circuito Grude invade o perímetro urbano de 14 capitais brasileiras através da colagem coletiva de lambe lambes. A ação articula artistas plásticos e coletivos de diferentes estados. Diante dessa diversidade de olhares, estilos e paisagens geográficas, um tema foi escolhido para direcionar o trabalho. Todas as artes devem ter o tema "democracia" com fio condutor e criador.

Um lambe é simplesmente um cartaz com conteúdo artístico ou crítico fixado em espaços públicos. Há séculos usado para a publicidade, divulgação e comunicação, hoje, a ferramenta também é usada para intervir na cidade de forma artística.

Agindo de maneira independente e mútua, o Circuito parte em fortalecer conexões e colocar artistas e grupos em sintonia com o que é produzido em distintas regiões do país. O "Grude" se liga pela livre troca de lambes realizada via correio e não é custeado por nenhum órgão governamental, empresa privada, sendo que cada realizador arca com seus custos.

Dinâmica

Cada participante ficou responsável por fazer os cartazes e mandá-los como carta comum, pelos Correios, proporcionando assim, uma maior liberdade artística. Porém, essa dinâmica não se resume ao dia de hoje. Em 2016, a rede foi iniciada em maio, com a chamada pública e agenciamento dos artistas locais. No mesmo mês (exatamente no dia 18) foi iniciada a troca de material entre as cidades.

A terceira etapa do circuito é finalizada neste sábado, com o mutirão de colagem que deve percorrer as capitais envolvidas .Na sequência, os articuladores concentram os registros em plataforma virtual comum para o público. Em Fortaleza, o ponto de encontro é na porta do Centro Cultural Fortaleza - Banco do Nordeste (CCBNB). Após a organização do material, é momento para os integrantes vasculharem as paredes locais.

Lui Duarte é um dos realizadores presente na ação (também participam Narcélio Grud, Bruna Beserra, Rafael Limaverde, Ceci Shiki e Simone Barreto). Convidado pela artista Cecília Bedê (que ao lado de Marcos Martins organizaram o Circuito em Fortaleza), o artista plástico esclarece que a iniciativa é mais uma oportunidade de conhecer a produção de outros criadores, além de fortalecer uma rede de contatos em vários pontos do mapa.

Integrante do Coletivo Monstra - time de realizadores acostumado a exercer atividades envolvendo o espaço urbano, como foi o caso da exposição "13 Obras que Você não Colocaria na Sala da sua Casa", de 2012 - o trabalho de Lui se encaixa perfeitamente na proposta do Circuito Grude. "A linguagem do lambe lambe é muito dinâmica, até pela logística da coisa", esclarece.

Participação

Sobre a possibilidade de criar tendo como ponto de partida a "democracia", Lui observa que a dinâmica dos criadores se assemelha totalmente com a proposta do tema. Afinal, todo o processo foi direcionado pela colaboração, seja na organização para baratear custos e até mesmo na liberdade que cada artista teve para criar em cima do assunto proposto.

Sobre a influência do Circuito Grude em Fortaleza, Lui arremata: "O impacto, no que posso sentir, é ver amigos não ligados diretamente às artes querendo participar da colagem no mutirão de hoje. Isso já vem a ser um grande deflagrador, o envolvimento! Deixamos o convite aberto pra quem mais quiser trazer o seu lambe que afine com a democracia".

Após o recado, resta ao público prestar um pouco mais de atenção ao que as paredes cearenses andam comunicando. Nada é mais democrático do que os muros que servem para cercar, também transmitirem arte. Para quem deseja participar do mutirão, os artistas pedem a colaboração de materiais como cola, rolos, brochas, além de suporte no registro em foto e vídeo.

Entrevista

A primeira edição do Circuito Grude aconteceu em 2013 e tudo começou através do diálogo entre os coletivos Abacateiro, de Teresina e o ocupeacidade, de São Paulo. Trocaram os lambes entre si, nas duas rodadas daquele ano, as cidades de Teresina, São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, Vitória, Natal, Belo Horizonte, Niterói, Recife, Porto Velho, Macapá, Porto Alegre, Florianópolis, envolvendo mais de 300 artistas e diversos espaços autogestionados. 

Em 2016, Fortaleza entra pela primeira vez nesse mapa. A cidade participa com Brasília Belo Horizonte,  Florianópolis, Curitiba, Macapá, Natal,  Porto Alegre, Porto Velho,  Recife, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo e Teresina. Luana Minari, integrante do coletivo ocupeacidade (SP) conversa um pouco sobre a atuação desta intensa rede colaborativa.
 
Qual o significado de integrar uma rede tão rica e diversa de artistas?
 
A constituição de uma rede de trocas independente pra mim é um dos pontos mais potentes do projeto. Criar outras formas de circular a arte, baseado no desejo e na colaboração especialmente. Mas existem outras questões. É fazer parte de algo que valoriza a diversidade de discursos, de soluções gráficas e técnicas, que valoriza a experimentação, a troca, a colaboração, que busca encontrar outras formas de fazer, de estabelecer relações, diferente das lógicas mais mercadológicas e institucionalizadas. É um ato político em si.
 
Em 2013 a primeira edição do grude acabou mobilizando pessoas que nunca tinham feito lambe a fazer pela primeira vez, então de alguma forma acabamos também abrindo espaço para novos desejos, que nos circuitos mais convencionais e institucionais da arte este espaço já está ocupado ou mais determinado. Existe um grande espaço para a experimentação também que é muito importante.
 
A coisa mais incrível talvez seja o mês de trocas, quando vão chegando aqueles envelopes cheios de trabalhos lindos, fortes, cheios de urgências e questionamentos mais diversos expressos em lambe lambe. É muito forte, é muito rico, é muito lindo. E muitas dessas produções eu não conheceria, pois os sistemas de exposição e circulação de arte mais convencionais são bastante viciados e engessados em determinados modelos, que acabam inclusive afastando a galera com outro perfil de produção.
 
Como a iniciativa dialoga com o espaço urbano?
 
Ela é pensada para o espaço urbano! O lambe lambe é uma estratégia de difusão de ideias/informações há muito tempo incorporado na prática dos artistas que atuam no espaço público. É um fazer bastante urbano.  A ideia é espalhar pelos espaços urbanos essa diversidade de produções que trazem olhares diversos sobre experiências diversas na cidade impressos em imagens e textos.
 
Qual foi a razão da democracia ser o tema desta edição?
 
O grupo de articuladores das cidades participantes de 2013 retomou a conversa (em 2016) sobre a volta do circuito grude frente a situação política atual, no momento que antecedeu a votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Artistas e coletivos de diversas cidades do Brasil se mobilizaram em diversas frentes, e o circuito grude de forma geral se percebeu como mais uma forma potente de marcar uma posição em defesa da nossa democracia, que vem sendo ferida de diversas formas nos últimos tempos.
 
O “grude pela democracia” não é exatamente um recorte temático, mas especialmente um posicionamento político dos articuladores do projeto, e desta forma dos artistas que toparam participar. As temáticas dos lambes são das mais diversas,  algumas bem poéticas e com experimentações gráficas, outras com cunho político mais explícito. O Circuito Grude não pretende normatizar a produção, tampouco hierarquizar, e por isso não seleciona o que será enviado ou colado nas ruas. Gosto de pensar que são urgências, individuais e coletivas que ganham forma através dos lambes, e as ruas através dos mutirões de colagem.
 
Mais informações:

Mutirão de colagem Circuito Grude. Hoje, às 15h, na porta do Centro Cultural Banco do Nordeste - CCBNB (R. Conde d'Eu, 560 - Centro).

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