Artes visuais

De volta a Cícero

Exposição "Cícero Dias: 1907 - 2003", em cartaz na Galeria Multiarte, celebra legado do artista plástico pernambucano

00:00 · 29.03.2017
Obras de Cícero Dias que integram a mostra da galeria Multiarte

Rastro luminoso para as artes visuais brasileiras em sua totalidade - abrangendo definições e remodelações de conceitos que consolidaram o crescimento da imagem nacional além-fronteiras -, a Semana de Arte Moderna de 1922 foi responsável por catapultar muitos de nossos artistas ainda referenciais.

E se nomes como Mário de Andrade (1893-1945), Tarsila do Amaral (1886-1973), Anita Malfatti (1889-1964) e Oswald de Andrade (1890-1954) talvez despontem, à primeira vista, como os mais destacados vultos do histórico evento - ocorrido no Teatro Municipal de São Paulo, em 1922 - em outra parte do mapa tupiniquim, no Recife das vivas cores, o pernambucano Cícero Dias (1907-2003) também se sobressai. Quatro anos depois do referido acontecimento, ele iniciava sua trajetória profissional. Era jovem e alimentava o desejo do mundo.

Foi assim que, à época, tratou de se unir aos intelectuais do movimento regionalista de 1926, ocorrido em seu Estado natal, uma resposta à efervescente cena paulista que já havia ganhado novas texturas com a Semana. E ali viu crescer a pulsação de ir misturando lirismo e sensualidade, duas das principais matrizes que minavam de sua arte primeira, regada de inquietudes e sonhos, muitos sonhos, uma busca pelo etéreo.

São essas facetas que começam a ser revisitadas na e pela Galeria Multiarte a partir desta quarta-feira (29), a partir das 19h30, quando acontece a abertura da exposição "Cícero Dias: 1907 - 2003". "Revisitadas" porque de outrora: afinal, sua arte já esteve no espaço há exatos 22 anos, em novembro de 1995, período em que abrigou a primeira e única exposição do artista em Fortaleza e fez o próprio Cícero se emocionar diante da homenagem.

A mostra fica em cartaz até o dia 5 de maio e poderá ser visitada de segunda a sexta, das 10h às 19h. De cunho duplo, o trabalho objetiva não apenas volver o olhar de apreciadores para a arte do pernambucano - que completaria 110 anos neste mês de março -, mas também comemorar os 30 anos de atuação da Multiarte no contexto cearense.

Gravuras

De maioria inéditas, onze aquarelas datadas dos anos 1920 a 1930 integram a exposição, bem como desenhos, pinturas e litografias de diferentes períodos de criação do artista. Especialmente sobre estas últimas, elas fazem parte de "Suíte Pernambucana", parte de um conjunto de 25 gravuras editadas em 1983 a partir das aquarelas cicerianas do começo do século.

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A impressão das litografias, feitas ao longo de um ano, ficou a cargo do Atelier Pierre Badey, em Paris. Supervisionadas pelo artista francês, todas as etapas de produção seguiram um cuidadoso esquema, tendo as matrizes destruídas após a conclusão do processo.

Assinando o texto crítico e a cronologia das peças montadas no ambiente está Angela Grando, crítica de arte, biógrafa de Cícero e doutora em Teoria de História da Arte pela Universidade de Paris I, Sorbonne. A ordem de apresentação das composições na Galeria, a propósito, teve como fonte principal sua tese de doutorado, "Cícero Dias: Figuration Imaginative et Abstraction Construite", onde a pesquisadora imerge naquilo que fez do seu objeto de estudo algo tão rico.

A curadoria é dividida com Max Perlingeiro, diretor da Multiarte e membro do Conselho do Museu da Imagem e do Som e Paço das Artes de São Paulo. No texto de apresentação da mostra, ele destaca que a obra que integra a capa do catálogo desenvolvido especialmente para a exposição - uma realizada em 1920 e que retrata uma mulher sobre uma bicicleta - é uma das grandes composições de Cícero.

"Em um comentário atormentado, Mário de Andrade, em carta para Tarsila do Amaral, descreveu a coragem de Cícero Dias nas cenas do 'quadro que faz tremer os muros'. Em seguida, contou sobre uma das suas inúmeras musas na bicicleta, elemento recorrente na sua pintura, e um navio com a bandeira do Brasil partindo com o artista em traje social, sentado à mesa com uma mulher nua, rumo ao desconhecido", escreve.

Inovação

Outro destaque da exposição é a conferência que será realizada amanhã (30), a partir das 19h, na Multiarte, sobre a relevância do ofício criativo de Cícero. A confirmação de participação para os interessados deve ser feita por telefone.

No rol de discussão, entrará em cena olhares sobre a trajetória do artista plástico, que passou pelo Rio - vivendo intensamente o cenário cultural carioca - e integrou importantes plataformas dedicadas às artes visuais na Europa e nos Estados Unidos. Nesse tempo, por sinal, pôde conviver com artistas modernos exponenciais do século XX e capitaneou relevantes exposições.

Um senso de composição que o fez transitar por aquarelas entre o figurativo e a abstração, resvalando uma grande admiração e respeito pela paisagem do Nordeste, com ricos jogos cromáticos evidenciando jangadas, o vermelho dos telhados, os canaviais e todo um repertório de símbolos.

Cores, luzes e uma geometria própria com vistas a valorizar o abstracionismo, matéria-prima para ir descortinando muito do mundo e de si mesmo. Para, talvez, bradar a terceiros que sua arte é, como já dizia Gilberto Freyre - com quem muito conviveu - uma espécie de "surnudismo": carrega as particularidades do surrealismo para revelar a efervescente paleta de um Pernambuco (e, por que não, de uma atmosfera maior) em ascensão de afetos.

Mais informações:

Exposição Cícero Dias. Abertura hoje (29), às 19h30, na Galeria Multiarte (R. Barbosa de Freitas, 1727, Aldeota). Em cartaz até 5 de maio. Visitações: de segunda à sexta, das 10h às 19h. Contato: (85) 3261.7724

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