Música

De braços dados com o tempo

Sobrevivente dos anos 1960, Van Morrison usa o peso dos anos em seu favor, nos dois álbuns da safra 2017

Van Morrison: dois novos álbuns, lançados recentemente, documentam as aventuras do crooner irlandês pelo jazz e blues dos Estados Unidos
00:00 · 06.12.2017 por Dellano Rios - Editor de Área

Van Morrison tem 72 anos e está na estrada da música desde os 16. Nascido em Belfast, na Irlanda do Norte, foi um dos moleques que se meteu com o blues e o rock'n'roll no começo dos anos 1960. Sua banda, o Them, fez parte do que ficou conhecido como Invasão Britânica - a travessia massiva de grupos da Grã-Bretanha para os EUA, marcada por shows lotados de adolescentes histéricos, participações na TV em horário nobre e espaço garantido nas rádios e lojas de discos. Beatles e Rolling Stones capitanearam a horda, repletas de bandas que, nos anos seguintes, se tornariam gigantes ou mergulhariam no esquecimento.

O grupo de Morrison foi, mais ou menos, um exemplar do segundo tipo. Não resistiu às brigas de seus integrantes e perdeu força em meio a disputas legais pelo uso do nome. O ruivo de vozeirão grave e semblante indecifrável acabou embarcando numa carreira solo, após gravar dois álbuns com o Them.

Apesar dos altos da carreira - trabalhos do Them e outros assinados com seu próprio nome -, a base de fãs do cantor nunca ombreou a de seus colegas de geração mais afortunados. Morrison não é um Paul McCartney, nem um Mick Jagger. Sua discografia inclui obras perfeitas, como "Astral Weeks" (1968) e "It's Too Late to Stop Now" (1974, ao vivo), mas não é o suficiente para lançar sombra sobre a do ex-Beatle, nem sobre a dos Stones (o Jagger solo não está à altura de si mesmo). Mas há algo no Van Morrison setentão que faria inveja aos meninos que, um dia, ele, McCartney e Jagger foram: a voz da experiência.

Heroísmo

Voz da experiência... A construção é clichê e, para evitar o mal estar, talvez fosse melhor falar da experiência inscrita na voz. De qualquer forma, o significado aqui não tem nada de figurativo. É literal o tanto quanto possível. Paul McCartney, Stones e a arrasadora maioria dos veteranos do rock perseguem uma juventude infinita. Esta é inalcançável e o resultado da empreitada é um tanto irônico com aqueles que se lançam a ela. Enquanto isso, Van Morrison anda de braços dados com o tempo. Há duas décadas, pelo menos, ele é o velho bluesman (ou jazzman ou rocker ou o que mais este crooner decidir ser no disco/turnê da vez).

A voz calejada entoa verdades. Morrison canta aquilo que viveu (ou é isso que nos faz acreditar, piamente), mesmo quando a letra é assinada por outro sujeito. O Van Morrison de 2017 soa exatamente como aquilo que ele é: um homem de 72 anos, com muita vida pelas costas, erros a valer (alguns musicais, outros de caráter) e o combo álcool- cigarro-e-outras-drogas talhado nos graves de sua voz.

É o tipo de herói com que sonhavam os meninos brancos de Dartford, Londres e Liverpool, no fim dos anos 1950, início da década de 1960, enquanto a agulha passeava pelos sulcos do LP de algum velho bluesman, talvez morto ou esquecido a um oceano de distância. Aqueles de que eles pegariam emprestado um bom número de truques, para turbinar suas bandas de rock e conquistar as terras da Rainha, os EUA e o mundo.

Blues e jazz

Van Morrison, de fato, nem de longe lembra o tipo de artista-celebridade, daqueles que constroem uma carreira calculando cada passo. O irlandês grava e lança discos compulsivamente. Na última sexta-feira, ele lançou "Versatile", seu 38º álbum solo. O 37º, "Roll with the Punches", nem havia esfriado ainda: saiu em 22 de setembro.

Descritos sem muitos rodeios, "Roll with the Punches" é um disco de blues e "Versatille", de jazz. Em comum, os trabalhos da safra 2017 têm a matéria prima: algumas canções de Van Morrison e uma maioria de versões de músicas anteriores aos tempos de Them. São, evidentemente, fontes de inspiração do artista quando jovem, que persistem relevantes por quase seis décadas. É uma volta às origens, mas pensada de forma circular. Morrison, enfim, pode encarnar aqueles ídolos que um dia o inspiraram.

Mais uma vez para ir direto ao ponto: uma degustação de "Roll with the Punches" pode ir pela versão mais crua de "Bring It on Home to Me", clássico de Sam Cooke, e "How far from good", no qual Van Morrison segue de perto o original de Sister Rosetta Tharpe, forçando seu tom grave a compensar os agudos que caracterizavam a voz dela. Ouça, de "Versatille", Morrison cantando "Unchained Melody" (combina com uísque, melancolia e madrugada) e "I left my heart in San Francisco", clássico de Tony Bennet, também em clima de bar e noitada.

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