Música infantil

Das trilhas da infância

O cenário da música infantil traz mais que vídeos animados e rimas fáceis. Grupos como Palavra Cantada elevam o patamar da produção voltada aos pequenos

00:00 · 11.11.2017 / atualizado às 11:43 · 13.11.2017 por Felipe Gurgel - Repórter

Entre os segmentos do mercado fonográfico, aquele dedicado ao público infantil encontra possibilidades particularmente vigorosas nas novas tecnologias. A partir delas, determinado trabalho pode se estender além da canção e virar um projeto multimídia com vídeos, jogos, registros ao vivo e outros produtos, em mídias físicas (disco, DVD) ou para dispositivos móveis (tablet e celulares).

Nesse sentido, a música aumenta seu apelo como uma das linguagens artísticas que mais pode contribuir para o desenvolvimento da criança, desde os primeiros meses até a derradeira fase da infância (por volta dos 12 anos).

> Um cenário ainda raro 
> Infantil e experimental 
 
Na base de tudo isso, e da profusão de cores e desenhos que envolvem conteúdos como Galinha Pintadinha e Mundo Bita, por exemplo, está a produção musical - e, consequentemente, o filão das bandas que se dedicam a compor em diálogo com as crianças, independente do apelo visual. Uma das referências (e que se tornou influência para novos grupos) nesse sentido é a dupla paulistana Palavra Cantada.
 
Na ativa há 23 anos, foi criada por Paulo Tatit e Sandra Peres e hoje ocupa bem tanto as plataformas digitais (eles reúnem mais de 300 mil inscrições em seu canal oficial no YouTube) como os palcos. Mês passado, lançaram o novo show "Bafafá", que leva ao público canções mais novas como o "Sambinha da Fralda Molhada", "A Tartaruga e o Lobo" e "Cuida com Cuidado".
 
Embora a Palavra Cantada lance seus videoclipes repletos de animações, algo comum no cenário infantil, ainda é o "espírito de banda" que conduz o trabalho e torna diferente a obra dos paulistas. Canções como "Sopa" e "Pomar" ganham arranjos distintos quando apresentadas ao vivo.
 
"A Palavra Cantada é um exemplo de que a criança gosta da verdade. E tem tanta verdade no que eles fazem, como naquele vídeo do papagaio Reginaldo, que a gente fica doido. E os arranjos são maravilhosos", opina o músico e produtor musical Gustavo Portela (CE).
 
Geração
 
Para Gustavo, "o Bita, a Galinha Pintadinha têm seu valor, porque trabalham com cantigas populares (e criações próprias). Mas é uma estética muito pasteurizada. Pra mim, a Palavra Cantada é referência de música infantil para a nossa geração (dos pais dos bebês de hoje)".
 
A partir da experiência da Palavra Cantada, o público viu surgir outros grupos voltados à música para a criança, sobretudo em São Paulo (SP). Um deles é o Duo Badulaque, que reúne os músicos Daniel Ayres e Júlia Pittier (também do Barbatuques; Daniel integra ainda a atual formação da Palavra Cantada).
 
Percussionista, Daniel (33) mantém o grupo de percussão Batuntã, desde 1999, e entrou na Palavra Cantada por conta da familiaridade com o batuque. Antes disso, já tinha acompanhado o paraibano Chico César, na apresentação do espetáculo infantil "Marias do Brasil".
 
"A Palavra estava procurando percussionistas jovens com experiência em cultura popular, com o maracatu, em 2005. Nessa época o grupo não tinha tanto vídeo no YouTube, fui fazer a percussão, acabei tocando baixo e outros instrumentos, conforme o show ia mudando", situa o músico. 
 
De dois
 
Para formar o Duo Badulaque, Daniel Ayres quis encontrar um canal para suas composições. "Nunca tinha feito música para criança, só tocava com a Palavra. Fiz a primeira em 2015, e depois passei a compor muito", enfatiza.
 
Ele e Julia Pittier lançaram o DVD do Duo Badulaque procurando um formato minimalista. No vídeo, os músicos estão de cara limpa, com pouco figurino e evidenciam os instrumentos (em especial, as percussões corporais e artesanais). Daniel observa, fazendo música infantil, que a criança não se prende só ao desenho animado, "elas curtem ver uma pessoa tocando violão. Acham mágico o fazer da música", percebe.
 
Os vídeos do DVD compõem atualmente a programação do canal por assinatura TV Rá Tim Bum. "A gente tinha feito só para a internet. O resultado agradou e, para o novo disco, estamos filmando a gravação do áudio. Tocando o violão, o baixo, mostrando para a criança o tocar", detalha Daniel Ayres.
 
O Badulaque abriu campanha de financiamento coletivo para bancar o novo disco, "O Dinossauro e o Dragão". Daniel observa a filosofia que envolve o trabalho. "O título é o nome de uma música. É sobre falar para as crianças de mitologias, pela figura do Dragão, e de histórias, pelo Dinossauro. Nosso conhecimento (adulto) está sempre focado na razão. E as pessoas precisam desse outro lado", reflete Daniel.

Entrevista com Paulo Tatit*

"O ritmo expressa energia, algo muito próprio da infância"

A Palavra Cantada já tem 23 anos, aí começamos a perceber outros grupos voltados à música pra criança, até como uma ramificação da dupla, a exemplo do Duo Badulaque. Como vocês veem o surgimento dessas iniciativas?

É muito legal e saudável que surjam outros grupos com afinidades (ou não) com o trabalho da Palavra Cantada! Particularmente, prefiro os trabalhos bem diferentes do nosso, pois aguçam mais a minha curiosidade.

Os vídeos mais novos têm uma clara ênfase na percussão. O universo rítmico é um dos focos de pesquisa da dupla hoje?

Sem dúvida o ritmo é um dos principais focos, pois ele expressa as diferentes etnias que há nas profundezas da música brasileira. Além disso o ritmo expressa a energia, que é algo muito próprio da infância, não é mesmo? Outros focos são a poesia e o humor.

Vídeos como o "Sambinha da Fralda Molhada" tiveram também uma versão colaborativa do público. Com a repercussão do trabalho, foi um caminho inevitável contar com a participação direta do público na criação do conteúdo?

Sim, por um lado o celular e, por outro, o YouTube, são os meios ideais para promover esse tipo de interação, pois qualquer pai ou mãe pode fazer seu filminho e participar do clipe. É um dos lados positivos da tecnologia hoje.

A Palavra Cantada tem shows em vários formatos para circular o Brasil hoje? Se viesse a Fortaleza, por exemplo, o grupo viajaria com quantas pessoas?

Por enquanto temos apenas dois formatos, um que vai a banda e sua infraestrutura, totalizando 11 pessoas. Nesse caso, o vídeo-cenário participa ativamente, junto com o light design, som e performance, tudo caminhando junto para engrandecer o espetáculo. Outro formato é um trio: eu, Sandra e nossa baterista Michelle. Esse formato enxuto é limitado a 500 pessoas no máximo e oferece um clima intimista, cara a cara com a plateia, sem vídeo-cenário, sem iluminação especial, que é para criar um ambiente tipo "lá em casa".

*Músico da Palavra Cantada

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