Música

Das abstrações da realidade

Rômulo Fróes (SP) lança seu novo álbum solo, e se consolida como um "jovem veterano" do cenário da MPB

Rômulo tinha lançado disco, pela última vez, ao lado do mineiro César Lacerda ( FOTO: LUAN MACHADO/DIV. )
00:00 · 15.06.2018 por Felipe Gurgel - Repórter

O paulistano Rômulo Fróes (48) lançou seu primeiro disco solo em 1999 ("Losango Cáqui"). No entanto, apesar da longevidade, o artista costuma ser situado como um nome da "nova geração da MPB", a exemplo do que acontece com o catarinense Wado (10 discos lançados, na bagagem) e com o cearense Fernando Catatau (do Cidadão Instigado, que no ano passado completou 20 anos de formação). "O fracasso é o segredo da juventude", brinca ele, em entrevista por telefone.

Além da carreira solo, Fróes compôs para artistas como a cantora Elza Soares (é dele a composição de "Eu quero comer você" e "Língua solta", faixas do mais recente "Deus é Mulher") e participa do grupo Passo Torto (SP), dentre outros projetos musicais. Agora, lança seu nono álbum, "O Disco das Horas" (YB Music), disponível nas plataformas digitais desde a última sexta (8).

Produzido pelo próprio músico, ao lado de Thiago França e Cacá Lima, o disco foi concebido a partir de uma ideia do parceiro Nuno Ramos, artista plástico e letrista das canções do álbum. Numa viagem para Roma (Itália), Nuno criou uma sequência de oito letras e escreveu para Fróes.

"Ele me dizia que era um negócio como se fosse uma suíte, uma canção só. Então sugeriu o título e ainda falava que era um disco de canções de amor. Que ele sempre quis me propor isso. Depois disso, fiz mais quatro canções em seis horas (para formar o repertório)", recapitula Rômulo Fróes.

O álbum foi sugerido para Fróes com uma ideia formatada, e ele resolveu nomear cada uma das 13 faixas na seguinte ordem: Primeira hora, segunda hora, terceira hora, e assim, sucessivamente, até a décima terceira hora.

A partir daí, o compositor pensou que a sonoridade devia ter um "partido sonoro". "Pensei no (sambista) Jamelão e na santíssima trindade do meu pai, dele acompanhando a Orquestra Tabajara, com o repertório do Lupicínio Rodrigues. Ouvi muito isso na infância, e falava bastante disso para o Thiago (França, produtor). E ele já me trouxe também algo do jazz", situa Rômulo Fróes.

O paulistano observa que o conceito do disco caiu praticamente no seu colo. E que algumas dinâmicas do seu processo criativo mudaram. Ele cita a interferência de Thiago França no "caráter" de uma parte das canções. "A banda (de apoio) atua nas minhas canções sem mudar a gênese. Se é algo pra frente, eles tocam pra frente. Mas o Thiagou mudou (por exemplo), a 'Décima hora'. Era uma música bem mais morgada, e ele achava que tinha de ter um balanço", recapitula.

Horas

A ideia de situar as faixas do disco entre as horas tem relação com a poética do álbum - ilustrada pela história de um casal fazendo sexo, como uma maneira de abstrair do cotidiano avassalador que se vive hoje. "Um casal querendo se amar, entre sambas e vitrais. Essas letras têm muito a ver com o 'Sermões', do Nuno Ramos (Iluminuras, 2015). É um livro de poemas eróticos que ele lançou, sobre dois casais trepando em igrejas barrocas. (E vivendo) uma espécie de fuga do cotidiano", visualiza Rômulo Fróes.

Literalidade

Como compositor, Fróes percebe que o público hoje (em boa parte) está a fim de consumir a arte num sentido literal e muito explicativo, quase "desenhado". "Eu brinco dizendo que se trata do repertório de 'hashtag'. E quem tenta fazer canção sem ser literal, como nós, parece alienado", avalia.

"Os compositores estão pressionados para dar conta (em suas criações) desse cotidiano avassalador. E nesse álbum a gente pede por 'sede' de viver, não apenas para sobreviver", reflete o paulistano.

Fróes observa que a arte pode sinalizar para o que a vida "pode ser", sem se prender ao que a vida "já é". "Disso a gente já sabe na pele. Tenho 48 anos e recebi salário em URV (na década de 1990). Mas esse momento político atual é ainda pior", lamenta o compositor.

Ele comenta a redução de verba para o Ministério da Cultura (oriunda da Loteria Federal), anunciada nesta quarta-feira (13), a pretexto do Governo Federal investir mais em Segurança Pública.

"Isso é um retrato bem fiel do que a gente vive. Como artista, gravo com a YB (Music), que tem um estúdio de indústria. (Com essa estrutura) tenho certa missão de ir contra essa precarização. O negócio é fazer canção, gravar e sobreviver da melhor forma possível", sinaliza.

Ciclo

Indagado se o lançamento de "O Disco das Horas" simboliza o início ou o fim de um ciclo em sua carreira, Rômulo Fróes observa que seus ciclos sempre se relacionam com a maneira de compor. "Tem uma coisa nova que fiz para esse disco, que é compor uma melodia através de uma letra já dada. Não à toa as músicas ficaram com jeito de samba-canção", destaca.

Fróes fala que o time de músicos que o acompanha - reunindo nomes como Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e o próprio Thiago França - é "absolutamente criativo" para dar conta de suas inquietações no processo de composição.

"Não há acomodação nesse sentido, seja por motivo econômico (e a necessidade de se pagar contas, como músicos profissionais). Há um desejo nosso de contribuir com a canção brasileira", atesta o paulistano.

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