espetáculo

Dançando com Almodóvar

02:55 · 26.01.2012
Alda Pessoa dialoga com o universo estético do diretor espanhol desde 2007
Alda Pessoa dialoga com o universo estético do diretor espanhol desde 2007 ( )
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Tudo sobre minha mãe
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Mulheres à beira de um ataque de nervos
Mulheres à beira de um ataque de nervos ( )

Último dia para conferir na "Quinta com Dança", obra inspirada no cinema e personagens de Pedro Almodóvar
 
Elas são passionais, amam e sofrem do fundo do âmago. São mulheres de natureza, por opção própria ou forçada, sensuais, emotivas, protetoras e apaixonantes. Pepa, Becky del Páramo, Rebeca Giner, Kika, Manuela, Raimunda, Huma Romo, Agrado, Marília e, mais recentemente, Vera. Essas são algumas das mulheres de Pedro Almodóvar, diretor espanhol célebre por explorar o universo feminino em suas obras com muitas cores, humor, drama, provocando identificações e desconforto.

Com uma plástica visual que, em algumas produções, beira o kitsch, o diretor explora temas humanos e universais em suas tramas e personagens: amor, ódio, perdão, arrependimento, alegria, vaidade, inveja, etc.

Toda essa riqueza estética, narrativa e performática inspirou a intérprete Alda Pessoa e o diretor João Paulo Lima a conceberem o espetáculo de dança "De las entrañas", que chega a sua última apresentação, hoje, no Teatro Dragão do Mar, na programação do projeto "Quinta com Dança".

"De las Entrañas é o resultado de uma apaixonada e intensa pesquisa nas imagens, cores e personagens de Pedro Almodovar", explica Alda. A escolha do título para o espetáculo não poderia ser mais acertada, ele dialoga com um livro publicado pelo cineasta, "Feugo en las entrañas" e tenta abarcar o sentimento visceral presente no cinema do diretor e que guia também os movimentos, a performance de Alda, bailarina há 20 anos e fã confessa das obras do espanhol.

"Desde 2007 pesquiso as obras de Almodóvar para construir meu trabalho de conclusão de curso, com mais três amigas, no período em que cursei Dança na Unicamp. Sempre tive o desejo de dar continuidade a essa pesquisa, mesmo que sozinha, pois muita coisa ainda ficou por fazer, por dizer, muitos desejos ainda existiam. Foi quando, em 2011, voltei a morar em Fortaleza e conheci o João Paulo. Conversando com ele, descobri que também era um apaixonado por Almodóvar e já pesquisava seus filmes. Assim, o convidei para me dirigir", frisa Alda.

Sendo, de certa forma, fiel ao estilo "almodovariano", Alda, garante ter uma preparação corporal consistente, saiu da zona de conforto, literalmente, e subiu em seus "tacones lejanos" (salto alto) em cena. Tudo para construir um espetáculo híbrido. Aliás, estabelecer essa dialética entre cinema e dança foi um desafio. "Foi difícil passar para o palco o exagero do Almodóvar com as sutilezas que ele coloca. Usar o exagero com poesia. Trazer o tragicômico. Em compensação, foi fácil ter elementos para trabalhar, ter material de inspiração", reflete.

O resultado: uma produção em que a dança predomina, mas que flerta com o teatro para dar conta do universo expressivo a que se propõe.

Citações

"De las entrañas" tentou captar as similitudes entre as personagens femininas e narrativas do diretor espanhol. Por conta disso, é possível, segundo Alda Pessoa, identificar algumas referências diretas às produções "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (1988), "Volver" (2006), "Tudo sobre minha mãe" (1999) e "De salto alto" (1991). "Isso não quer dizer que são minhas obras preferidas, só foram as referências possíveis de trazer para o espetáculo, sempre fazendo uma releitura", ressalta a bailarina que desconstrói as heroínas de Almodóvar para criar uma mulher própria com nuances variadas e que vivencia diferentes emoções ao longo da apresentação.

"De las entranãs" foi contemplado com o edital de estímulo à dança no Estado, do Instituto de Arte e Cultura do Ceará (IACC) e encenado durante o mês de janeiro no projeto "Quinta com dança". Em 2011, ficou em cartaz no Teatro das Marias e a expectativa de Alda é que possa ser apresentado em um espaço mais intimista. Já o diretor João Paulo Lima apresentará, também no "Quinta com dança" 2012, o espetáculo "Kahlos", com data ainda a definir.

OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Interstícios dançantes

De las entrañas propõe uma questão para pensarmos: como ser dança na relação entre linguagens, em especial, como ser linguagem de dança com a linguagem do cinema? A montagem é livremente inspirada na obra de Almodóvar, com dramaticidade e teatralidade características da estética do cineasta. Percebo, contudo, que não é, necessariamente, para dançar as cores de Almodóvar, de ser uma dança para ele e sua obra, mas uma dança que fale de objetos, cores, imagens, pessoas, enfim, das ambiguidades e idiossincrasias humanas. Pelo menos, não era para ser tanto Almodóvar, contudo, acaba sendo um pouco, às vezes, até demais.

De início, pensei em como a montagem nos ajudaria a refletir sobre o cinema almodovariano, colaborando para entendermos suas inquietações, nos impulsionando para outras leituras de mundo menos moralistas e mais passionais. Isso seria, e é, interessante, se o assunto fosse "apenas cinema". No entanto, o contexto é a dança, e mais, a dança entre linguagens, logo, tive que refazer o raciocínio.

No espetáculo, um diálogo está presente, sim, com muitos elementos que já conhecemos, mesmo para os não-cinéfilos, até para quem assistiu apenas um filme, inclusive seu último, "A pele que habito" (2011), que veio bem menos colorido visualmente, mas ainda assim carregado de sutilezas ambíguas das personagens e suas peripécias, digamos, "ultrahumanas".

Ser livremente inspirado na obra de um cineasta famoso é desafiante, consideremos. Assim, como Almodóvar permite ver a dança de Alda enquanto organização de novas formas de dança, das entranhas do corpo em movimento, de uma dramaturgia do corpo na cena, de ser linguagem de/a dança? Para isso, é importante investigar, olhar atentamente que zonas comuns podem ser construídas, forjadas, percebidas, e que já estão lá na obra, pulsantes, uma vez que o diálogo é com uma obra de dança, não?

Felizmente, Alda e João Paulo estão em um bom caminho, contextualizados na proposta do "Quinta Com Dança", um lugar de experimentação para a dança contemporânea, ou melhor, um espaço para arriscar outros jeitos de fazer dança, investigando o corpo que dança em suas muitas possibilidades de configuração enquanto arte no mundo.

Joubert Arrais é artista, pesquisador e crítico de dança. Blog: enquantodancas.blogspot.com.

Joubert Arrais*
Especial para o Caderno 3



Naiana Rodrigues Repórter

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