Espaço Cultural Unifor

Da pobreza ao destaque empresarial por mérito próprio

01:47 · 05.05.2012
Luiz Tarquínio: empreendedor contornou a infância pobre e o preconceito
Luiz Tarquínio: empreendedor contornou a infância pobre e o preconceito ( fotos: Rodrigo Carvalho )
Nascido pobre, o empresário baiano Luiz Tarquínio desafiou as estatísticas e virou industrial de sucesso

Filho de ex-escrava lavadeira, nascido em uma Salvador do século XIX - periodicamente abalada por epidemias -, Luiz Tarquínio parecia ter o futuro traçado antes mesmo de sair do ventre da mãe. Caso escapasse às doenças, em especial à febre amarela, o caminho habitual seria ajudar a mãe com pequenos serviços, entre vender doces e outras mercadorias nas ruas; posteriormente, virar moleque de recados e carregador pelas ladeiras da cidade.

Mas, no melhor exemplo de mérito pessoal, Tarquínio passou de estatística para um dos mais bem-sucedidos industriais do País, no ramo da tecelagem. Por isso, é um dos destaques da exposição "Pioneiros e empreendedores: a saga do desenvolvimento no Brasil", em cartaz no Espaço Cultural Unifor até domingo (13). A mostra deriva de uma série de livros homônima escrita pelo professor Jacques Marcovitch (USP).

Em boa parte, o sucesso de Tarquínio deve-se ao esforço da mãe em cuidar de sua educação. Ela mesmo era alfabetizada, uma exceção entre lavadeiras e mães solteiras da época. Após frequentar uma escola pública do bairro da Sé, o garoto conseguiu emprego em uma loja de fazendas no Centro. Aos dez anos, era encarregado da limpeza e de serviços gerais. Mas, conhecedor das quatro operações básicas de cálculo, logo foi promovido ao atendimento de clientes.

Aos 15 anos, passou a trabalhar na Bruderer Cia., importadora e atacadista de tecidos. Ao mesmo tempo em que empreendia excepcional esforço autodidata para aprender contabilidade e outros assuntos do ramo comercial, lutava diariamente - como todos os outros negros e mulatos, filhos e descendentes de escravas - para sobreviver à barreira do preconceito e da segregação racial.

Na Bruderer, cinco anos após entrar no emprego, fez a primeira de muitas viagens à Europa, para contato com as fábricas de outros países. Ao mesmo tempo, exercitava o aprendizado constante em artigos escritos para jornais. Aos 40 anos, já casado, com filhos e em situação estável, trocou a justificável acomodação pelo empreendedorismo, ao criar a Cia. Empório Industrial do Norte, junto com alguns sócios, em uma grande área comprada no bairro de Boa Viagem. Ao lado da fábrica, Tarquínio construiu a primeira vila operária do Brasil, antecedendo experiências como as de Jorge Street, em São Paulo, ou de Delmiro Gouveia, em Alagoas.

Em menos de quatro anos de atividade, a Empório dominou o setor têxtil da Bahia - em 1895, empregava um terço de todos os operários, reunia dois terços dos teares e metade da produção dos tecidos de algodão cru do Estado.

Paralelamente às atividades empresariais, Tarquínio articulava ideias inovadoras relacionadas a direitos trabalhistas e, antes, à abolição da escravatura - defendida por ele sob as garantias de trabalho e renda aos libertos e indenização aos senhores. Para financiar seu projeto, Tarquínio propunha diferentes fontes, entre elas a de um imposto sobre a renda (ideia que só se tornaria realidade 40 anos mais tarde). Faleceu aos 59 anos, em 1903, após propiciar vida confortável à família, inclusive à mãe, que viveu como a matriarca da casa até 1895.

Mais informações

Pioneiros & Empreendedores. Até 13 de maio, no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). De terça a sexta, das 8h às 18h; sábados e domingos, de 10h às 18h. Gratuito. Contato: (85) 3477.3319

ADRIANA MARTINS
REPÓRTER

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