Música

Da intensidade das águas

A cantora e compositora Josyara (BA) lança seu segundo álbum, "Mansa Fúria", pelo programa Natura Musical

00:00 · 31.08.2018 por Felipe Gurgel - Repórter
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A cantora e compositora Josyara Lélis: novo disco aborda raízes nordestinas da artista em meio aos fluxos de mudanças psicológicas e geográficas ( Fotos: NATALIA ARJONES )
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A baiana Josyara Lélis (26) é uma daquelas artistas que possui ligação incontestável com as origens. Natural de Juazeiro (BA), ela se diz "ribeirinha" e seu próprio temperamento (muito influenciado pelas "águas" de emoções intensas) se confunde à conexão que traz com uma das principais cidades brasileiras banhadas pelo imenso Rio São Francisco.

Em seu segundo álbum, "Mansa Fúria", a cantora e compositora investe numa poética daquilo que se tornou para além dessas origens. Lançado pelo programa Natura Musical, o disco reúne 12 faixas e marca a consolidação da carreira da "cantautora" baiana.

Hoje radicada em São Paulo (SP), Josyara observa que, embora não crie suas canções de modo "racional" (e sim mais intuitivo), teve o cuidado de expandir o apelo das músicas, do primeiro para o segundo álbum. Ela recapitula que, como o projeto do disco novo foi possibilitado pela aprovação no edital da Natura Musical, a concepção foi muito corrida.

"Não tive um tempo de laboratório, na forma de sentar com a banda, com os músicos. Foi uma coisa de 'vamos fazer, vamos fazer'. Aí surgiu essa linguagem atual, das texturas eletrônicas, antes eu vinha fazendo show (no formato) voz e violão", expõe a cantora.

A faixa-título é a mais antiga do repertório, e foi criada há 10 anos. As demais, situa Josyara, têm entre um a quatro anos. Produzida por Junix 11, a sequência foi criada pensando no "universo novo" da cantora, tanto no sentido pessoal quanto artístico.

"O primeiro tem muito xote, a coisa do primeiro amor, música de quando eu tinha 15 anos. Tem o fato de se assumir lésbica. Falo 'ela', mostrando que é por uma mulher que eu estava apaixonada. E esse (álbum) fala da coisa de sair de casa, do que eu vim fazer nessa cidade louca", acrescenta a artista, sobre São Paulo.

Em relação à mudança para a capital paulista, ela enfatiza que hoje está mais tranquila, após se aproximar de amigos músicos (a exemplo do paraense Luê, parceiro de composição em "Nanã", canção do novo álbum). "Os encontros têm fortalecido o meu interior e minha criação, e pretendo ficar por aqui mesmo, por um tempo. Eu aguento (risos)", brinca.

Ideia

O título do álbum flerta com a possibilidade das pessoas se mostrarem "mansas" e delicadas, embora uma boa parte da sociedade e os discursos políticos se encontrem, hoje, inflamados (mesmo antes da corrida eleitoral deste semestre). O conceito do disco dialoga com algo como contrapor a opressão e a força das águas, da qual reflete a cantora.

"Queria (com o título) relembrar essa música antiga, pela letra dela e tudo mais. E desse 'vai e vem' de perder o chão, essa coisa da 'mansa fúria' é relacionada às águas. Sou ribeirinha, e depois fui para o litoral (Salvador/BA). Nesses tempos de hoje, que tudo quer que a gente se separe, vem a importância da fala, da comunicação. E graças à internet, nós ainda temos um lugar de fala, digamos assim", observa Josyara.

Águas

A sensibilidade das águas aparece nas letras do repertório, também através de citações a orixás (vibrações divinas) ligados ao elemento aquático, como Iemanjá (rainha dos mares) e Nanã (protege as águas doces). Indagada se tem relação com alguma religião afro ou com o culto do candomblé, Josyara pontua que procura desenvolver sua espiritualidade, praticar meditação, até como uma forma de dosar a correria e o estresse da vida em São Paulo.

A influência do universo dos orixás, nesse sentido, vem desde que ela passou a viver em Salvador, na adolescência. "Vem das ruas de Salvador, do início do candomblé, da cidade negra. Mas a ligação de agora pintou no período de criação do álbum", situa.

As águas envolvem a concepção do álbum também indiretamente: por meio de um sonho (o universo onírico tem relação simbólica com a falta de limites do meio aquático), Josyara visualizou a imagem da capa do álbum.

"Então cheguei para a artista (Natália Arjones, que assina a concepção da capa) e disse 'ei, realize meu sonho (risos)'. E a música 'Nanã' foi criada a partir de um sonho também", complementa.

A água ainda lembra, para ela, Juazeiro (BA) e as memórias "mais lindas" de sua vida. "E quando eu saí, apesar de ter ido para a casa de familiares (em Salvador), nunca me senti mesmo em casa. Essa base, esse chão, é o semi árido, o rio, a caatinga, é Juazeiro", destaca.

Em todo o seu processo artístico, a cantora reconhece que essa ligação "não tem como fugir de mim. Tá no sotaque, nas letras. Isso está muito vivo", observa.

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