ENSAIO

Cruzando ruas: Mário de Andrade e o espaço urbano

01:09 · 08.06.2013
A poesia de Mário de Andrade - o Papa do Modernismo - centrada nas imagens da cidade de São Paulo

O olho do poeta Mário de Andrade, sob a orientação das vanguardas estéticas do início do século passado, em especial da corrente futurista, recai, em inúmeros poemas, sobre o progresso e a tecnologia que, pouco a pouco, tornariam a cidade de São Paulo o motor econômico do País: "Ele vislumbrava a cidade amada como uma babel desvairada e metódica, cujos contornos tentaculares escapavam aos olhos e às mãos dos seres humanos que a construíam freneticamente. Para o poeta, a metrópole tornava-se um monstro, com uma ´grande boca de mil dentes; e os jorros dentre a língua trissulca´, que engole e tritura" os que não tivessem forças para enfrentá-la. Desse modo, ao percorrer as ruas, as avenidas, as praças, o rio de aço de seu tráfego, o poeta Mário de Andrade é a testemunha viva de como se dá todo um processo de transformação.

Detalhe da capa do livro "O Arlequim da Pauliceia", de Aleiton Fonseca. Neste ensaio, o autor analisa a maneira como o poeta Mário de Andrade captou as imagens da cidade de São Paulo ao longo de toda a sua obra poética

A leitura

Dono de uma prosa leve, livre dos jargões acadêmicos, o autor percorre os versos de Mário de Andrade, extraindo deles, com segurança, a essência das imagens. A rigor, parece caminhar junto com o poeta, numa perfeita harmonia entre a poesia e o discurso: "O poeta paulistano imprime em vários poemas a marca de seu deslocamento pelo espaço urbano, fixando pontos de vista que resultam de seu olhar itinerante pela paisagem. Nesse particular, a figura do bonde aparece nos poemas, não apenas como objeto representado, mas, sobretudo, com a função textual de imprimir dinamismo nas imagens urbanas". O bonde, símbolo maior do deslocamento moderno, está, por conta disso, sempre associado a aventuras. A viagem real é transfigurada para que o sujeito do discurso percorra outras terras e outros espaços.

O eu lírico

No discurso poético de Mário de Andrade, o eu se apresenta - conforme a análise do autor - sempre retorcido, à semelhança daquele gauche de Carlos Drummond. Talvez essa atitude advenha da consciência de que a modernidade impõe indeléveis mudanças à cidade, munida, assim, de novos serviços e de novos instrumentos. Em meio às multidões, os homens somem na poeira das ruas, e o que mais aproxima os homens uns dos outros não é mais pautado pela amizade, mas, sim, pelo interesse, em geral de natureza econômica.

O eu e a urbe

Assim, pouco a pouco, a cidade vai se mostrando um espaço estranho, impessoal, imprimindo um choque na percepção do poeta. Consciente, o eu lírico capta os desequilíbrios da vida urbana, servindo-se, antes de tudo, do humor e da ironia: "Torpe é a cidade. Um desejo sombrio de estupro. / Um desejo de destruir tudo num grito / num grito num grito / E dar um beijo em cada mão de quem trabalha" - como bem exemplificam esses versos de "O carro da miséria".

Considerações finais

Merece, em todo o livro, destaque especial para a leitura que o ensaísta faz do poema ´Ode ao burguês´ - um dos textos mais antológicos de Mário de Andrade, em que o termo ´ode´, em vez de uma exaltação converte-se, ironicamente, em insulto: "O poema adquire também um valor simbólico de contraposição à soberania do lucro, invertendo a lógica do jogo, ao formalizar, por meio de versos contundentes e gritados, o insulto público e a expulsão do burguês". Enfim, o livro "O Arlequim da Pauliceia" é, sem dúvida, um ensaio bem realizado e um elemento-chave para a recepção da poesia de Mário de Andrade - uma das mais altas vozes de nossa poesia moderna quando esta estética ainda dava os passos iniciais em nossa terra, no começo do século XX, com suas inovações formais.

LIVRO

O Arlequim da Pauliceia
Aleiton Fonseca
GERAÇÃO
2013, 296 Páginas
R$ 29,90

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

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