olhares dos censores

Cruzadas morais no entretenimento

Em décadas distintas, manifestações artísticas foram alçadas à categoria de vilãs e acusadas de incentivar a criminalidade no público

00:00 · 11.08.2018 por Antonio Laudenir - Repórter

Encaradas como mero escapismo ou divertimento rápido pela maioria dos espectadores, diferentes manifestações culturais, em algum momento da história, precisaram confrontar o preconceito e o ódio de significativa parcela da sociedade. Medo e ignorância somam-se a fatores como as ineficazes políticas públicas voltadas à arte e o pouco aprofundamento destes assuntos por parte dos veículos de comunicação de massa.

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Tais elementos tornam-se combustível para quem investe em verdadeiras cruzadas contra o "inimigo" da vez. As razões para os ataques - seja contra artistas ou obras - são bem mais complexas do que alguns querem fazer crer. Diante de motivações obscuras sustentadas pela paranoia e o medo, a alternativa de embate passa por identificar e compreender suas origens: o que leva determinados grupos a estabelecer cruzadas morais contra a literatura, filmes, histórias em quadrinhos, TV ou segmentos musicais específicos.

Classificadas como "depravadas", de "mau gosto" e até mesmo "escandalosas", peças artísticas foram acusadas de subverter os ditos bons costumes e até mesmo incentivarem as ações criminosas do público. Exemplos destes atos de censura estão presentes nos mais díspares cenários geográficos e culturais. Consequentemente, atenderam e espelharam os anseios da política vigente de cada época.

Estudo generoso na esfera do sexo e do audiovisual, o livro "Cinema Explícito - Representações Cinematográficas do Sexo", de Rodrigo Gerace, mergulhou nas muitas fronteiras existentes entre corpo e imagem. Do cinema mudo às vanguardas artísticas, das pornografias alternativas aos filmes hollywoodianos, o autor identificou e analisou trabalhos considerados "perigosos" aos olhares dos censores.

Mais amor

Um dos títulos presentes na pesquisa é basilar quando se buscam pistas sobre atitudes recriminatórias no campo da arte. Para se ter uma ideia, um banal beijo motivou a fúria de plateias norte-americanas no final do século 19. Com apenas 18 segundos de duração, "The Kiss" (1896) foi tratado como obsceno. O filme guiado por William Heise (1847-1910) é considerada a primeira representação, em filme, desse gesto de carinho.

A cena foi denunciada como "chocante" e "pornográfica" pelos primeiros espectadores e o assunto acabou caindo no colo da Igreja Católica. Prontamente, a instituição pediu a censura da projeção e usou do argumento daquele momento, quando beijar em público poderia levar a processos judiciais.

Ainda na era dos filmes mudos produzidos em solo ianque, eclodiu o "Código Hays", tentativa de afastar de Hollywood a imagem perniciosa pintada pela opinião pública. Entre 1930 e 1968, os estúdios passaram a determinar a autocensura em suas obras.

Entre as 16 "recomendações" estavam proibidas cenas de nudez, retratar gestos e posturas vulgares, "ridicularizar funcionários públicos" (o que inclui a força policial) e até mesmo a censura de qualquer imagem cujo conteúdo mostrasse takes "românticos prolongados e apaixonados".

Paranoia

Um marco no tocante ao cuidado da livre expressão rebentou logo após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A queda dos regimes nazi-fascistas acenou para o processo de reafirmação dos ideais liberais e democráticos. Em meio aos escombros de um conflito responsável por matar e mutilar milhares de pessoas, diversas nações reuniram-se na Organização das Nações Unidas (ONU) para construir a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O documento transformou-se em complexo manifesto contra o preconceito, desigualdade, o racismo, a xenofobia e a exclusão social. Esse esforço reflexivo advém de uma das principais características destes anos sangrentos. Além do campo bélico, o horror da guerra também atuou e deixou marcas no terreno ideológico. Cinema e rádio, entre outros meios comunicativos, foram utilizados como armas de propagação do pensamento defendido por cada país envolvido na disputa.

A polarização entre os mundos capitalista e socialista resultou em outros momentos de pânico e histeria. O temor da invasão comunista, ameaça iminente contra o livre padrão de vida do povo americano - o famoso "way of life"-, resultou em outro lastimável movimento de caça às bruxas na meca do cinema.

Quando o senador Joe McCarthy (1908-1957) afirmou possuir uma lista com os nomes de 205 simpatizantes comunistas que trabalham no Departamento de Estado, a coisa rapidamente chegou em Hollywood. A "lista negra", como era chamada, foi o estopim da cruzada ideológica conhecida como "macarthismo". Comandando o Subcomitê de Investigações Permanentes do Senado, o político vigiou 653 pessoas acusadas e levou dezenas a julgamento. Com isso, diretores, roteiristas e atores tiveram as carreiras destruídas da noite para o dia.

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