Corpo: matéria exclamativa - Caderno 3 - Diário do Nordeste

Artes visuais

Corpo: matéria exclamativa

Exposição "Corpóreos" traz pinturas que apresentam recorte contemporâneo da forma física humana

00:00 · 27.09.2016
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Duas das obras de Antónia Malau, da exposição "Corpóreos": simbologias pictóricas que dialogam com as percepções da artista sobre o corpo

Na esfera corrente de produção acadêmica, muito se tem escrito sobre o corpo e as relações que esse invólucro externo dos indivíduos pode desenvolver com o mundo. A semioticista e teórica Lucia Santaella, por exemplo, em seu livro "Corpo e comunicação - sintoma da cultura" (Editora Paulus, 2008) avalia que o corpo virou uma obsessão, está perturbadoramente em todas as partes, sendo dissecado especialmente por amplas vertentes das ciências humanas, da Filosofia aos Estudos Culturais.

Ao mesmo tempo, muito se tem falado também sobre a imprevisibilidade e a fluidez das coisas, dos seres, sendo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman o grande expoente dessas reflexões. Afinal, nunca foi tão atual falar de uma pós-modernidade que, inicialmente, se esgueira num muro de concreto visando observar a mutação desordenada das realidades hodiernas - englobando dependências tecnológicas, relacionamentos que duram segundos e ideias que beiram o onírico - para, na sequência, descer do anteparo e se banhar no mar desse caos ideológico.

As obras da artista plástica portuguesa Antónia Malau transitam no limiar dessas duas vertentes de análise da contemporaneidade, bebendo, portanto, em ambas as fontes de recorte. Hoje (27), às 19h, elas estarão disponíveis para visitação na Galeria Empório Embaixada da Cachaça, compondo a exposição "Corpóreos".

A mostra - que fica em cartaz até 7 de outubro, com entrada franca - apresenta simbologias pictóricas que dialogam frontalmente com as percepções desenvolvidas pela pintora sobre o estado vigente dos seres, mergulhando em representações que ora pontuam individualidades, ora exibem um espectro coletivo de desordem.

"É sobretudo sobre expressões, corpos em movimento, sem limites e fazendo muitas interações consigo e com os outros, como hoje observamos acontecer no mundo", descreve Antónia, embebida da proposta de trabalhar a temática a partir de amplos vieses de entendimentos e visões.

Vivência

A ideia de reproduzir o assunto nas telas nasceu da própria vivência da artista, de sua verve itinerante, das pesquisas que empreendeu. Radicada em Fortaleza e já tendo morado por dois anos em outros lugares do Brasil, em 1997 Antónia passou a desenvolver uma forte relação com questões que dizem respeito ao corpo, especialmente de como o mesmo se comunica.

Seu Mestrado em Criação Artística Contemporânea na Universidade de Aveiro, efetivado em terras portuguesas, reforça essa peculiaridade de retratar o real a partir de elementos que lembram o fantástico, como é o caso das pinturas que comporão a mostra.

"Adoro a comunicação corporal. Por meio dela, além de estarmos em contato com a dinâmica física do outro, também entramos em comunhão com a nossa própria disposição material", contextualiza a artista.

"Corpóreos" aproveita-se disso, então, para, em oito quadros, pincelar a visão de Antónia sobre a vida fluida que se descortina a seus olhos. Não à toa, em uma de suas mais fortes criações, o espectador é convidado a encarar uma espécie de círculo íntimo, onde não é possível acessar as feições de nenhum rosto. Apenas os membros enovelando-se, num movimento de envergadura própria, como que detido apenas a si.

De acordo com a pintora, "é como observo a poética do corpo. Percebo que geralmente nossos gestos corporais são duros, muito fixos, então procuro dar essa graciosidade às imagens, retratando esse lado mais poético do físico, sem, no entanto, descaracterizar a proposta reflexiva".

Formato

Estruturalmente falando, Antónia aproveita-se do espaço mais reservado da Galeria Empório Embaixada da Cachaça para conferir um tom mais íntimo e de convite a quem se dispõe a observar as obras. Apesar do pequeno número de telas, a artista comenta que a intenção de fazer as pessoas pararem e observarem os trabalhos é certeira.

"Estamos todos nos movimentando numa velocidade tão grande que pouco aproveitamos o espaço ao redor para construirmos sentidos sobre nós mesmos. Nosso corpo não possui a educação de parar, então a exposição chega para exercer um pouco esse papel", esclarece a artista plástica.

Assim, entre a pintura e o design - suportes técnicos nos quais Antónia se baseia para desenvolver seus trabalhos - o que se destaca mesmo é a capacidade de, entre as feições etéreas decorrentes da pós-modernidade, resfolegar a figura híbrida e sólida de obras que marcam.

Ofício visual

Já tendo exposto em importantes eventos, especialmente em Portugal - como no Encontro Internacional de Ilustradores e durante uma exposição coletiva no Museu Regional de Oliveira de Azemés - Antónia Malau é licenciada em Pedagogia, tendo inclusive exposto no Brasil, no Salão dos Novos da Fundação Cultural de Fortaleza e no Espaço Cultural Mesa de Bar, também no Ceará.

Atualmente, continua desenvolvendo estudos na seara da composição pictórica, investindo em estudos que versam sobre amplas temáticas - com destaque para a representação visual do corpo.

Como matéria exclamativa, é essa entidade da qual somos feitos que, entre cores, texturas e linguagens cromáticas, nunca perde o fôlego para a artista: vai além. Fala. Grita. Urra.

Mais informações:

Exposição "Corpóreo". Vernissage hoje (27), às 19h, na Galeria Empório Embaixada da Cachaça (R. João Brígido, 1245, Joaquim Távora). Entrada franca. Visitação: de 10h às 23h (segunda a sexta) e de 10h às 17h, aos sábados. Telas à venda no local. Contato: (85) 3085-0428

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