Ensaio

Conceito, origem e história da crônica

00:00 · 11.10.2013
Apesar de termos ciência do longo caminho percorrido pela crônica até se firmar como gênero, todavia não sabemos ao certo em que momento se deu o seu surgimento em específico. Na literatura bíblica (1º e 2º livros das Crônicas), a crônica assume apenas o caráter de relato ou lista de acontecimentos ordenados em sequência cronológica, sem qualquer aprofundamento ou reflexão desses fatos. Com esse aspecto historiográfico, a crônica segue até o século XII quando "a partir da Renascença, o termo "crônica" cedeu vez a "história", finalizando, por conseguinte, o seu milenar sincretismo" (MOISÉS, 1967). Mas sobre seu surgimento, nossa desconfiança alia-se à desconfiança de Machado de Assis quando afirma: (Texto I)

Do literário

Foi exatamente no século que consagrou Machado de Assis, século XIX, o real período a partir do qual palavra crônica incorporou a acepção moderna, "onde liberta de sua conotação historicista, o vocábulo passou, assim, a revestir sentido estritamente literário" (MOISÉS, 1967). O mesmo Machado de Assis, grande escritor, notável como romancista e contista, foi um dos que se aventurou pelo mundo da crônica. Mais do que isso, Machado compunha pari passu à escrituração dos textos uma espécie de poética da crônica. Entremeados em suas próprias crônicas estavam rigorosas reflexões e pontuações teóricas com as quais Machado proporcionava aos seus leitores um voltar-se sobre o próprio fazer cronístico, além da natural fruição proporcionada pela literatura. Muitos outros escritores resolveram também dar sua contribuição no universo da crônica. Além de Machado de Assis também foram cronistas o escritores Lima Barreto, Raul Pompéia, Joaquim Manoel de Macedo e o romancista cearense José de Alencar. Este chegou a ter um espaço reservado no jornal carioca "Correio Mercantil" chamado "Ao correr da pena", onde escreveu crônicas entre os anos de 1854 e 1855. Escritores como Clarice Lispector, Cecília Meireles, Fernando Sabino, Raquel de Queirós, Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes foram também cronistas. Todos eles contribuíram para o enaltecimento e a consagração desse gênero. Eles não foram os beneficiados. Não ganharam com a crônica. A crônica ganhou com esses autores cuja grande contribuição foi torná-la célebre, respeitável, digna de se chamar literatura.

Apesar desse tributo pago a todos esses autores, foi, entretanto, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, semelhantemente a Machado de Assis um importante cronista, outro a contribuir teoricamente para o estudo e aprofundamento da discussão em torno desse gênero. Dentre outras contribuições, devemos a ele o esclarecimento sobre como se deu a relação da crônica com o jornal. (Texto II)

Outra roupagem

Enquanto esteve presa ao jornal, a crônica recebia a mesma fugacidade, a mesma dificuldade de permanência, o mesmo tom de efemeridade do jornal. O que era publicado tinha pertinência para aquele dia. O relevante texto de hoje transformava-se, muitas vezes no outro dia, em lixo. E a crônica impressa no jornal consequentemente tinha o mesmo destino. É na transposição para o livro, papel impresso permanente, e isso já na segunda metade do século XX, que a crônica, não disputando mais espaço com as notícias, se alforria, passando a ser reunida em coletâneas, tornando dessa forma possível a leitura de várias crônicas de um mesmo autor, numa mesma obra. E é novamente Drummond quem vai nos esclarecer esse tão importante momento: (Texto III)

A crônica somente pôde ganhar espaço e acesso à "mesa" dos críticos no instante em que, ultrapassando as barreiras do seu veículo original, no caso o jornal, conheceu a forma de livro. (F. G. R. )


Trechos

TEXTO I

"Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma, o que não pudera comer ao jantar;a outra que tinha a camisa mais ensopada que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica." (ASSIS, 1994)

TEXTO II

A crônica é fruto do jornal, onde aparece entre notícias efêmeras. Trata-se de um gênero literário que se caracteriza por estar perto do dia-a-dia, seja nos temas, ligados à vida cotidiana, seja na linguagem despojada e coloquial do jornalismo. Mais do que isso, surge, inesperadamente como um instante de pausa para o leitor fatigado com a frieza da objetividade jornalística. De extensão limitada, essa pausa se caracteriza exatamente por ir contra as tendências fundamentais do meio em que aparece. Se a notícia deve ser sempre objetiva e impessoal, a crônica é subjetiva e pessoal. Se a linguagem jornalística deve ser precisa e enxuta, a crônica é impressionista e lírica. Se o jornalismo deve ser metódico e claro, o cronista costuma escrever pelo método da conversa fiada, do assunto-puxa-assunto, estabelecendo uma atmosfera de intimidade com o leitor. (DRUMMOND, 1999)

TEXTO III

Eu devo esclarecer que muitas das crônicas escritas por mim não podem perdurar porque, em primeiro lugar, eu não as achei adequadas a formarem um livro, e depois porque o jornal, que é tão vivo no dia, é uma sepultura no dia seguinte. Então, essas coisas escritas ao sabor do tempo perdem completamente não só a atualidade como o sabor, o sentido, a significação . Então a crônica aborda um fato ou circunstância de vida de determinada pessoa perdeu completamente o sentido, porque essa própria pessoa perdeu o sentido. Então não é propriamente a crônica, é o acontecimento que ela reflete que perdeu a significação. (DRUMMOND, 1999)

FRANCISCO GEILSON ROCHA
Colaborador

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