Artes cênicas

Companhias de dança em festa

Festival de Dança do Litoral Oeste comemora 10 anos de atividades com lançamento de catálogo e espetáculos

"Estado de luta", da cearense Cia Bale Baião: edição deste ano inclui grupos e artistas locais, de outros estados e estrangeiros ( Foto: Lucas Soares )
00:00 · 09.08.2018
"Borda Infinita", da companhia baiana ExperimentandoNUS Cia de Dança ( Foto: Bruno de Jesus )

Seja para idealizadores, artistas convidados ou público, o momento é de celebrar a existência do Festival de Dança do Litoral Oeste. Considerado um dos principais espaços de divulgação do gênero no Estado, o evento destaca-se pela proposta de viabilizar a circulação dessa expressão artística, atendendo a produção local e firmando-se com um agente transformador da região onde atua.

Completando uma década de resistência, mobilização e difusão democrática da dança cênica no interior cearense, o evento chega a dez edições em 2018 com a mesma intensidade dos primeiros anos. Para comemorar o feito, além de catálogo impresso que esmiúça essa jornada, a plateia pode conferir apresentações gratuitas de artistas com reconhecida atuação neste campo.

De 9 a 11 de agosto, a cidade de Trairi se projeta como o grande palco aberto dessa festa. A primeira noite será dedicada ao lançamento do catálogo "Festival de Dança do Litoral Oeste: 10 anos em companhias". Posteriormente, o festival recebe, além de companhias cearenses, as visitas do grupo colombiano enNingúnlugar, com o espetáculo "Las Últimas Cosas" e os baianos da ExperimentandoNUS Cia de Dança, que estreiam nacionalmente "Borda Infinita".

As 10 edições do Festival de Dança do Litoral Oeste são um marco para arte produzida naquele pedaço do Ceará. Representam, assim, as mais de duas décadas de ações continuadas e permanentes em dança nas cidades de Itapipoca, Trairi e Paracuru. Unindo formação técnica, pesquisa, criação, montagem e difusão, as três cidades se dividem como sede do festival a cada ano.

"O evento consolida um percurso que estamos construindo, onde vários grupos e companhias se mobilizaram nos anos anteriores, não somente na produção de espetáculos, mas com formações em dança para crianças, jovens e educadores. Há toda uma atuação política, social, educativa e que gera um processo continuado", comemora o curador Gerson Moreno.

Essa memória é iluminada pelo catálogo comemorativo, que reúne imagens e depoimentos de parceiros e colaboradores. Na ocasião do lançamento, o Mestre Moisés, Mestre da Cultura / Tesouro Vivo do Ceará, apresenta-se com a Roda de Coco de Lagoa do Alagadiço.

Outro atrativo será a exibição do vídeo-documentário "Uma Década em Companhias", que organiza e resgata registros marcantes, falas de personagens envolvidos nessa história e recortes das edições montadas nos anos de 2006, 2014, 2015 e 2016.

Em um trecho do vídeo, a bailarina, coreógrafa e professora de dança Silvia Moura detalha algumas das razões do festival ser uma relevante célula de difusão da arte no Ceará.

"Super importante que se tenha um calendário da dança e que possamos pensar a dança durante todo o ano, que não fique restrita apenas à Capital. Esse festival vem desde o início concretizando a tendência da dança em se fortalecer nas regiões do litoral", pontua.

"Um festival como esse dá aos grupos e artistas, sobretudo os gestores, a possibilidade de perceber que é muito importante ter o evento e que este se mantenha sem interrupções. Movimenta o trabalho para diversas pessoas, a cidade e o turismo, não só a dança, mas a cidade gira em torno do festival e da sua realização", divide a artista.

Programação

dNa sexta-feira (10), o evento recebe três espetáculos de companhias cearenses. Quem abre a programação é a Paracuru Cia de Dança e a Escola de Dança de Paracuru que juntas apresentam "Bolero de Ravel", resultado do trabalho do Núcleo de Estudos Coreográficos da Escola, que recriou o mito da sedução a partir do estudo das obras de Maurice Béjart (1927-2007) e Ida Rubisntein (1883-1960).

 

Em seguida, acontece o espetáculo "Estado de Luta", da Cia Balé Baião de Itapipoca, que já trilha uma carreira de quase 25 anos. Com direção geral e coreografia de Gerson Moreno, este trabalho foi criado com o propósito de dançar para gerar diálogos sobre ser e fazer-se corpo em atuação política. Para isso, partiram das seguintes perguntas: "o que é ser corpo oprimido?" "O que é ser corpo opressor?" e "Como construir corpos em estado de luta frente à opressão?"

A atração seguinte é "Caiçaras Entre Linhas e Redes", com a Arreios Cia de Dança, de Trairi. A obra é um brinde aos trajetos, buscas e achados das mulheres e homens litorâneos de Trairi, onde o mar faz um convite à contemplação, à pesca, à festa e à reza. Também é uma celebração a resistência caiçara da companhia Arreios e seus 20 anos de existência.

A Academia de Artes Vânia Dutra, de Horizonte, também está no Festival e apresenta o espetáculo "O Quebra Cocos".

Quem encerra a segunda noite é o grupo colombiano enNingúnlugar com "Las Ultimas Cosas", sob direção de Luis Rubio. O trabalho investiga as necessidades predominantes, incoerentes e caprichosas que o ser humano apresenta ao se deparar com a ideia do fim de sua consciência.

Sequência

Primeiro dos quatro grupos a se apresentar na última noite do Festival, o Itinerário Formativo de Dança, da Escola de Artes de Sobral, traz "Pertenço", obra que conta com direção coreográfica de Rubens Lopes (Fortaleza) e direção dramatúrgica de Gerson Moreno, também responsável pela direção do Balé Baião.

De Salvador, a ExperimentandoNUS Cia de Dança faz a estreia nacional de "Borda Infinita", que comemora 10 anos de existência e produção em dança da companhia baiana.

Fortaleza participa com duas atrações. A primeira é "A Rua eh Noiz", da Cia de Dança Katiana Pena, cuja premissa é traduzir a periferia em cena, revelando a luta dos moradores de bairros e favelas.

Para tanto, esse cenário é elaborado sob os refletores da luz do sol e da lua, que iluminam uma batalha diária.

A outra é "Soluto", da Cia de Dança Ritmo Soul'to, que aborda uma pesquisa sobre o café e sua história antropológica, e aborda também a relação entre a química e o cotidiano, fazendo uma metáfora a partir do ingerir. Para encerrar a noite e o Festival, o público acompanha o show dos Tambores Afro Baião, de Itapipoca.

Sobre os nomes escolhidos para esta edição comemorativa, Moreno argumenta o quanto a seleção representa a filosofia do festival de unir realizadores comprometidos com a troca de saberes. A missão é sempre incluir artistas e companhias de dança que se identificam com esse pensamento. Diante de tal postura, já integraram o evento criadores de outros países da América Latina e da África.

Para Moreno, a postura de unir diferentes pensamentos e realidades significa agregar os pares e pensar a dança com uma comunidade. "Interessa a diversidade e as muitas feições da dança. Danças originárias que manifestam nossas raízes afro-indígenas. Acredito que esse seja o grande diferencial de pensar a dança como uma expressão territorial do que somos", finaliza.

Mais Informações:

10° Festival de Dança do Litoral Oeste. De 9 a 11 de agosto em Trairi. Espetáculos nos dias 10 e 11, a partir das 19h30, na Praça da Justiça (R. Fortunato Barroso, s/n, Trairi) Gratuito. Contato: (85) 3046.2744

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