Roger Ballen *Artista e fotógrafo

Como ver o único

Com "Ming Games" em cartaz no Museu da Fotografia Fortaleza, Ballen fala sobre aspectos de sua técnica fotográfica

00:00 · 08.09.2018 por Adriana Martins - Editora Assistente
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"Com as minhas fotos, quero penetrar o inconsciente das pessoas", afirma Ballen

Como é seu processo criativo?

É um tanto enigmático. Eu nunca penso na imagem antes de fazê-la e raramente penso nela depois de pronta. As melhores fotos são aquelas que não compreendo. Então, quando chego em um lugar, tento encontrar um ponto de partida - pode ser uma marca na parede, uma pessoa que entra no recinto, um desenho que eu ou outra pessoa faz, ou fazemos juntos, e a partir daí construímos a foto. Minhas fotografias, acho, podem ser comparadas a pinturas. Se você olhar pinturas, pode haver milhares de pinceladas; se olhar para minhas fotos, diria que há milhares de decisões feitas antes mesmo de eu pegar a câmera. Então não é uma coisa só, é uma integração de muitos elementos visuais diferentes que se combinam em determinado momento. E quase todos não são planejados antes de eu chegar lá. O que sou, primordialmente, é um organizador visual, uma pessoa que pega caos visual e transforma em ordem visual.

Todo item que compõe o cenário tem um significado previamente imaginado?

Frequentemente me perguntam sobre as pessoas que fotografo ou que estão diretamente relacionadas às fotografias. É algo engraçado porque, pelos últimos 15 ou 20 anos, não são necessariamente as pessoas que dominam as fotografias - os desenhos - e, sim, os animais. Então, se você me pergunta o que os animais sentem, se eu os dirijo, diria que meio que sim e meio que não. Não tenho certeza se seria algo bom, eu poderia dirigi-los, mas apenas deixo o que têm que fazer, e assim acho o caminho até a foto. Isso às vezes acontece quando o cachorro abre a boca, quando o pássaro voa pelo local ou quando o rato entra no buraco, mas eu não necessariamente os dirijo, nem as pessoas com quem trabalho. Em relação às pessoas, às vezes as dirijo, às vezes elas mesmas se dirigem. E se você olhar para várias das minhas fotos, é uma posição dos olhos, um dente na boca, uma maneira de posicionar a mão que ajuda a construir a imagem. Essas coisas são totalmente imprevisíveis, mas são o que fazem as fotos. São as pequenas coisas nas imagens que fazem a coisa maior, e nunca se deve esquecer disso. As pessoas estão sempre observando o "grande momento", mas é a integração desses pequenos momentos que fazem a foto autêntica.

Porque trabalhar com fotografia em preto e branco?

Faço parte da última geração de fotógrafos nascidos em um mundo onde a fotografia preto e branco era predominante. Muitas pessoas hoje não sabem revelar um filme ou sequer encontrar papel fotográfico. Então, sinto uma elegância, um orgulho de set um fotógrafo preto e branco. Gosto do preto e branco por algumas razões: primeiro, é muito reduzido e puro, algo que se aproxima do meu trabalho como um todo; segundo, é uma mídia abstrata, não necessariamente contempla ou revela o mundo da maneira que é, não diz que o mundo é desse ou daquele jeito. Diz: 'esse é um mundo especial', e eu gosto dessa ideia. O trabalho que tenho desenvolvido ao longo dos anos é sinônimo com a mídia preto e branco. Mas também devo mencionar que, no último ano, tenho feito trabalho em cores, e pela primeira vez em toda a minha carreira vou mostrá-lo nessa exibição em Fortaleza. Estou muito orgulhoso dele, é um grande salto no que faço e as pessoas aqui vão poder ver isso em primeira mão. Eu mesmo vi algumas das minhas fotos em cores emolduradas pela primeira vez ontem, e estão maravilhosas.

Você conhece as pessoas que fotografa? Qual sua relação com elas?

Muitas das pessoas que fotografei há décadas constantemente me mandam mensagens, então, sim, conheço bem muitas delas e mantemos contatos. Outras só conheci uma vez e consegui uma boa foto, ou não. Sempre menciono que conhecer pessoas não necessariamente resulta em boas fotos. Uma câmera não tem ouvidos, então não importa o que elas dizem, não há efeito na fotografia. Mas eu as conheço porque nos tipos de lugares onde fotografei, se não há uma boa relação com as pessoas, você pode não durar. Alguns lugares na África do Sul e em alguns locais do Brasil são bem violentos e têm significativa pobreza. Se você não se entender com as pessoas e elas não sentirem que estão se beneficiando com sua presença, pode perder seu equipamento, no mínimo, e talvez se machucar. Então, estabeleço uma relação boa e profunda com muitas das pessoas e deixo claro que minha presença é uma via de mão dupla, que eu e elas podemos nos beneficiar. Tento sempre manter isso em mente e respeitar essa postura. É ela que me permitiu fotografar nos lugares onde estive.

Em "Platteland", você fotografou os chamados "brancos marginalizados" nos EUA. Esse conceito de marginalidade ainda é fundamental nas séries seguintes, como "Outland" e "Shadow Chamber"? Ou essa visão deu mais espaço a outros, como beleza, grotesco, horror, imaginação?

Fotografei os "brancos marginalizados" em "Platelland", mas a estética se construiu nos trabalhos seguintes, "Outland" e "Shadow Chamber". Uma pessoa pode achar que essas crises que fotografo estão na periferia da sociedade, mas em última análise estão na periferia da mente e a razão das pessoas se identificarem com essas fotos dessas chamadas 'imagens de marginalização' é que elas compreendem inconscientemente que também são marginalizadas à sua própria maneira. Faz parte da condição humana, não somos capazes de organizar o caos e a incerteza ao nosso redor, e isso causa ansiedade. Acho que minhas fotografias extraem essa emoção que as pessoas tendem a esquecer ou reprimir. Então é importante compreender que minhas imagens são metáforas da condição humana, não necessariamente documentos sobre o que está acontecendo na África do Sul, entre populações marginalizadas.

Uma vez que as imagens são exibidas ao público não há maneira de controlar o processo de interpretação. Como você lida com isso?

Fico muito feliz se minhas imagens são consideradas enigmáticas. Acredito que, se pudessem ser descritas em palavras, seriam ruins. Então, precisa haver um caráter de limite, de ousadia, algo inexplicável, mas ao mesmo tempo que penetre o inconsciente das pessoas e fique lá embutido na mente, que provoque. Isso é o importante no meu trabalho. As fotos devem ser inexplicáveis em muitas maneiras, não devem ser óbvias. Esse é o problema com muitos fotógrafos hoje, com trabalhos que dizem às pessoas o que elas já sabem. Minhas fotos devem fazê-las pensar sobre elas mesmas e não algo que pode facilmente ser colocado numa caixa e ignorado.

Mais informações:

"Mind Games", do fotógrafo Roger Ballen. No Museu da Fotografia Fortaleza (Rua Frederico Borges, 545 - Varjota) Abertura e palestra neste sábado (8), às 14 horas. Visita mediada: 10h (inscrições pelo sympla.Com.Br). Censura: 16 anos. Contato: (85) 3017.3661

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