OPINIÃO

Como dançar juntos?

19:47 · 03.02.2007
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O compromisso analítico vem conquistando espaço significativo no panorama da dança no Ceará. A seguir, Joubert Arrais comenta a novidade

A dança é um fenômeno artístico complexo, com especificidades, atualmente em processo de consolidação como área de conhecimento autônoma. Mas ainda há quem insista em tratá-la apenas como atividade estética ou apenas socializante. Apesar disso, iniciativas locais na área têm feito (alguma) diferença. A questão agora é adjacente. Se é, sim, possível falar de uma dança “cearense”, tal atitude vislumbra outra: temos de descobrir o que está faltando para a rede acontecer. Quero dizer, por que não há emergência no ambiente dança-Ceará, um vir-à-tona?

Primeira provocação: insuficiência de apoio para artistas desenvolverem suas pesquisas. A peleja de quem insiste em dançar é grande, principalmente nos municípios do Interior. Não há uma companhia oficial, e as independentes sobrevivem do esforço pessoal de seus gestores. Novos coreógrafos fazem milagres, mas correm o risco do engessamento criativo. Estudantes iniciantes estão desamparados e, por isso, vítimas fáceis de uma dança parada-no-tempo ou cansada-de-luta.

Eis a segunda provocação: falta de continuidade das pesquisas artísticas. Os ditos editais são pensados genericamente e dão pouca atenção às especificidades que a dança têm. O da Prefeitura de Fortaleza tem a categoria “manutenção de grupos”, o que já um bom indício. A realidade é que, sem apoio suficiente, cada um arranja um jeito seu. Porém, um dia se cansa, não só eles: a obra e o público idem.

Daí chego ao ponto decisivo para a dança no Ceará hoje, que é a ausência de uma graduação que dialogue com a realidade da Capital e do Interior do Estado. Houve a tentativa (privada) da Universidade Gama Filho, mas pouco se sabe porque não vingou. Maceió já tem uma licenciatura e é pública (UFAL), recém-criada e a segunda do Nordeste. A primeira foi Salvador (UFBA), pioneira no Brasil, com 50 anos completos em 2006, atualmente com projeto pedagógico reformulado. Aqui do lado, Natal está no caminho, pela UFRN.

Enquanto isso, nossas pesquisas acadêmicas, não muitas, são formuladas em ambientes não-específicos como educação, ciências sociais, filosofia e comunicação (área historicamente mais porosa). Podem contribuir, sim, para a autonomia da dança como área de conhecimento, mas se for rumo à ações desatreladas do esporte e do teatro. E, essencialmente, sinalizam para uma demanda social existente, diretamente ligada à qualificação do discurso sobre dança – ensino, criação e crítica. Fortaleza pode começar nos trilhos certos. E ai, o que (nos) falta?

Mais uma provocação: os eventos. O desafio é evitar festivais-vitrines, montados com programação de espetáculos e uma atividade aqui, outra acolá. De encontro a isso, o fundamental é repensar o formato, fora do habitual modelo de palestra, mesa redonda, conferência ou seminário expositivos. Algo que estimule e promova diariamente tanto a troca entre artista, como também entre artistas, interessados e críticos.

A última (aqui) provocação: em terra de cego quem tem olho é rei. A carência de informação de dança é fato, principalmente porque depende de um acesso e de uma distribuição não tratados como prioridade nas políticas públicas vigentes no nosso país. Mas não é um top-down que vai resolver, nem uma única forma de pensar a dança. Noutra via, é na diversidade de saberes e no conhecimento local que podemos encontrar as “respostas” que, certamente, nos conectará com o global.

Para tanto, explica a pesquisadora Helena Katz, há dois pontos cruciais que precisam ser acordados em qualquer conversa sobre dança. Independente do entendimento escolhido, lembrar de “nunca reduzir a dança ao efeito que ela produz em nós; nem ignorar que toda escolha – incluindo a de não tratar a dança com a propriedade que qualquer objeto de estudo pede – tem conseqüências políticas, lógicas, éticas e estéticas”.

Enfim, como descobrir por que a rede não acontece, por que não há emergência em refletir coletivamente sobre os entraves na cena e na experiência cearense, vindos sobretudo da ignorância de certas partes que desafirmam – ou simplesmente não aceitam – a intelectualidade da dança. Para se ter boas e suficientes condições de existência, devemos insistir, sim, nesse caminho. Juntos.

JOUBERT ARRAIS
Colaborador

* Joubert Arrais é jornalista, crítico de dança, dançarino-criador e mestrando em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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