'Rock N' Roll Sugar Darling'

Com afeto, afetação e sem frescura

Com influências do glam rock e do punk, Thiago Pethit faz um dos lançamentos mais autênticos do ano

00:00 · 07.12.2014
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Thiago Pethit reverencia seus ídolos como Iggy Pop, Nancy Sinatra, Lou Reed, Elvis e Joe Dallesandro

Terceiro registro de estúdio, "Rock'N'Roll Sugar Darling" (disponível para audição gratuita aqui: https://soundcloud.Com/thiagopethit) é um delicioso mergulho em uma das vertentes musicais mais criativas, glamourosas e subestimadas (!) do rock. Mesmo com um som poderoso e cheio de personalidade, a ousadia de seus personagens para se impor dentro e fora dos palcos e literalmente muito brilho no figurino, o glam (ou glitter rock) acabou sendo rotulado por muitos como "rock gay", associado e fadado à androginia, à afetação, ao visual, como se a mensagem e a música propriamente dita não tivessem sido relevantes - o que não é bem o caso.

Indo bem mais além dessa visão reducionista, Thiago Pethit não só resgata o gênero, que andava de mãos dadas com o punk no início dos anos 70, como faz uma provocação aos resquícios machistas, homofóbicos e retrógrados no rock atual, este especificamente uma alusão aos recentes episódios em que Lobão adotou um discurso conservador agressivo. "O rock nunca esteve tão hétero, machista, branco e de direita, especialmente o nacional", indigna-se.

Produzido por Kassin e Adriano Cintra (ex-CSS), o álbum propõe uma crítica sem recalque, um candy rock abusado e sexual, como já sugere "Romeo" - ode ao amor bandido, primeiro single que ganhou clipe de alma "easy rider". Ou mesmo como a canção-tema já sugere: "Doce como açúcar, explode na sua boca, vem chupar meu rock n' roll".

A repercussão tem sido bem calorosa. Pethit inovou ao investir no glam, segmento pouco explorado no Brasil, mas com uma leitura moderna e genuína. A roupagem clássica, com guitarras rockabilly e tambores à la Bo Diddley, convivem com batidas eletrônicas, elementos digitais e samples. Explica-se daí, talvez, essa aura de ineditismo, que tem agradado fãs, crítica e curiosos. Mas a verdade é que o artista não reivindica papel de pioneirismo, ele só acredita no "rock enquanto conceito, atitude, sexualidade e transgressão".

Fora do padrão

"Lógico que não sou o primeiro artista do mundo a fazer isso. Existem muitos outros mundo afora fazendo algo parecido, só que os de hoje não têm a mesma visibilidade dos de antigamente. Por um lado me surpreendo com essa recepção, que ele (o álbum) tenha entrado naturalmente na playlist das pessoas. E é um disco que a nossa geração não está acostumado a ouvir, talvez por isso essa coisa da novidade. Quis fazer uma provocação, fugir do óbvio, do padrão. Por outro lado, eu esperava essa aceitação por existir uma lacuna na música brasileira, essa carência de ouvir coisas diferentes", opina.

Sobre as referências do trabalho, para quem gosta dessa galera old school do rock, é um prato cheio. "Bowie nem cito como influência, porque já é uma influência para uma vida inteira, um artista que gosto muito, vanguardista, que me inspira muito mais além da música. Já Iggy Pop, Velvet Underground, Lou Reed e Elvis Presley influenciaram, diretamente nesse álbum, no 'fazer música', na composição das estruturas harmônicas, melódicas. Há trechos literais de letras de sucessos", conta ele, citando "Eu quero ser seu cão", óbvia alusão a "I wanna be your dog", hit dos Stooges; além "De trago em trago", homenagem à diva Nancy Sinatra.

Participação especial

Mas um dos maiores luxos e trunfos do disco é a participação de Joe Dallesandro, ex-michê e ator-fetiche da lendária Factory, o estúdio artístico non sense de Andy Warhol, logo na introdução. "As pessoas precisam de um rockstar que batalhe nas mesmas ruas que elas. Precisam de um anjo sujo", diz o ícone underground dos anos 60. Dallesandro modelo da capa de discos dos Rolling Stones ("Sticky Fingers", de 1971) e dos Smiths ("The Smiths", de 1984), conhecido ainda como o Little Joe da canção "Walk on the Wild Side", de Lou Reed. Em "Honey Bi", sua voz volta a ecoar.

Sem rodeios

Pethit crê que cada álbum é um recorte de sua vida. "Acho que a música é um reflexo de um tempo, especificamente do meu momento, no Brasil e no mundo. Cada trabalho é bem diferente do outro, é um retrato meu de uma época. E tem ainda essa questão de mercado, financeira, que não dá também para desvincular. Sou também um reflexo da música brasileira, a exemplo de 'Berlim, Texas' (2010), mais vazio. Sem poder pagar, tive que escolher uma linguagem estética mais mercadológica, a que era mais vigente na época, ainda que tenha conseguido fazer um disco simples, com poucos instrumentos, mas arranjos bonitos e sofisticados. De lá para cá, pude arcar com projetos mais ambiciosos. Eu já poderia inclusive ter feito esse disco antes", destaca.

Sem firulas, Pethit define "Rock N' Roll Sugar Darling" como um trabalho dançante e certamente visual. "Ele tem um apelo claramente dançante, de balada, mais do que escutar contemplando. Me inspirei nas trilhas dos filmes de David Lynch. Gosto dele porque ele tem essa visão muito cínica e aterrorizante, trabalha essa questão dos ícones, mitos do cinema ou da música, mas lida como se fossem fantasmas que a qualquer momento fossem ressurgir", explica. E quem não tem os seus?

Juliana Colares
Editora Assistente Web

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