Coluna

Paulo Coelho: Trazendo Deus para a vida real

00:00 · 18.03.2017

Muitas vezes vemos a busca espiritual como algo distante da nossa realidade, e nada pode ser mais equivocado que esta atitude; Deus está em tudo que nos cerca, e muitas vezes nós só O servimos quando estamos ajudando o nosso próximo. A seguir, algumas histórias a respeito.

Os erros do passado

Durante uma viagem, Buda encontrou um yogue apoiado numa perna só. "Queimo os erros do meu passado", explicou o homem.

"E quantos erros já queimou?".

"Não tenho a menor ideia".

"E quanto falta queimar?", insistiu Buda.

"Não tenho a menor ideia".

"Então é hora de acabar com isto. Pare de pedir perdão a Deus, e vá pedir perdão a quem você feriu".

Dando o exemplo

Perguntaram a Dov Beer de Mezeritch:

"Qual o melhor exemplo a seguir? São os homens piedosos, que dedicam sua vida a Deus? São os homens cultos, que procuram entender a vontade do Altíssimo?".

"O melhor exemplo é a criança", respondeu.

"A criança não sabe nada. Ainda não aprendeu o que é a realidade", foi o comentário geral.

"Vocês estão muito enganados, porque ela possui três qualidades que nunca devíamos nos esquecer", disse Dov Beer. "Está sempre alegre sem razão. Está sempre ocupada e entusiasmada com o que está fazendo. E quando deseja qualquer coisa, sabe exigi-la com insistência e determinação".

A prece e as crianças

Um pastor protestante, depois de constituir família, não tinha mais tranquilidade para orar. Certa noite, ao ajoelhar-se, foi perturbado pela brincadeira das crianças na sala.

"Manda os meninos ficarem quietos!", gritou.

Assustada, a mulher obedeceu. Desde então, sempre que o pastor chegava em casa, todos ficavam em silêncio e o pastor rezava. Mas sentia que Deus não o escutava mais.

Uma noite, no meio da prece, perguntou ao Senhor: "o que está havendo? Tenho a paz necessária, e não consigo orar!".

E um anjo respondeu: "Ele escuta palavras, mas não escuta mais os risos. Ele nota a devoção, mas não vê mais a alegria".

O pastor levantou-se, e de novo gritou para a mulher: "Manda as crianças brincarem! Elas fazem parte da reza!".

E suas palavras tornaram a serem ouvidas por Deus.

O que dirão de você

Quando jovem, Abin-Alsar escutou uma conversa do seu pai com um dervixe.

"Cuidado com suas obras", disse o dervixe. "Pense no que as gerações futuras irão falar de você".

"E daí?", respondeu o pai, "Quando eu morrer, tudo estará acabado, e não me importa o que dirão".

Abin-Alsar jamais esqueceu a conversa. Durante toda a sua vida, esforçou-se para fazer o bem, ajudar as pessoas e executar seu trabalho com entusiasmo. Tornou-se um homem conhecido por sua preocupação com os outros; ao morrer, tinha deixado um grande número de obras melhorarem o nível de vida de sua cidade.

Em seu túmulo, mandou gravar o seguinte epitáfio:

"Uma vida que termina com a morte, é uma vida que não valeu a pena".

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