Coluna

Paulo Coelho: Quatro histórias da Cristandade

00:00 · 13.05.2017 / atualizado às 03:00
No caminho de cada um – O pastor Olivier era considerado o mais inspirado pregador das redondezas. Falava como se tivesse contato com Deus.

“Nada pior do que tentar repetir o comportamento dos grandes, se você não tiver a mesma disposição para agir que eles tiveram”, dizia Olivier.

Quando morreu, seu filho Andrew ocupou o lugar. Os paroquianos ficaram preocupados; seria difícil suceder um homem tão conectado com Deus. E, querendo dar um pouco de apoio moral ao jovem, uma mulher tentou consolá-lo.

“Lembre-se que você deve seguir seu próprio caminho”, disse ela. “Jamais tente ser igual ao seu pai”.

“Ao contrário; eu sou exatamente como meu pai”, respondeu Andrew. “Ele nunca tentou me imitar; por causa disso, eu jamais tentarei imitá-lo”.

E os paroquianos tiveram certeza de que estavam diante de um grande pregador.

Também estou lá fora

Na parábola do Filho Pródigo, o irmão que sempre obedeceu ao pai fica indignado ao ver que o filho rebelde é recebido com festa e alegria. Da mesma maneira, muitas pessoas obedientes à palavra do Senhor, terminam se transformando em carrascos impiedosos daqueles que algum dia se afastaram da Lei.

Na pequena cidade do interior, um conhecido pecador foi impedido de entrar na igreja.

Indignado, começou a rezar: “Jesus, me escuta. Não querem me deixar entrar em sua casa, porque acham que não sou digno”.

“Não se preocupe, meu filho”, respondeu Jesus. “Eu também estou do lado de fora, junto com aqueles com quem sempre estive – os pecadores como você”.

Seguindo o impulso

O padre Zeca, da Igreja da Ressurreição em Copacabana, conta que certa vez estava em um ônibus, quando de repente escutou uma voz dizendo que ele devia levantar-se e pregar a palavra de Cristo ali mesmo.

Padre Zeca começou a conversar com a voz: “vão me achar ridículo, isto não é lugar para sermão”, disse.

Mas algo dentro dele insistia, era preciso falar. “Sou tímido, por favor não me peça isto”, implorou.

O impulso interior persistia.

Então ele lembrou-se de sua promessa - abandonar-se a todos os desígnios de Cristo. Levantou-se, morrendo de vergonha, e começou a falar do Evangelho. Todos escutaram em silêncio. Ele olhava cada passageiro, e eram raros os que desviavam os olhos.

Disse tudo que sentia, terminou seu sermão, e sentou-se de novo. Até hoje não sabe que tarefa cumpriu naquele momento; mas tem absoluta certeza de que cumpriu uma tarefa.

Do apostolado

Do monge Thomas Merton, no livro “Obra Aberta”:

“O verdadeiro apóstolo não se preocupa em pregar uma doutrina, liderar um movimento, recrutar homens para uma organização; ele apenas fala de Deus, e o resto vem por acréscimo’’.

‘‘O apóstolo não tem ambições de converter ninguém, não quer usar fórmulas já gastas, não tenta vender o que não tem preço, não se glorifica, não se desculpa. Ele está pregando apenas por amor. Esta é sua forma de expandir o êxtase que sente na presença de Cristo’’.

“Um apóstolo possui uma fé tão profunda, que mesmo que ninguém acreditasse, ele continuaria pregando”.

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