Artigo

Paulo Coelho: "O problema dos outros"

00:00 · 05.11.2016

Era uma vez um sábio muito conhecido, que vivia em uma montanha do Himalaia. Cansado de conviver com os homens, havia escolhido uma vida simples, e passava a maior parte do tempo meditando.

Sua fama, porém, era tão grande, que as pessoas estavam dispostas a andar por caminhos estreitos, subir colinas escarpadas, vencer rios caudalosos - apenas para conhecer aquele homem santo, que acreditavam ser capaz de resolver qualquer angústia do coração humano.

O sábio, como era um homem cheio de compaixão, dava um conselho aqui, outro ali, mas procurava livrar-se logo dos visitantes indesejados. Mesmo assim, eles apareciam em grupos cada vez maiores, e certo dia uma multidão bateu à sua porta, dizendo que lindas histórias a seu respeito haviam sido publicadas no jornal local, e todos estavam certos que ele sabia como superar as dificuldades da vida.

O sábio não disse nada; pediu que sentassem e esperassem. Três dias se passaram, e mais gente chegou. Quando não havia espaço para mais ninguém, ele dirigiu-se ao povo que estava diante de sua porta:

- Hoje vou dar a resposta que todos desejam. Mas vocês prometem que, assim que tiverem seus problemas solucionados, dirão aos novos peregrinos que me mudei daqui - de modo que possa continuar a viver na solidão que tanto almejo. Se insistirem em saber para onde fui, vocês ensinarão o ritual que estou prestes a fazer - de modo que ninguém possa se queixar de que a verdadeira sabedoria é inacessível.

Homens e mulheres fizeram um juramento sagrado; se o sábio cumprisse o prometido, eles não deixariam mais nenhum peregrino subir a montanha.

- Digam-me seus problemas - pediu o sábio.

Alguém começou a falar, mas foi logo interrompido por outras pessoas - já que todos sabiam que aquela era a última audiência pública que santo homem estava dando, e tinham medo que ele não tivesse tempo de escutá-los. Minutos depois, a confusão estava criada; muitas vozes gritando ao mesmo tempo, gente chorando, homens e mulheres arrancando o cabelo de desespero, porque era impossível fazer-se ouvir.

O sábio deixou que a situação se prolongasse um pouco, até que gritou:

- Silêncio!

A multidão calou-se imediatamente.

- Sentem-se no chão, e esperem!

Todos obedeceram. Ele entrou na sua pequena cabana, e logo retornou com folhas de papel, lápis, e uma cesta de vime. Distribuiu o papel, pediu que cada um escrevesse o seu pior problema, dobrasse em quatro, e colocasse na cesta.

Quando todos terminaram, o sábio recolheu a cesta, e a sacudiu bastante, de modo que os papéis se misturassem.

Em seguida, devolveu-a a multidão, dizendo calmamente:

- Passem esta cesta por todos; que cada um tire o papel que está em cima, leia o que foi escrito. Se vocês quiserem, podem escolher entre passar a ter o problema que está escrito, ou pedir ao outro que lhes entregue aquilo que colocaram na cesta.

Cada um dos presentes pegou uma das folhas de papel, leu, e ficou horrorizado. Concluíram que aquilo que tinham escrito, por pior que fosse, não era tão sério como o que afligia o seu vizinho. Duas horas depois, tinham trocado todos os pedaços de papel, e cada um tornou a colocar no bolso aquilo o seu problema pessoal, aliviado por saber que sua aflição não era tão dura como imaginava.

Agradeceram a lição, desceram a montanha com a certeza de que eram mais felizes que os outros, e - cumprindo o juramento feito - nunca mais deixaram que ninguém perturbasse a paz do santo homem.

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