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Paulo Coelho: O limite do desejo

00:00 · 19.11.2016

Um imperador, que era conhecido pela sua arrogância e pelo fato de só fazer o bem quando isso trazia bons dividendos políticos, resolveu dar uma volta pela capital do reino.

- Vamos mostrar ao povo que eu sou um homem bom - disse aos nobres que o acompanhavam.

Caminharam por algumas ruas da cidade, seguidos pela multidão que sempre se juntava ao redor da comitiva, até que encontraram um mendigo.

- O que você precisa, pobre homem? - perguntou o imperador.

O mendigo riu:

- Vossa Alteza me faz esta pergunta, como se pudesse satisfazer qualquer coisa!

Escutou-se um murmúrio na multidão; aquele homem, vestido de andrajos e com uma bolsa vazia ao lado, duvidava da capacidade de alguém tão poderoso! Irritado, o imperador repetiu:

- O que você quer? Claro que eu posso satisfazer qualquer desejo seu, já que não deve ter sido um homem muito ambicioso nesta vida!

- Pense duas vezes antes de me perguntar isso - insistiu o mendigo.

O soberano, agora mais irritado que nunca, fez a pergunta mais uma vez.

- Na verdade, o meu desejo é bem simples. Está vendo esta bolsa vazia que carrego comigo? Pois gostaria que colocasse alguma coisa aí dentro.

- Claro! - disse o soberano. E virando para seu conselheiro, pediu que enchesse a pequena bolsa de moedas. Escutou-se de novo o murmúrio da multidão, louvando a Deus por ter colocado um homem tão generoso no comando do país.

O conselheiro pegou o dinheiro que tinha consigo, e colocou na pequena bolsa, mas ela parecia continuar vazia. Surpreso, o imperador pediu ajuda aos nobres que acompanhavam, mas - mesmo depois de toda a comitiva ter esvaziado seus bolsos e sacolas - a bolsa não dava sinais de encher.

A história correu pelas praças e ruas das redondezas, e a multidão aumentou cada vez mais. Agora era o prestígio do imperador que estava em jogo, e ele se virou para o ministro:

- Se precisar colocar todo o meu reino aí dentro, farei isso, mas não posso ser humilhado por um mendigo.

O ministro foi até o palácio, trouxe diamantes, pérolas, e esmeraldas, mas a bolsa não enchia. Tudo que era ali colocado parecia desaparecer num passe de mágica.

A manhã se fez tarde, e a noite começou a cair. Metade do tesouro do governo já havia sido colocado na bolsa do mendigo, e nada.

A esta altura, praticamente toda a cidade acompanhava a cena, mas não se escutava um só ruído; todos pareciam hipnotizados pelo que estava acontecendo.

Finalmente, quando a primeira estrela apareceu, o soberano ajoelhou-se diante do mendigo, e admitiu sua derrota.

- Vim aqui para tentar convencer os outros que sou um homem generoso, e terminei sendo convencido que não tenho nenhum poder. Peço perdão pela minha arrogância, mas também peço que me abençoes, porque és um homem santo, capaz de milagres.

O mendigo colocou as mãos na cabeça do homem ajoelhado e o abençoou.

- Basta um grão de amor para que o coração fique repleto; entretanto, nem toda riqueza do mundo pode encher de alegria um coração com fome de amor.

O imperador levantou-se, e antes de retornar ao palácio, perguntou ao mendigo:

- É esse o segredo da tua bolsa?

- Não. Minha bolsa é feita do desejo humano: por mais que tenha, sempre quer ter mais, e por isso permanece vazia.

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