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Paulo Coelho: Enfrentar ou escapar

00:00 · 30.12.2017

A arte da retirada - Um guerreiro da luz que confia demais na sua inteligência, acaba por subestimar o poder do adversário.

É preciso não esquecer: há momentos em que a força é mais eficaz que a sagacidade. E quando estamos diante de certo tipo de violência, não há brilho, argumento, inteligência, ou charme que possam evitar a tragédia.

Por isso, o guerreiro nunca subestima a força bruta: quando ela é agressiva irracionalmente, ele se retira do campo de batalha - até que o inimigo desgaste sua energia.

Entretanto, é bom deixar bem claro: um guerreiro da luz nunca se acovarda. A fuga pode ser uma excelente arte de defesa, mas não pode ser usada quando o medo é grande.

Na dúvida, o guerreiro prefere enfrentar a derrota e depois curar suas feridas - porque sabe que, se fugir, está dando ao agressor um poder maior do que ele merece.

Ele pode curar o sofrimento físico, mas será eternamente perseguido por sua fraqueza espiritual. Diante de alguns momentos difíceis e dolorosos, o guerreiro encara a situação desvantajosa com heroísmo, resignação, e coragem.

Para atingir o estado de espírito necessário (já que está entrando em uma luta com desvantagem, e pode sofrer muito), o guerreiro precisa entender exatamente aquilo que poderá lhe fazer mal. Okakura Kakuso comenta em seu livro sobre o ritual japonês do chá:

"Nós olhamos a maldade nos outros, porque conhecemos a maldade através de nosso comportamento. Nós nunca perdoamos aqueles que nos ferem, porque achamos que jamais seríamos perdoados. Nós dizemos a verdade dolorosa ao próximo, porque a queremos esconder de nós mesmos. Nós mostramos nossa força, para que ninguém possa ver nossa fragilidade".

"Por isso, sempre que estiver julgando o seu irmão, tenha consciência de que é você quem está no tribunal".

Às vezes, esta consciência pode evitar uma luta que só trará desvantagens. Outras vezes, porém, não existe saída, apenas o combate desigual.

Sabemos que vamos perder, mas o inimigo, a violência, não deixou nenhuma outra alternativa - exceto a covardia, e isso não nos interessa. Neste momento, é preciso aceitar o destino, procurando manter em mente um texto do fabuloso Bhagavad Gita (Capitulo II, 16-26):

"O homem não nasce, e também nunca morre. Tento vindo a existir, jamais deixará de fazê-lo, porque é eterno e permanente".

"Assim como um homem descarta as roupas usadas e passa usar roupas novas, a alma descarta o corpo velho e assume o corpo novo".

"Mas ela é indestrutível; espadas não podem cortá-la, o fogo não a queima, a água não a molha, o vento jamais a resseca. Ela está além do poder de todas estas coisas".

"Como o homem é indestrutível, ele é sempre vitorioso (mesmo em suas derrotas), e por isso não deve lamentar-se jamais".

O mestre e o combate

O mestre de aikidô exigia treinamentos intensivos, mas jamais liberava seus alunos para competições com outras academias de artes marciais. Todos reclamavam entre si, mas ninguém tinha coragem de comentar o assunto em aula.

Até que, certa tarde, um dos rapazes ousou perguntar:

- Temos nos dedicado com todo o nosso coração ao estudo de aikidô. Entretanto, jamais saberemos se somos bons ou mau lutadores, porque não podemos enfrentar ninguém de fora".

- Que vocês jamais precisem saber - respondeu o mestre. - O homem que deseja brigar, perde sua ligação com Universo. Nós estamos aqui estudando a arte de resolver os conflitos, e não de iniciá-los.

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