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Paulo Coelho: Duas histórias sobre montanhas

00:00 · 15.07.2017

Aqui onde estou: depois de ter vencido muitos concursos de arco e flecha, o campeão da cidade foi procurar o mestre zen.

- Sou o melhor de todos - disse. - Não aprendi religião, não procurei ajuda dos monges, e consegui chegar a ser considerado o melhor arqueiro de toda região. Soube que, durante uma época, o senhor foi o melhor arqueiro da região, e pergunto: havia necessidade de virar um monge para aprender a atirar?

- Não - respondeu o mestre zen.

Mas o campeão não se deu por satisfeito: retirou uma flecha, colocou em seu arco, disparou, e atingiu uma cereja que se encontrava muito distante. Sorriu, como quem diz: "o senhor podia ter poupado o seu tempo, dedicando-se apenas à técnica." E disse:

- Duvido que o senhor repita isso.

Sem demonstrar a menor preocupação, o mestre entrou, pegou seu arco, e começou a caminhar em direção a uma montanha próxima. No caminho, existia um abismo que só podia ser cruzado por uma velha ponte de corda apodrecida, quase despencando: com toda a calma, o mestre zen foi até o meio da ponte, tirou seu arco, colocou a flecha, apontou uma árvore do outro lado do despenhadeiro, e acertou o alvo.

- Agora é você - disse gentilmente para o rapaz, enquanto voltava para terreno seguro.

Aterrorizado, olhando o abismo aos seus pés, o jovem foi até o lugar indicado, atirou, mas sua flecha aterrizou muito distante do alvo.

- Para isso valeu a disciplina e a prática da meditação - concluiu o mestre, quando o rapaz voltou para o seu lado. - Você pode ter muita habilidade com o instrumento que escolheu para ganhar a vida, mas tudo isso é inútil, se não consegue dominar a mente que utiliza este instrumento.

Contemplando o deserto

Três pessoas que passavam em uma pequena caravana, viram um homem contemplando o entardecer no deserto de Saara do alto de uma montanha.

- Deve ser um pastor que perdeu uma ovelha, e procura saber onde está - disse o primeiro.

- Não, não creio que esteja procurando algo, muito menos na hora do pôr-do-sol, onde a vista fica confusa. Acho que espera um amigo.

- Garanto que é um homem santo, e procura a iluminação, - comentou o terceiro.

Começaram a comentar o que o tal homem fazia, e tanto se empenharam na discussão que quase terminaram brigando. Finalmente, para resolver quem tinha razão, decidiram subir a montanha e ir até o homem.

- O senhor está procurando sua ovelha? - perguntou o primeiro.

- Não, não tenho rebanho.

- Então, com certeza, espera alguém - afirmou o segundo.

- Sou um homem solitário, que vive no deserto - foi a resposta.

- Por viver no deserto, e na solidão, devemos acreditar que é um santo, em busca de Deus, e está meditando! - disse, contente, o terceiro homem.

- Será que tudo na Terra precisa ter uma explicação? Pois então explico: estou aqui apenas olhando o pôr-do-sol: isso não basta para dar um sentido à nossas vidas?

Solitário no caminho

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A vida é como uma grande corrida de bicicleta, cuja meta é cumprir a Lenda Pessoal - aquilo que, segundo os antigos alquimistas, é nossa verdadeira missão na Terra.

Na largada, estamos juntos - compartilhando camaradagem e entusiasmo. Mas, à medida que a corrida se desenvolve, a alegria inicial cede lugar aos verdadeiros desafios: o cansaço, a monotonia, as dúvidas sobre a própria capacidade. Reparamos que alguns amigos já desistiram no fundo de seus corações - ainda estão correndo, mas apenas por que não podem parar no meio de uma estrada. Este grupo vai ficando cada vez mais numeroso, com todos pedalando ao lado do carro de apoio - também chamado de Rotina - onde conversam entre si, cumprem suas obrigações, mas esquecem as belezas e desafios da estrada.

Nós terminamos por nos distanciar deles; e então somos obrigados a enfrentar a solidão, as surpresas com as curvas desconhecidas, os problemas com a bicicleta. Em um dado momento, depois de alguns tombos sem ninguém por perto para nos ajudar, terminamos por nos perguntar se vale a pena tanto esforço.

Sim, vale; é só não desistir. O padre Alan Jones diz que, para que nossa alma tenha condições de superar estes obstáculos, precisamos de Quatro Forças Invisíveis: amor, morte, poder e tempo.

É necessário amar, porque somos amados por Deus.

É necessária a consciência da morte, para entender bem a vida.

É necessário lutar para crescer - mas não se deixar iludir pelo poder que chega junto com o crescimento, porque sabemos que ele não vale nada.

Finalmente, é necessário aceitar que nossa alma - embora seja eterna - está neste momento presa na teia do tempo, com suas oportunidades e limitações; assim, em nossa solitária corrida de bicicleta, temos que agir como se o tempo existisse, fazer o possível para valorizar cada segundo, descansar quando necessário, mas continuar sempre em direção à luz Divina, sem deixar-se incomodar pelos momentos de angústia.

Estas Quatro Forças não podem ser tratadas como problemas a serem resolvidos, já que estão além de qualquer controle. Precisamos aceitá-las, e deixar que nos ensinem o que precisamos aprender.

Nós vivemos num Universo que é ao mesmo tempo gigantesco o suficiente para nos envolver, e pequeno bastante para caber em nosso coração. Na alma do homem está a alma do mundo, o silêncio da sabedoria. Enquanto pedalamos em direção à nossa meta, é sempre importante perguntar: "o que há de bonito no dia de hoje?" O sol pode estar brilhando, mas se a chuva estiver caindo, é importante lembrar-se que isso também significa que as nuvens negras em breve terão se dissolvido. As nuvens se dissolvem, mas o sol permanece o mesmo, e não passa nunca - nos momentos de solidão, é importante lembrar-se disso.

Enfim, quando as coisas estiverem muito duras, não podemos esquecer que todo mundo já experimentou isso, independente de raça, cor, situação social, crenças, ou cultura. Uma linda prece do mestre sufi Dhu 'l - Nun (egípcio, falecido em 861 AD) resume bem a atitude positiva necessária nestes momentos:

"Ó Deus, quando presto atenção nas vozes dos animais, no ruído das árvores, no murmúrio das águas, no gorjeio dos pássaros, no zunido do vento ou no estrondo do trovão, percebo neles um testemunho a Tua unidade; sinto que Tu és o supremo poder, a onisciência, a suprema sabedoria, a suprema justiça."

"Ó Deus, reconheço-Te nas provas que estou passando. Permite, ò Deus, que Tua satisfação seja a minha satisfação. Que eu seja a Tua alegria, aquela alegria que um Pai sente por um filho. E que eu me lembre de Ti com tranqüilidade e determinação, mesmo quando fica difícil dizer que Te amo."

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